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3 de março de 2026

Carnavalismo e Literatura

Escrito entre 1986 e 87. Retirado do baú

“Benevenuto pensou por um instante que todas as nossas festas tendem para o Carnaval e que aquelas damas falavam da grotesca panateneia fúnebre, do préstito em homenagem a um morto, com o mesmo ‘elan’ em que falariam das cavalgadas dos clubes carnavalescos”. Lima Barreto – Numa e a Ninfa.

Considerado como um gênero polimórfico, pode-se chamar de carnavalismo toda a literatura que reúne elementos de sátira, comédia, paródia, ou qualquer narrativa que se sustente numa linguagem abusiva, deformada, decorativa, irônica e crítica simultaneamente. Não apenas pode ter uma construção totalizadora como em Rabelais ou Joyce, como também ser expressões dentro de qualquer texto literário, e nesse caso a carnavalização passa a ser uma operação específica; fragmentos com a função de epitetha ornantia, isto é, ornamentações invocadoras do riso com a particularidade de uma linguagem onde o popular e o erudito se fundem em planos de similaridades e oposições; os extremos se tocam. Pelo erudito, através do efeito de dourar a pílula. No popular pela indefectível mania de enfeitar o maracá.

A rebelião carnavalizadora tem um duplo sentido: de um lado, espelha uma profunda crise ética e moral da sociedade, e de outro revela o daimônico posto a serviço da arte, sendo uma resposta do artista as contingências do meio, tomando circunstancialmente a denominação de um ismo vanguardista ou da tradição prefixada por um neo. Observa-se um carnavalismo tanto no barroco latino-americano como no modernismo brasileiro. Entretanto, surpreendentemente o vocábulo não é usado pela maioria dos críticos para a classificação de uma literatura tão recorrente do ponto de vista histórico, e ao mesmo tempo tão definida, preferindo estes críticos termos como macarrônica, pedantesca, grotesca, extravagante , etc. Parece que a tendência de subvalorizá-la, em função de considerações de ordem moral como estética, não esconde uma tendência reacionária da crítica. Como se a obra como tal fosse uma excrescência descartável de pouco valor, e não um diagnóstico preciso de uma situação rica na denúncia da degradação dos valares humanos, que vão desde a insubmissão anárquica do barroco ao antropofagismo.


CARNAVALISMO E BARROCO SÃO EXPRESSÕES DE REALIDADES INTERCAMBIÁVEIS

Do ponto de vista do estudo das formas de expressão, pode-se dizer que carnavalismo e barroco estão no mesmo quadrante do universo literário, ainda que resguardem diferenças difíceis de identificar. Enquanto o barroco, especialmente o latino-americano, enfatiza o fantástico e o maravilhoso, o carnavalismo se coloca no espaço da crítica, da mordacidade e do riso. Entretanto, o próprio barroco não se distingue da carnavalismo se ambos se colocam no espaço do ornamental.

Entretanto, as dificuldades da estilística são enormes, pois na constelação de signos e dispositivos, o que confere predominância a um certo estilo são particularidades dentro do texto e não sua exclusividade. Ocorre que um único texto pode agregar diversos estilos, principalmente nas fases de transição ou diacrônicas, e denominações não são mais do que recursos de periodicidade no tempo para facilidade de taxionomia. Os dispositivos estilísticos não costumam ser inovações, mas recorrências que uma determinada época amplia e reelabora agregando novos valores conjunturais.

Todas as épocas e períodos históricos oferecem uma unidade interna presente nos pontos de vista, atitudes, valores, crenças, modismos e gírias que criam o chamado espírito da época. No período barroco pós-renascentista da segunda metade do seculo XVI a meados do final do século XVIII a essência do espírito da Contrarreforma era o dualismo de oposições entre o teocentrismo e o humanismo secularista. Essas dualidades revelavam-se nas contradições entre sensualismo e misticismo, realismo e idealismo, erotismo e religião [Afrânio Coutinho - Literatura no Brasil - cap. do Barroco ao Romantismo]. Mas se elementos antitéticos também constituem o universo carnavalesco, as distinções entre barroco e carnavalismo, especialmente na vertente modernista brasileira, se confundem e podem ser intercambiáveis.

Tanto num como noutro vamos encontrar ilusionismo, naturalismo, exageração e individualismo. Em ambos encontramos tendências a imoralidade, crueldade, zombarias cínicas, brutalidades pejorativas, etc. O confronto violento de ideias antagônicas: admiração e desdém, amor e morte, corrupção e probidade. Os dois expressam um sentimento de grandiosidade, magnificência e exageração, com recursos hiperbólicos, perifrásticos e uma tendência ao uso de superlativos. O jogo de imagens ornamentais que são recorrentes na cultura, radicaliza-se na literatura, que espelha fielmente os fenômenos da carnavalização, não se restringindo ao paródico, porém, refletindo todas as circunstâncias de apreensão da realidade como instigadoras de construções textuais.

O espírito da Contrarreforma, com sua estrutura hierárquica, burocrática e dissimuladora do Poder Imperial, do irracionalismo atemorizador do Santo Ofício, e de uma economia voltada para a ostentação espetacular, criaram a necessidade de dispender imensas fortunas com um aparelho superestrutural ideologicamente limitado, restrito, patrulhador, conduzindo inevitavelmente ao exercício de uma linguagem hiperbólica, de uma arte excessivamente decorativa. O barroco espanhol e latino-americano estão alicerçados na orquestração de um Poder cuja estrutura imobiliza e reprime, aquieta e subordina, constrange e desconfia, disfarça e concede. Daí a solução de Cervantes. Se a realidade imobiliza Don Quixote, as alucinações lhe põem em movimento. A busca da justiça ou propugna a derrocada da Ordem e se condena, ou é conduzida pela imaginação alucinatória e se absolve no burlesco. Se a degradação faz de Sancho Pança um ser socialmente imobilizado, incapaz de ascender a condição de governador de uma ilha, em ambos o conflito de identidade conduz ao daimônico, a loucura da criatividade e do questionamento da vida como um todo. As tapeações a que Sancho Pança se submete acaba em fiasco e ódio mortal a todos os governos do mundo. Ódio não tanto da incapacitação pessoal de um escudeiro aos procedimentos da burocracia, como do Poder exercido através de uma conspiração burlesca e de diversas dissimulações cujo fim último é conservar a estrutura social paralisada.

Se a Reforma identifica a degradação das palavras com a corrupção da alma, dando abertura para a trivialidade verbal e sendo a gênese da subliteratura e do potboiler de consumo, a Contrarreforma reforça a solenidade, criando uma imagem ritual baseada na grandiloquência e no êxtase, no luxo e na ostentação. Uma linguagem que capturasse as representações e similitudes das coisas, vinculadas a um quadro incessante de comparações metonímicas, num entrecruzar tal que a sintaxe se turva, que as formas adquiram um recorrente murmúrio de semelhanças, como diz Foucauld, privilegiaria um falar ritualístico da natureza e dos homens.

Foi o que fez Lezama Lima em seu famoso livro Paradiso. Para Lezama a linguagem ornamental é a essência da realidade. Transformar a linguagem num objeto suntuoso, alegórico, altissonante, é o exercício intrínseco do objeto narrativo, associado a uma episteme radicada desde a filosofia animista da antiguidade, passando pelas correntes herméticas, esotéricas e mágicas, até o tomismo e o subjetivismo pascaliano. O domínio da criatividade linguística conduzida esplendidamente, perde contato com os valores de referência e se constrói a si mesma, ganha um corpo independente, cria uma realidade material que salta fora do inteligível imediato e se vincula no êxtase do mistério, lugar privilegiado da imagem produzida pelo sobrenatural e seu obscurecimento difuso, com um agregado de lantejoulas sintáticas reluzentes, como forma que se decompõe no excesso de luz, na perda de contornos. Relativamente ao falar humano, Lezama elaborou uma linguagem festiva, um rito que se confunde com uma busca de transcendência. Essa obsessão pelo ornamental não é espontânea, porém atua como uma força subterrânea no universo cubano miscigenado que se concilia com a tradição barroca.

Não descartando os maneirismos, o carnavalismo é um barroco que ri, enfatizando uma narrativa cômica de sensualidade verbal pontilhada de ironia e alusões como irrenunciável tendência ao desmascaramento e ridicularização das veleidades humanas. As diversas intertextualizações produzem múltiplas linguagens possíveis na falar que se proliferam com a abundância de signos na sociedade contemporânea. A migração de um discurso em outro, as diagonalizações na cultura que tendem ao sincretismo, são características mais carnavalistas que barrocas. O daimônico erótico é naturalmente metafórico metonímico e alegórico. A linguagem abusiva pode provir de fontes populares ou ser um árduo trabalho intelectual para o texto fugir de toda a linearidade trivial, embora o prosaico encontre um lugar dialético na sofisticação textual. Um exemplo seria: "O tampo rotundo do bumbo retumba, cuícas catucando um batecum macambúzio de macumba." (Dante Milano). A expressão é tão musical quanto o significado. Reproduz a mesma animação que a audição cadenciada do bumbo e cuíca que menciona. A sequência de fonemas aliterantes anasalados consegue uma retumbância de tons tão airosos como o bater sincopado da charanga que sugere. Se na primeira parte da expressão apenas se anuncia algo, na segunda nota-se perfeitamente a inconfundível intenção debochada do autor conciliar-se com a descrição pretendida.


ALGUNS EXEMPLOS DE CARNAVALIZAÇÃO LITERÁRIA

Mario de Andrade e seu homônimo inimizado Oswald, foram dois escritores que se destacaram no uso do deboche e da ironia de um ponto de vista erudito. O bem conhecido Macunaíma dispensa comentários. Retratando nosso mundo pré-moderno, Mario funda o modernismo. Rompendo o cânon da língua portuguesa, escrutina o folclore tupi-guarani, mostrando que no pré-colombiano também tem carnaval. Porém, as Enfibraturas do Ipiranga parecem ter o propósito exclusivo de escrachinar com a sociedade brasileira do início do século XX. Chamado de Oratório Profano, Mario, como conhecedor de música, imaginou um coro de 550.000 pessoas comandadas por uma Orquestra na esplanada do Teatro Municipal de São Paulo. A massa que ocuparia o Viaduto do Chá ao Vale do Anhangabaú dividia-se num coro denominado: “Os Orientalismo Convencionais (escritores e demais artífices elogiáveis); as Senectudes Tremulinas, milionários e burgueses); os Sandapilários Indiferentes (operariado, gente pobre), as Juvenilidades Auriverdes (nós) e, por último, um soprano ligeiro e solista chamado Minha Loucura”. Para escarnecer com o conservadorismo estético de sua época, Mario põe na boca dos Orientalismos Convencionais versos rimados e grotescos, desanca com a ambiguidade e ignorância das Senectudes Tremulinas, goza com a ingenuidade e idealismo das Juvenilidades Auriverdes, e por fim, coloca Minha Loucura como uma voz estranha, patética até, a causar estupefação entre os demais, para que o grande coro termine num final de vaias, zurros e patadas, um final genialmente brasileiro como forma de exprimir as diferenças sociais. Indubitavelmente Mario foi um dos grandes satiristas da Revolução de 22, evidenciando que o movimento era de forte tempera carnavalista, até que o serviço público, com sua travestida exigência de probidade – que faz da seriedade a justificação do parasitismo e da inutilidade – desvia o conteúdo estético carnavalesco da obra de Mario, tornando-a menos instigante.

Mesmo assim, a carnavalização tinha que ser perfilada por outros representantes, senão como definir o poema abaixo composto pela sequência alfabética do dicionário da época?

Zabaneira /Zabel‚ / Zabro / Zabucajo / Zabumba / Zaburro / Zaco.

O pseudopoema aparece na Revista de Antropofagia no 6, e embora assinado por pseudônimo sugere a autoria de Oswald de Andrade. O sucesso do modernismo para as presentes gerações, sua inegável vinculação estética ao patrimônio cultural brasileiro, a alta sensibilidade inovativa de seus representantes, o sentido do antropofagismo como transculturação de valores universais ao verde-amarelismo nacional, o desvairismo como fenômeno psicossocial brasileiro, sugerem que modernismo, antropofagismo e carnavalismo estão na mesma ótica.

Em Serafim Ponte Grande temos talvez o ápice do carnavalesco do modernismo na sua vertente mais radical e sardônica. A investida cáustica contra a sociedade orientou Oswald de Andrade à pulverização do falar para a fragmentação compulsiva do deboche. O daimônico abrange a totalidade da criação. A imaginação erótica de Serafim e seu compadre Pinto Calçudo (expurgado no meio do livro pela infâmia do próprio comportamento), mostra a libido com uma componente obscena de uma crueza inédita na literatura na época, com um realismo que poucos autores se aventuram pelos mesmos caminhos de comprometimento em nome da sofisticação da própria arte. A irreverência sardônica é em Oswald o motivo mesmo da criação. O sexo como tonalidade picante da vida social é o objeto da heroicização do personagem e ao mesmo tempo de humor bagaço, de boca de rua, existencial, isto é, transgressivo. Oswald investe contra a moral burguesa no desnudamento do erotismo do cotidiano que a maioria dos escritores não tem coragem de abordar. O livro é um agregado de erupções e cataclismos, como Oswald entendia a personalidade humana: "O homem é um microcosmos! Por assim dizer um resumo da terra e como tal ‚ guiado por leis imutáveis e eternas. Estou de acordo com essas ideias provadas pela ciência. Porém, há  as erupções, há os cataclismos!"

As metáforas ensandecidas pela recorrência poética: "um sino corta pelo meio um tiro de Igreja e cada bala é uma dançarina que procura o bolso de um homem". A derrisão é o fio condutor da criação literária. E mais: o estabelecimento do critério de continuidade do texto, de coerência estética e unidade formal. Falar descaradamente é revelar o lado privado dos costumes, das paixões epidérmicas, da libido recorrente. Oswald faz a dissecação psicológica do macho brasileiro, farejando sexo com pornosóficas intenções, traduzindo o estado de espírito em que o sexo se intromete em insinuações veladas do relacionamento. Em todos os episódios, São Paulo, Rio, num navio rumo a Europa, em Paris, na Suíça, em viagem ao Oriente passando por Nápoles, sempre o Serafim mulherengo anima as narrativas de viagem com galantes conquistas de mulheres da burguesia enfarofada dos salões. A técnica polifônica e metonímica salva o sexo das descrições banais, e portanto da pornografia.

O elemento paródico traveste a construção da sentença oswaldiana com galhofeiras intenções. Ele ridiculariza seu tempo impiedosamente, pinçando episódios da vida burguesa para traçar uma Odisseia esfarrapada de galanteios.

Impropriamente muitos críticos chamam de barroco o que deveriam chamar de carnavalismo. Um exemplo é G. Cabrera Infante no livro Três Tristes Tigres. Num final de tarde avançando para a noite, Arsênio Cuê e Silvestre – na última porém mais significativa parte do livro – passeiam de carro pelas ruas de Havana fazendo uma ronda boêmia em bares e locais de passeio da cidade, conversando sobre Cuba, música, existencialismo e cinema: nada mais. Tudo é uma abundância de signos vertidos para o linguístico cubano; um desfile verbal que é o próprio carnaval do falar enquanto andam de carro pelas ruas de Havana dos idos tempos pré-revolucionários do turismo e dos cabarés. Entretanto, o método de Cabrera Infante escapa ao barroco tradicional. É pura psicologia dionisíaca na forma mais clássica: logopeia. Seu humor é monocorde pois não se baseia em argumento – e portanto destituído de ironia – mas simplesmente em dissolvências mnemotécnicas do texto sugeridas por contiguidade: "velho morre o cine, o cisne, e ninguém fala mais dele". Trocadilhos que não se restringem ao espanhol, mas vão também para o inglês se a referência na conversação é algum autor ou nome.

"Quem diz isso? Aldous Huxley. Ah, sabia que não era ideia tua. O ensaio não é o teu forte. Ensaios, essais, essays. Para Aldous Husley são exsays". Oscarwilderness por Oscar Wilde, Morbyd Dick por Moby Dick, Polifeio por Polifemo, matáfora por metáfora. Modificações de provérbios como: "para o entendedor indócil palavras não bastam", ou "na terra dos tortos quem é cego é rei", e diversos outros exemplos.

A medida que avançam na noite, a bebedeira provoca dissolvências sucessivas. Na selva alusiva de signos, Cabrera Infante quer mostrar que todos eles estão em relação, e ainda mais, que são quase todos aparentados, seguindo a linha joyceana suficientemente conhecida de interpolação da sintaxe. Se na base da psicologia carnavalesca está a inversão, o método mnemotécnico procura a deformação de palavras que possam sugerir um efeito jocoso nas infinitas possibilidades de relações da linguagem. Conseguido o efeito de glosolália, o capítulo diverte pelo que sugere chistosamente, e chamar de barroco a Cabrera Infante serve apenas para vinculá-lo à tradição cubana do que as definições de uma estética.

Outro exemplo de literatura facilmente identificável como carnavalista encontramos no livro Abacaxi de Reinaldo Moraes. Trata-se da estória de um bolsista brasileiro que retorna de Paris ao Brasil via Nova Iorque onde se hospeda alguns dias na casa da amiga de uma amiga. A passagem num luxuoso apartamento junto a um antro de dissolução e libertinagem dos ricos brasileiros morando em Manhattan é toda a estória dessa pequena novela. Reinaldo Moraes, na linguagem de Oswald, usa um estilo essencialmente bagaço, galhofa e desengonçado de erotismo putanheiro.

O pretenso erotismo do personagem esconde sua impotência produzida pela intoxicação do excesso de álcool e drogas. Necessário paradoxo: nos dias atuais o pornográfico quase sempre elide uma impotência. Mais do que um impotente, o personagem é um doente, um homem em estado de degeneração vomitando por banheiros, agarrando-se em mulheres e envolto no ridículo da amnésia alcoólica, prestes a decompor-se em vômitos e fezes.

O grotesco no Abacaxi prova como se conhece pouco sobre o kitsch. O livro tem boas metáforas, gírias, originalidade e criatividade. Usando uma linguagem leprosa, gosmenta e vomitiva, o autor consegue mostrar o desespero do personagem em plena dissolução orgânica, lembrando o Almoço Nu de um Burroughs tropical ou um Bukowski no filme Crônica de um Amor Louco de Marco Ferreri. O carnavalismo do livro situa-se na zona do energumismo porra-louca e piração da juventude dos anos 80. Por isso representa com contundência uma geração que sente asco do mundo e se apega ao insensato como forma de rebeldia.

Outro livro, a Guaracha do Macho Camacho de Luis Rafael Sánchez perfila-se também entre as manifestações estéticas puramente carnavalescas. Uma literatura essencialmente daimônica, onde a comicidade tem precedência como construção de realidades, como cânon específico do subdesenvolvimento de sociedades que ficaram no pré-moderno, ou ainda que não conseguiram ser sérias institucionalmente, onde o farsesco rola incessantemente no desfile dos fatos cotidianos.

A novela descreve a calhordice do senador Vicente Reinosa e sua(s) amante(s), enquanto a guaracha do negro chamado Macho Camacho penetra em todos os ambientes porto-riquenhos como uma febre tropical com o refrão " a vida é uma coisa fenomenal" ; o senador é anunciado com slogans eleitorais de inquestionável probidade: "Vicente é decente e seu humor é envolvente; Vicente é decente e seu verbo contundente; Vicente é decente e seu talento eminente; Vicente é decente e não mente; Vicente é decente e sua razão é excelente".

As descrições do livro circunscrevem-se aos apetites sexuais do senador, diálogos de uma velha e seu amante (que podem ser o senador e a amante), da mulher do senador que espera para ser atendida num consultório psiquiátrico, e de Benny, o masturbativo filho do senador, playboy bocilizado por uma Ferrari, e seus colegas filhos de papai com passagens pelo maltrato das prostitutas à ações terroristas.

Em Sánchez o corpo está presente centralmente na escritura sob a ótica do ridículo e como imagem gestual do cômico, como sugestão ridicularizadora de todas as coisas. Um texto com o daimônico se lasqueando constrói as imagens picantes que se assemelham a um Oswald, como por exemplo: "Desculpe, China Herege, mas a sua desnudez pletórica de redondezas com o seu vinhadalho espesso de suor cândido patrocina em mim o caro reencontro com as ânsias erógenas saídas à luz pública há longos anos".

A Guaracha do Macho Camacho comove até mesmo a popularíssima cantora Iris Chacón, e percorrendo o texto junto aos slogans do senador, Sánchez demonstra o quanto a vida guarda de carnaval quando amarrada a um impasse, a uma impossibilidade de ruptura, um devir que não vem. Reproduzindo o farsesco, um tom irônico percorre o livro, a realidade e a vida como tal: "Não lhe disse o psiquiatra, quando a contratou que escolhesse, pesasse e medisse o vocabulário, porque a clientela dos psiquiatras era vip, soçaite, mainly não-me-toque e pagadora fiel de quarenta dólares por hora de divã e escuta?"

“A clientela dos psiquiatras: fabulosa fauna de fabuladores".

Intercalando a linguagem publicitária do texto, os anúncios de um disc-jóquei, Sánchez constrói uma trama verbal onde aparência se confunde com essência, e a imagem política com a realidade.

De Cervantes a Cabrera Infante, de Oswald a Sánchez, podemos analisar a estrutura literária segundo três tópicos: a imobilidade do indivíduo na estrutura social, a degradação dos valores da cultura e a crise de identidade. E também noutro eixo: o apelo erótico, a sufocação pela proliferação de signos e a infrene presença do farsesco. Atuando sobre a imaginação, parodiam a realidade no que ela tem de invertida; desde a simples falsificação até a jocosidade do redemoinho relacionável de signos da cultura contemporânea e de todos os tempos. Assim, quanto mais o discurso se afasta de seu exercício normatizado pelas burocracias, mais intimamente se associa com aquilo que pretende demonstrar.

O tecido de semelhanças entre Oswald, Joyce ou Sánchez se radicalizam nas transgressões das normas sociais quando o daimônico se apossa da criação. Se o elemento paródico vale como análise da literatura enquanto objeto, não serve para escrutínio de suas motivações que se baseiam na sensibilidade às inversões consolidadas, a realidade Política da sociedade. "O meu país está doente há muito tempo. Sofre de incompetência cósmica", desabafa Oswald no Serafim.

São constatações políticas que incitam a invectiva contra a moralidade vigente, contra a esclerose mental da sociedade manifestadas num anticonformismo agressivo que só pode ganhar vigência na própria transgressão sintagmática do discurso narrativo. A linguagem beligerante usa recursos paródicos, mas ela não existe em si mesma senão alimentada por uma intenção demoníaca de resultado carnavalesco, de mimeses da estrutura social que comenta e de radicalização moral. Por isso o perfil feminino‚ sempre pudico, enquanto o masculino é o transgressor, o único que sexualmente confessa o desejo de superação orgiástica.

Em toda a narrativa carnavalesca verificamos a mesma causa motora: o daimônico construtivo posto a serviço da criação. A indignação convertida em trabalho artístico, o artista como um rebelde, a razão humana como insurgência contra o caos, o dionisíaco como falsificador de vitalidades apolíneas. E por fim, uma constatação despercebida pelos críticos. Tanto o Serafim como Macunaíma são personagens pré-modernos que paradoxalmente se autointitulam representantes de um movimento cuja amplitude universal lhes nega: o modernismo. Nada mais distante do racionalismo moderno (e sua banalização literária) do que Serafim e Macunaíma.


ORWELL E A FALÊNCIA DA MODERNIDADE

No 1984 de George Orwell temos a elaboração do daimônico da forma mais equivocada produzida pela modernidade. Orwell imagina uma realidade demoníaca de fora para dentro, a partir de uma superação da modernidade e seus valores de pluralismo e tolerância para um Estado Totalitário articulado sem dissimulações. Para o moderno Orwell (o inglês Orwell), o sistema de inversão consiste numa outra linguagem que é gerada lentamente e assume urna totalidade intencional: a Newspeak: as inversões war is peace, freedom is slavery, ignorance is strength, além dos vocabulários A, B e C (o vocabulário A uma espécie de latinização do inglês), comprovam que o método de Orwell consiste em pensar a realidade como uma dualidade maniqueísta onde o Partido dominante não tem contradições internas e consegue subjugar a sociedade manipulando o pensamento através de um doublethink voluntário e intencional. Semeia o horror pelo controle tecnológico de cada cidadão. Ele não entende as relações entre estatismo e burocracia, ou como o jogo de boas intenções se invertem em dissimulações, e ao propor uma nova linguagem, não consegue escrever através dela, por isso sua falência estética. Ao desconfiar da alta tecnologia, comete o equívoco de suspeitar que o Poder gerado pela tecnologia seja cada vez mais possível de ser usado contra a humanidade e não a seu favor. Não conseguindo superar o impasse entre a linguagem da modernidade e a linguagem burocrática, mostra una ditadura comum, secular e recorrente para o terceiro mundo. A solução estética, a opressão enquanto sistema de dissimulação pelo antagonismo entre estatismo e sociedade civil travestido como liberdade, exigiria uma outra ordem linguística cuja semiótica não se inclui no arcabouço orwelliano. Ela teria que ser a linguagem carnavalesca, com uma composição que a partir do Poder, da Política e das relações sociais fosse engendradora natural de inversões. E precisamente neste ponto a modernidade não entende o terceiro mundo.

A literatura americana é desinteressante porque pratica o taylorismo literário: não cria, produz. Não esteticiza, estiliza. Não tem tempo para uma grande obra: segue a tradição. O escritor americano tem no desejo de riqueza precedência sobre o desejo de personalização inusitada. Não acredita na virtude, mas no domínio técnico do texto. Não deseja a originalidade, esta busca do inalcançável, apenas quer fazer as coisas bem feitas. Sua audiência é sempre o homem médio, nunca o homem culto. Os personagens são figuras do povo, nunca elites intelectuais. Sua literatura está  voltada para o mercado, não para as minorias. Os escritores são consagrados pelo grande público, não por estudiosos. Não se trata de eruditos, mas de excelentes técnicos. As exceções são poucas e na novela destaco The Confederacy of Dunces, J Kennedy Toole, e espalhado pela obra e roteiros de Faulkner.

Na diversidade de enfoques possíveis de serem tomados para a análise literária (tensão, trama, linguagem, etc), os americanos não incluem na literatura aquilo que poderia defini-la como essencial no carnavalesco: o estudo das formas de expressão. Não são barrocos ou carnavalescos à Joyce, muito menos acadêmicos. Não tem o gosto pelas diagonalizações do saber e pelo conhecimento multidisciplinar: criaram em F. Scott Fitzgerald a chamada Era do Jazz, porém não há nada de jazz na narrativa de Fitzgerald que se compare a Cortázar. A principal característica dos americanos consiste em procurar suas próprias vozes interiores, esse caráter prático, simples e bonachão.

A principal lição que a modernidade fornece à criação literária radica-se na atrofia da linguagem. Sendo o jornalismo a racionalização da linguagem por excelência, o escritor norte-americano insere-se nesta racionalização porque a literatura não se distingue da militância jornalística. E para a sociedade moderna, para que tudo esteja mudando tecnologicamente, o essencial é que a linguagem não mude. Com isso, se o acervo linguístico tem que se manter estável, a própria literatura tem que ser vista como um conjunto de conhecimentos técnicos e de recursos construtivistas. Sendo parte importante de divulgação dos valores de uma sociedade que se quer estável, o daimônico volta-se para a transgressão enquanto delito socialmente regulado: a novela policial. Eliminando a questão estética, a paixão pelo demoníaco se encerra no crime. A busca do mistério no comportamento humano elide o misterium tremendum da própria vida, bem mais do que o simples duelo obsessivo entre o matar e o prender.

Com isso desenvolve-se uma literatura com uma função importante: ela representa as aspirações do homem massa orteguiano. Este homem que bate ponto todas as manhãs, e se dedica a trivialidades, não quer falar dos grandes problemas humanos invocados pela literatura. Ao contrário‚ é seu inimigo número um. Naturalmente, esse homem hedonista tem um imaginário solicitado por histórias de intriga e mistério: a leitura não é conhecimento, mas lazer. Por isso a literatura de ação tem uma enorme massa de fãs e leitores. São seres que consomem avidamente tudo que lhes seduz pela aventura, autodeterminação, facilidade de recursos tecnológicos, eficiência, gostos bem definidos, moderação, ironia precisa e um saudável estilo de vida: isto é, tudo que o leitor deseja.

Por isso, a falência estética de George Orwell em perceber que a linguagem da Oceânia deveria ser diferente e não conseguir escrever nesta linguagem, mostra sobretudo a falência da modernidade em termos de expressão literária vis-à-vis com a tradição carnavalesca.

MACEDONIO E O DESCONSTRUTIVISMO

Ninguém mais desconhecido e ao mesmo tempo mais relevante para as letras latino-americanas, poderia estar entre os escritores que no presente século distinguiram-se pela inovação literária, pela originalidade criativa e por uma expressividade em que o patético seja a condição do pensamento e da elaboração da escritura do que Macedonio Fernandez. Considerado o mestre intelectual de Borges e Bioy Casares, Macedonio influenciou uma geração inteira de escritores argentinos, e seguramente a irradiação de suas obras tem o poder de fertilizar quaisquer correntes cujas preocupações estéticas sejam iluminadoras da atividade literária.

Nascido em 1874 e morto em 1952 em Buenos Aires onde viveu toda a sua vida, Macedonio foi um escritor de fragmentos, contos, chistes, novelas e poesias, e quando citado por Borges se torna autor de tudo o que este escreveu de melhor: "Imitei-o naquela época, até a transcrição, até o plágio devotado e apaixonado. Eu sentia: Macedônio é a metafísica, ele é a literatura. Aqueles que o precederam podem resplandecer na história, mas eram caricaturas, rascunhos de Macedonio, versões imperfeitas e prévias. Não imitar este cânone teria sido uma negligência incrível". Num depoimento ao seu tradutor norte-americano, Borges diz que Macedonio, ao ficar viúvo, abandona a família para viver em pensões baratas com móveis rudimentares feitos de caixões, cercado por pedaços de papéis onde fazia anotações, maços de cigarros, cinzeiros, um violão que nunca se separa e que eventualmente dedilhava uma milonga, e uma caçarola pendurada na parede que volta e meia metia num fogareiro para cozinhar batatas com carne. Sua simplicidade metafísica e desapego das coisas materiais (para uma família de relativas posses) foi uma dedicação exemplar à metafísica. Borges chegou mesmo a afirmar que para Macedonio a ostentação "lhe parecia uma coisa fútil, vã, e até mesmo do ponto de vista intelectual, uma maneira de não pensar".

Seus interesses pela estética da novela foram esboçados no Museo de la Novela de la Eterna. Nela os personagens passam apenas furtivamente, mas nunca são a própria novela. Para radicalizar a busca da realidade, Macedonio insurge-se contra todos os sistemas de ilusionismo (a religião, a publicidade, a loteria, e obviamente, a literatura). São sistemas portadores de tensão e êxtase, mas não de controvérsia filosófica. Todo ilusionismo é portanto um sistema que se funda numa retórica. Para uma novela ser "real" ela deve abordar o ato de escrever e não suas consequências. Por isso Macedônio escreve em prolepse, como alguém que procura personagens e fala da procura, do personagem, e da reflexão que o personagem faz da novela, que não casualmente recebe o título de Primera Novela Buena.

Macedonio narra interrupções, fendas, suposições, discussões sobre o fazer literário que é a única realidade verdadeira e não a própria novela que necessariamente se extingue ao final, independente do destino do personagem. Eles são expulsos, ignorados, confundidos, substituídos ou interpolados. Estão vendo-se e imaginando-se simultaneamente. Falam-se sem serem personagens, as vezes estão sonhando-se reciprocamente, outras vezes permitindo que o leitor os ignore e passe adiante, pule capítulos ou volte atrás.

Em Adriana Buenos Aires, escrita cronologicamente antes, a construção é convencional, o que explica o subtítulo de Última Mala Novela, e trata do amor de um velho por uma jovem prostituta enamorada de outro que não pode casar-se com ela e enlouquecendo, desconhece a realidade da devoção amorosa de Adriana. Macedonio recria o amor com uma dimensão shakespereana precipitadora da tragédia, numa atmosfera de pensão onde a grandiosidade da indagação metafísica é contrabalançada pela comicidade dos hóspedes postos em relação de convivência comensal. O ser e o não-ser emolduram toda a obra macedonica, pois ambos são efeitos da inexatidão, do ilusionismo e da perplexidade.

Seu método pode ser enquadrado no que presentemente se chama de desconstrutivismo. Uma proposição é apresentada para apoiar outra, mas um deslocamento verbal da primeira altera significativamente a segunda: "Duas pessoas tão caracterizadas pela clareza e as quais por isso mesmo deve se supor garantidas contra confusões, tem sido claramente confundidas uma com a outra: Einstein e eu". Ao mesmo tempo que faz uma afirmação, Macedônio a nega na linha seguinte; depois segue-se o argumento que pode repetir o esquema ou derivar para imagens cômicas sucessivas. O sistema vai se repetindo até finalizar. Para afirmar e negar simultaneamente, usa a virgulação como suspensão epistemológica, caindo muitas vezes na prolixidade de frases longas onde o leitor não sabe mais onde se encontra o sujeito. Mas ele próprio adverte para a suspeita de que por trás da clareza pode estar a banalidade. A escritura macedonica apresenta uma rígida versão de enunciados seguidos de frases intencionalmente grandes como articuladoras de uma armadilha para dispersar o leitor e metê-lo na cilada da contradição, de onde surge o efeito cômico.

Sua literatura não é uma descrição de fatos, de comportamentos, mas uma escritura cheia de segredos e particularidades, de intenções órficas, como diria Lezama, de metáteses hiperbólicas, de transposição de planos de linguagem.

O desconstrutivisrno macedonico representa uma subversão de nossos parâmetros logocêntricos, da hierarquia dos termos do discurso; uma reviravolta na genealogia dos conceitos, uma alternância entre causa e efeito. Sendo o logocentrismo uma forma ubíqua do pensamento que está presente em todas as suas manifestações, para cada termo existe um outro que conceptualmente lhe opõe ou nega; as oposições sério/não-sério, bom/mau, puro/impuro, simples/duplo, nobre/vulgar, começo/fim, dentro/fora, alto/baixo, grande/pequeno, longe/perto, superior/inferior, etc., são formas lógicas coaguladas que podem ser rompidas mediante uma desconstrução tanto cômica como filosófica.

O objeto da indagação metafísica é a priori o não-ser, uma equivalência invertida do ser, e ao mesmo tempo parte inseparável do método humorístico, porém, com um peso intelectual que extrapola o meramente contingencial, tratando de descobertas que correspondem a uma reflexão sobre toda a realidade e não aspectos isolados do cotidiano. A descoberta do não-ser representa a verdadeira realidade macedônica. A perplexidade metafísica tem que ser a verdade, e só pode ser atingida mediante a consciência e articulação do pensamento. Pode-se dizer que Macedônio é um surrealista desgarrado, ou um surrealista que realizou operações sequer imaginadas pelos surrealistas – que ele mesmo nunca apoiou por uma aversão pessoal ao esteticismo que sempre lhe pareceu um desvio da metafísica – acrescido de uma recusa pessoal a todo publicismo, para ele um ingrediente banalizador da obra de arte.

A noção de contiguidade altera-se, e ganha ampla evidência quando trabalha com o tempo. A repetição (de um evento, aniversário, etc.) pode ser algo facilmente subvertido como algo não-cíclico, quando passado, presente e futuro não se intercambiem repetidamente – quando o fato é considerado uma repetição, – ou se repetem ou deslocam quando é um referencial fixo, rompendo como nossa familiaridade com o tempo, como observamos em seu livro Papéis de Recenvindo. A extrema sutileza das construções verbais pode passar despercebida pela estranheza sintagmática, mas são facilmente recuperadas no humor. O chiste tem uma didática subversiva: mostra uma inversão contrastando com a realidade, a forma do ser da coisa com sua possibilidade diferencial. Nesse momento a metafísica se torna uma obsessão pelo prazer irônico e a perplexidade do Nada, do vácuo, do não-ser, do discurso aberto, apresentando entretanto um resultado anti-deceptivo: o humorismo está sempre do lado da esperança. Ambos representam a alegria de viver.

Sendo frequentemente visitado por Borges, certa vez lhe manda um bilhete, ou melhor, escreve um bilhete, ou então o bilhete fica em algum lugar que não se sabe onde:

"Querido Jorge: Irei esta tarde e ficarei para comer se houver inconveniente e estivermos com vontade de trabalhar. (Perceberás que a vontade de jantar já a tenho e só me falta assegurar-me das outras). Tens que desculpar-me por não ter ido ontem à noite. Sou tão distraído que ia para aí e no caminho me recordo que tinha ficado em casa. Estas distrações frequentes são uma vergonha e chego até esquecer de me envergonhar. Estou preocupado com a carta que concluí ontem e selei para você; como te encontrei antes de colocá-la na caixa de correio, tive o aturdimento de abrir o envelope e colocá-lo no teu bolso: outra carta que por falta de endereço terá se extraviada. Muitas das minhas cartas não chegam, porque omito o envelope ou o endereço ou o texto. Isto me deixa tão enfastiado que pediria que viesses lê-la em minha casa. Sua função é explicar-te que se ontem a noite tu e Pérez Ruiz em busca de Bartolomé Galindez não deram com a rua Coronda, deve ser, creio, porque lhe meteram numa prisão para acabar com os assaltos que nela se distribuem continuamente. A um espanhol lhe roubaram até o zê que tanto necessita para pronunciar o esse e ainda para tossir. Além disso, os assaltantes que preferem esta rua por comodidade, queixaram-se que anda tão escura que escasseava a luz até para o trabalho deles e se viram forçados a assaltar de dia, quando deveriam descansar e dormir. De modo que a rua Coronda antes era esta e frequentava estas paragens, mas agora é outra; creio que atende ao público das 10 às 4, seis horas. O resto do tempo consome cruzada de veredas em alguma de suas casas; quem sabe ontem a noite estava metida na de Galindez: esse dia lhe tocou a Galindez viver na rua. É por turnos e este é o turno de que eu me cale. Macedônio".

Fazendo um trocadilho entre calle (rua) e o verbo calar-se, a forma macedonica está impregnada de antinomias em dois níveis: o primeiro como construção verbal e o segundo como argumento. Por exemplo:

"Distinto literato: espero que seja possível explicar por bem minha ausência pessoal em seu banquete pelo fato de que um amigo que roguei faltasse por mim não soube desempenhar-se e tive de fazê-lo eu mesmo."

Os anacolutos e as sucessões contraditórias não são uma técnica meramente substitutiva, mas elementos de uma totalidade do pensar que é transpassado pelo humor. Numa época onde a "crise da novela" vem sendo dissimulada pelo esgotamento estético de autores impérvios à criação latino-americana, Macedonio representa o triunfo antipositivista da originalidade sobre a repetição, do entusiasmo pelo presente em oposição a confiança no futuro. Por isso torna-se escritor de pequenos círculos, de sabido esquecimento. Elegendo o não-ser, negando a realidade consentida pelos sistemas de referência convencionais, burlando-se da rigidez do pensamento, Macedonio dá cambalhotas na nossa razão logocentrista:

"É tão pouco o que tenho a dizer, senhores, que temo me tome muito tempo em encontrar num brinde tão rápido um lugarzinho para situar-lhe o fim. Se a nervosidade de uma improvisação (tirada do bolso) e a brevidade que é me impossibilitassem achar um lugar final na metade ou outro ponto dela, será com grande pena que verei continuando indefinidamente e postergando para mim eternamente o gozo dos aplausos que tão espontâneos se reservam para a conclusão, se o encontro não acabou antes. No entanto, ponho a disposição das pessoas que desejam conhecer esta curta saudação as anotações acabadas nela. E tudo que termina é breve, como já observou Shakespeare."


27 de fevereiro de 2026

O SORRISO DOS GOVERNANTES

Escrito em dezembro/86. Resgatado do baú.

Nossa cultura política tem em José Maria Alkmin a expressão de sua máxima versatilidade: “importam as versões, não os fatos”. Se a versão substitui o fato, podemos dizer que a versão transforma o próprio fato num acontecimento utilitário. Se o fato diminui, a versão soma, se o fato constrange, a versão justifica. A versão pressupõe que nenhuma evidência possa comprometer o argumento inventado, e abre uma janela para a isenção da responsabilidade. Ela sugere ser uma tática de autopreservação.

A verdade constitui todos os mecanismos da imaginação que se conciliam com o próprio Poder, que não querendo modificar-se, deve apresentar uma força hegemônica tal que abrigue todas as versões que lhe conservam. Por isso, nosso estatismo não poderia ser mais revelador. Sugere a existência de inversores ativos atuando conjuntamente com um sem número de opiniões díspares como formadores de linguagens para fins particulares. O discurso como máscara não representa uma simples hipocrisia, mas o conteúdo travestido do falar e pensar para saciar privadamente grupos de interesses, e ao mesmo tempo adaptar-se à cultura. Por exemplo, um panfleto de propaganda eleitoral que circulou em São Paulo, vaticinava as opiniões do ex-ministro Delfim Netto como candidato à Assembleia Constituinte. O panfleto ilustra irremediavelmente minha tese. Diz ele:

“Duas questões vão dominar grande parte do debate institucional quando se instalar a Constituinte no ano que vem: a consolidação das liberdades democráticas e o problema da presença estatal na vida econômica do país.
“O pensamento liberal que predomina na população brasileira favorece a elaboração de uma constituição que reduz a interferência do Estado na vida dos cidadãos. A primeira coisa prática a fazer é estabelecer limites à atuação do Estado empresário-industrial-comercial. O Estado brasileiro está sobrecarregado com os encargos de execução de serviços industriais e comerciais e por isso negligencia as tarefas essenciais que compreendem: a segurança dos cidadãos, a educação pública, a administração da justiça, a assistência à saúde e a previdência social.
“Todos nós temos a certeza de que não haverá democracia estável neste país, se não lograrmos reverter a situação reinante naquelas atividades de responsabilidade do Estado, no campo social. Mas, como exigir do governo a atenção adequada a estas tarefas, se ele tem os nervos e o vigor ocupados com as atividades tipicamente empresariais?
“O governo, hoje, é obrigado a dedicar 4/5 de seu tempo para resolver problemas de suas empresas estatais ou derivados de sua intervenção no sistema de preços e na comercialização de bens.
“Acresce o fato mais grave de que o Estado caminha, no Brasil, para transformar-se no empregador universal.
“Onde isso aconteceu, as liberdades individuais foram simplesmente suprimidas. As sugestões de texto constitucional já conhecidas não favorecem a redução da presença estatal em nossas vidas. Vai ser preciso uma releitura cuidadosa das sugestões.”

Sob a máscara do liberalismo, da “redução da interferência estatal em nossas vidas”, defende-se o interesse de grupos que a rotação política poderá arrancar das tetas do estado. Este ministro teve um papel importante no período que vai de 1970 a 1984 nas decisões governamentais, e o que fez além de contribuir para o crescimento da maquinaria estatal à razão de duas empresas por mês em nosso país? Todos sabem que o ex-ministro foi um político estatista. Neste caso, por que um político conservador não se assume como tal? A resposta não pode ser simplificada para o simples efeito da coleta de votos. O que mudou foi a posição relativa do interlocutor em relação ao Poder. Como candidato, o sr. Delfim Netto manifesta suas ideias conceituais, como ministro, suas limitações. Como candidato é um liberal, como ministro um fomentador do estatismo conservador. Assim tempos um comportamento na praia e outro na cidade, na vida social e na vida privada, no chope gelado e no trabalho, nosso estatismo tem na política uma leve lembrança do discurso moralista que combate o “pecado” para entregar-se a ele com mais voluptuosidade. Torna-se curioso que num país conservador como o Brasil, ninguém defenda posições conservadoras fora do Poder! Seria nosso espírito de conciliação? É como se os políticos desconhecessem o Poder e, em lá chegando, tivessem a assustadora revelação de que ele é algo diferente do imaginado, e que por isso os procedimentos devem mudar para adaptar-se a uma realidade impensada. Existem fatores que a ação política independe das opiniões correspondentes. Vale a pena citar a opinião de Max Weber: “A burocracia distingue-se das outras influências históricas do moderno sistema racional de vida, visto que é muito mais persistente e à prova de fuga. A História nos mostra que onde quer que a burocracia tenha triunfado, como na China, no Egito, e em menor grau no Império Romano posterior e em Bizâncio, ela não desapareceu mais, a não ser ao fim do colapso total da cultura dominante” [Max Weber – Textos Selecionados – Os Pensadores. Ed. Abril pg 23].

Quando Weber diz “à prova de fuga” não está querendo afirmar que independente dos interlocutores a burocracia é um sistema autorregenerativo impossível de ser detido? A resposta é: quase. O ceticismo sempre tem data de validade, mas naquele momento presente não só transforma em derrotismo toda a possibilidade de mudança, como também nivela numa canalhocracia toda a ação política que busque o Poder. Ambos tomam a parte pelo todo, ainda que esta parte seja em certos momentos amplamente majoritária. Mas ao menos num ponto o ceticismo acerta em cheio: a desconfiança de que o discurso político nada mais é do que enrolação para fins particulares, de que as pessoas estão dizendo coisas que não cumprirão, que na verdade elas estão querendo enriquecer. Neste caso, o Poder deve ter alguma coisa para que, apesar do discurso, tudo se transforme no Reino Encantado da abundância, da facilidade e do sucesso. A integridade do discurso corresponde a um masoquismo ou perda por renúncia de algo irresistível para os padrões humanos normais, como se a autenticidade do falar fosse proporcional ao quadrado da distância do Poder, apenas reservada aos partidos e grupúsculos minoritários. Tudo se passa como se ocupado o Poder, a linguagem se transformasse na linguagem do Estado. De incendiário, o político se transforma em bombeiro.

A linguagem do Sr. Delfim Netto tem algo mais importante. Mostra que no carnaval do Poder não existe personalidade própria. Se um discurso de situação pode ser intercambiado para um discurso de oposição no mesmo personagem, ao criticar os outros ele é o maior crítico de si mesmo. Se a crítica ao Poder tem a função de sensibilizar os insatisfeitos para depois trocar de discurso com aqueles que serão demissionários, a política se converte em cinismo. Na ausência total de personalidade própria (de princípios que não podem ser conciliados), o Poder é um fim em si mesmo, e a linguagem política uma função relativa da distância em relação a ele. Nesse caso, uma oposição exercida a partir de uma ocupação do Poder previamente exercido corresponde a uma confissão, pois as críticas a um novo governo são as mesmas que rejeitava quando da governança que exerceu. A moralidade do discurso político passa a ser apenas um repertório para ser utilizado quando for derrotado na disputa eleitoral.

Para se descobrir como se realiza o mesmismo, deve-se investigar a esfera de relações onde a subordinação forma vínculos imobilizados. A política fornece um bom exemplo, embora em qualquer organização estatal ocorra o mesmo. Porém, as relações burocráticas do aparelho estatal são difíceis de entender para um observador não acostumado as suas funções técnicas. Entretanto, elas se realizam da mesma forma que a política, desde que os graus de autonomia, liberdade e responsabilidade estejam diluídos numa estrutura centralizadora.

A centralização não existe como um fenômeno espúrio, nem mesmo como um desvio irrisório, porém, tem a conotação sistêmica de uma permanência, de una continuidade em que se pressupõe que a autoridade é única e indivisível, que cabe a um pequeno grupo de escolhidos a iniciativa da totalidade de decisões que dezenas de órgãos intermediários deverão adotar, e ainda mais, que não podem ser questionadas porque estão sujeitas a obediência coercitiva. A centralização representa para a nossa cultura o sequestro de todas as iniciativas e do poder de decisão em favor de uma estrutura que se quer homogênea, subordinada e uniforme, mas cujos resultados práticos são a manipulação e o nepotismo.

A inexistência de autonomia está para a vida política e institucional assim como a cultura estrangeira de massas está para e cultura nacional: penetra de fora para dentro porque se romperam os laços de coesão interna. Se não temos vida institucional em nossas comunidade porque foram delegadas a uma instância superior que por sua vez depende de outra e assim sucessivamente até receberem o aval do governo central, o cidadão não tem laços de coesão recíprocos, e sua participação foi a princípio esbulhada em favor da orquestração em que apenas alguns decidem por todos: é o velho diagnóstico do paternalismo. O cidadão fica voltado para fora de sua comunidade porque sabe que ela está sendo gerida desde o exterior.


Da experiência do totalitarismo, sabemos que por definição só pode ocorrer política numa sociedade que pressupõe a existência de interlocutores independentes. Com isso aparece a primeira pergunta: onde estão eles? Na base ou na cúpula? Nos partidos ou no povo? Na sociedade civil ou no Estado? A princípio, toda relação de subordinação implica em obediência ou submissão, dependência ou consentimento, de tal forma que um indivíduo que está relacionado por uma hierarquia deixa de ser um interlocutor independente. A subordinação cria uma psicologia que privilegia a repetição sobre a criação e a adulação sobre a cordialidade. Quando a sociedade não tem independência de interlocução, os vínculos políticos perdem a individualidade para se articularem em torno de uma linguagem oficializada pelo poder. Isso não só é evidente no totalitarismo, como no autoritarismo brasileiro. Machado de Assis compreendeu esse fenômeno quando escreveu as recomendações do pai ao filho, em que para alcançar a fama, recomendava a ele que nunca dissesse nada de original pois só lhe traria dissabores. Repetir tudo o que os outros já disseram era sua fórmula de sucesso. Nos regimes autocráticos a fidelidade é mais importante que as ideias, a repetição mais apreciável que a novidade, e numa burocracia também: um burocrata não pode recusar uma ação por mais irracional que lhe pareça, embora possa dissimular. A necessidade rotineira de legitimação implica numa adesão repetitiva dos indivíduos em submissão ao sistema. Quanto mais absurdo, naturalmente mais coercitivo são os elogios de baixo para cima.

Na política o fenômeno é quase uma ventriloquia. Numa sociedade estatista, um partido político no poder tende a se constituir num grupo de funcionários públicos que lidera um grupo muito grande de representantes civis. A afirmação não é uma exagero: a vitaliciedade dos políticos que sempre se reelegem tem uma relação com a própria deterioração do político como cidadão, e vice-versa. Ele não sabe ser um cidadão comum, não por que tenha “sede do poder”, mas simplesmente porque a política lhe transforma num funcionário guardião do Estado.

O interesse da base com a cúpula se torna mais ativo quanto maior for a degradação rapinatória do Estado com a sociedade. No limite, se o Estado subsidia toda a política, ela se traveste em dissimulação. No nosso caso, as bases de um partido político não estão ligadas pelas relações hierárquicas. Em consequência, a discussão nelas é mais espontânea e aberta; os assuntos são tratados com franqueza e a palavra pode ser usada com a finalidade de questionamento. Mas quando a crise é generalizada, o clientelismo obriga a laços interpessoais de salvação. É o momento em que a cúpula desfruta de maior admiração das bases, simplesmente porque perderam a independência. As trocas de favores são compartilhadas por uma relação de sedução que deve durar indefinidamente e ser acionada sempre que a competição exija a intervenção dos que estão abaixo.

O instinto de sobrevivência introduzido pela reeleição constitui uma enfermidade na política, seu desvirtuamento progressivo; a erosão gradativa da integridade, a supremacia do trivial sobre o original, a necessidade de conciliação com pontos de vista “mais fortes”, a subserviência aos caciques mais antigos, a corajosa defesa … do que já foi defendido pelos mandachuvas. Para apoderar-se de parcela decisiva de seu partido, o político burocrata não precisa somente de relações internas estáveis: ele sabe que apenas poderá se consolidar se diminuir ao máximo a tensão das controvérsias, isto é, da própria política. O horror à controvérsia tem uma relação com a falta de liberdade e independência, e também com o mito do consenso. Trata-se de uma inversão importante. A política deveria ser a paixão pela polêmica, pelo controvertido. Max Weber define reduzidamente a política como conflito.

O consenso em sociedades democráticas só pode existir em situações excepcionais, seja por ameaça externa ou traumatismo social. Em sociedades autocráticas, pela verticalização da autoridade.

Quando a política tem um lugar privilegiado na estrutura estatal, ela se transforma, adquirindo uma relação de mercado com o posto que oferece. Se a sociedade oferece postos melhores, nem todos se interessarão pelo cargo; podemos supor que a política se torna mais autêntica porque vocacional. Se os cargos políticos forem irrecusavelmente melhores que a oferta relativa do mercado, a política é a arte de estar “in office”. O político burocrata e continuísta passa a ser um agente dionisíaco como única forma de perpetuar-se e ascender na hierarquia do partido. Este é o sentido da epígrafe de Lima Barreto quando observou por volta de 1919 o fato dos políticos não fazerem política e ao mesmo tempo se intitularem seus representantes mais nobres. Ênfase na camaradagem, na polidez, na diplomacia, na redundância, nas piadas de salão, epigramas da tradição congressista, frases feitas, repertório de chiste de antigos companheiros. Fortemente hierarquizada, a cúpula dos partidos políticos perde a independência e aplaina o discurso na banalidade do Nada. Stendhal percebeu claramente este fenômeno através da experiência diplomática: “os políticos, afinal de contas não são mais do que equilibristas, que por falta de atenção veem esboroarem seus mais belos edifícios” [A Cartuxa de Parma – Ed. Globo 1948, pg. 24].

No entanto, existem exceções: há políticos que não tem objetivos vitalícios e com uma boa base eleitoral, costumam ser interlocutores independentes dentro de seus partidos; são os agentes de mudanças. Uma quantificação estatística poderia criar um índice de autenticidade democrática dentro de um mandato.

Stendhal viveu numa época em que a canalhocracia (a expressão é dele, embora Balzac a admirasse a ponto de tomar emprestada), era intimamente relacionada com o poder, mais ou menos como o Brasil da ditadura aos nossos dias.

Numa sociedade estatizada, a própria política perde o sentido. Nos órgãos estatais o ignorante se iguala ao especialista, o picareta ao abnegado, o estudioso ao improvisador. Não pode existir mérito se todos estão abrigados sob os mesmos regulamentos de ascensão e também pela estabilidade no emprego. Na alta cúpula de um Poder dependente, a adulação produz mais pontos na estima dos predicados à ascensão hierárquica que o mais obsessivo dos esforços individuais na dedicação às tarefas do cargo.

Por isso o político de carreira (tanto quanto os chefes de empresas estatais) tendo interesse de permanência indefinida no poder, são diversionistas no sentido etimológico do termo. Diversão significa simultaneamente mudar de direção para um desvio, como também entretenimento, distração. São operações próprias do estatismo brasileiro. Nas primeiras novelas brasileiras, uma das mais famosas foi O Bem Amado, interpretada por Paulo Gracindo como prefeito de uma pequena cidade do interior chamada Sucupira. Uma sátira ao espírito da esperteza de Odorico Paraguassu, capaz de arrancar gargalhadas do público apenas com seu diversionismo a la Pirandello.

Balzac, para quem o refinamento do espírito era a mais alta conquista do ser humano, citando Sthendal, afirmou que “as pessoas de espírito que nascem sobre o trono, ou ao lado, perdem de todo, em breve, a finura do tato; proscrevem em torno delas a liberdade de conversação, que lhes parece grosseria, não querem ver senão máscaras, e pretendem julgar a beleza pela cútis. O engraçado é que julgam ter tato”. [Balzac, Prefácio a Cartuxa de Parmas, pg. 26].

Ortega y Gasset também observou este fenômeno na alma espanhola dos anos vinte, quando escreveu: “Sempre que na França e Alemanha assisti a uma reunião onde se achasse alguma pessoa de egrégia inteligência, notei que as demais se esforçavam para elevar-se ao nível daquela. Havia um tácito reconhecimento prévio de que a pessoa melhor dotada tinha um juízo mais certeiro e dominante das coisas. Em troca, sempre adverti com pavor que nas tertúlias espanholas – e me refiro as classes superiores, sobretudo a alta burguesia, que sempre deu o tom de nossa vida nacional – acontecia o contrário. Quando por azar tomava parte nelas um homem inteligente, eu via que acabava por não saber onde meter-se, como envergonhado de si mesmo. Aquelas damas e aqueles varões burgueses assentavam com tal firmeza e inflexibilidade suas contínuas tolices, se achavam tão inexpugnavelmente instalados em suas ignorâncias, que a menor palavra aguda, precisa ou sequer elegante, soava como algo absurdo e até descortês. Deste modo se foi rebaixando e estreitando o conteúdo espiritual da alma espanhola, até o ponto de que nossa vida inteira parece feita a medida das cabeças, e de que a sensibilidade de que usam as senhoras burguesas, quando transcende tão augusta órbita, toma um ar revolucionário, aventurado e grotesco” [José Ortega y Gasset – Espanha Invertebrada].

Acontece que a prevalência em um prazo longo de tempo, vai alterando a psicologia de um povo, a ponto de transformar seus valores com a inclusão de novas ideias que antes eram rejeitadas. Regimes autocráticos, ao imporem uma mordaça, tiram de circulação a capacidade de flexibilização do pensamento, diminuindo a oferta de pontos de vista. O discurso político pode se transformar em um evangelho de redundâncias. Neste sentido, os estudantes de Varsóvia publicaram o Código Universal do Discurso Político-Burocrático no jornal “Zyncie Warsawy”, a Revista de Varsóvia, o grande periódico da capital polonesa, antes do golpe de Jaruzelsky. Consta de 4 colunas com dez quadros. Cada quadro de uma coluna pode ser combinado com qualquer quadro da coluna seguinte, fornecendo a possibilidade de dez mil combinações diferentes, ou um discurso fluído de 40 horas [Publicado na Revista El Viejo Topo – nr. 60, setembro/81].

Toda a estreiteza mental de um momento histórico, toda a esclerose das instituições, têm relação direta com as oposições entre o desenvolvimento do indivíduo livre e a coerção de silêncio, com as possibilidades contestatórias e o espírito conciliador opressivo, com a liberdade de invectiva e as dissimulações majestosas, com a criatividade das propostas e a obtusidade mental, com a consciência da degradação da instituição e a conveniência de suas mordomias não serem distribuídas igualmente no mercado privado.

O diversionismo termina sendo a fagocitose do próprio político burocrata. Depois de uma longa permanência nos cargos públicos ele percebe que fora dali não tem identidade, não sabe como ser aproveitado. A sociedade, estreitada pelo estatismo, não tem mais elasticidade porque suas funções não são intercambiáveis. Fazendo do cargo público uma função de si mesmo, e não o contrário, o político burocrata sabe que sem o cargo não tem mais a reverência, não é mais recebido, falado ou sequer respeitado.

Ao contrário do cientista, do artista ou do professor que alcança reconhecimento alheio pelos seus atos, o político burocrata consegue reconhecimento apenas quando exerce o mandato. A autoilusão de representar um ícone semidivino desemboca na inglória incerteza de que não serve para nada na sociedade que se propôs a servir. Sua salvação foi o enriquecimento, foi ter feito da vida pública uma função do crescimento de suas propriedades e bens.


Num sugestivo artigo denominado “A Propriedade Privada das Funções Públicas”, o mexicano Gabriel Zaid analisa o fenômeno do Estado com a vida social no México, que da mesma forma que o Brasil, vive os estertores de uma crise moral, econômica, ética e financeira, demonstrando que o terceiro-mundismo tem mais identidades do que se pensa. As semelhanças com o Brasil não poderiam ser mais evidentes: ambos os países possuem um sistema de governo altamente centralizado, um poder estatal que está acima da sociedade, uma corrupção mais popular que a moralidade, e uma carnavalização cujas inversões tomaram conta do tecido social na desintegração dos valores éticos. [Gabriel Zaid – in Revista Vuelta nr. 120].

“No México, a honestidade é tragicômica. Temos que dissimulá-la para não causar problemas. Todo mexicano movido por um desejo de transparência, especialmente na vida pública, sente-se ridículo. Existem, naturalmente, os solenes que não tem malícia de suas boas consciências e nem do papelão de crerem-se bons. Mas há também o sentimento nacional de que a vida limpa é impossível. Nos falta uma catarse do desejo do bem, um exorcismo que nos livre dos bons espíritos, uma limpeza do mau agouro que é desejar a vida limpa. Temos que nos livrar da moralidade não vivida: a sereia do bem impossível, da nova pátria que não cessa de solicitar-nos para que nos estatelemos contra as rochas”… “Como não sentir-se ridículo de ignorar a própria realidade e de ter escrúpulos de uma coisa tão normal?”… “Um funcionário limpo (e existe) tem que sentir-se atormentado por sua inferioridade: suspeitar que nasceu com algo decomposto, com um secreto estigma que o arrasta à perdição… No puritanismo se reprime a felicidade como um desejo sinistro. Na corrupção se reprime a transparência como um desejo ridículo. Se há um desejo proibido na nossa vida pública, se há um desejo temido como destruidor e caótico, é o da transparência. As pessoas decentes se burlam deste desejo como de uma insensatez infantil, como de um romantismo que se cura com a maturidade”.

Zaid contesta as posições extremas entre aqueles que acham que a corrupção não tem remédio com aqueles que ignoram (ou disfarçam) seu derrotismo com fórmulas radicais, isto é, aqueles que acham que nada muda enquanto tudo não mude. O derrotismo é o elemento negativo de um ideal de perfeição. Seu conceito de corrupção é duplo: de um lado, a corrupção clássica, de propina ou “mordida”, e de outro, a corrupção moral, que é a pior e geradora ou incentivadora da outra. Para ele, o soberano feudal pode dispor de tudo como se fosse seu, ele não tem a pretensão de representar ninguém, e por isso não mistifica: o tesouro real é constituído dos impostos cobrados ao povo mas pertence ao soberano que não mente em tomá-lo para si. O contrário acontece quando o poder passa à 1soberania popular’. A partir daí se criam os representantes profissionais e a corrupção se instala com a seguinte condição: “Para que a corrupção seja possível, uma pessoa deve representar os interesses de outra. A corrupção se apodera de um poder emprestado e o usa em causa própria. Pode ocorrer em todo tipo de representação, ainda que muitas vezes careçam de interesse pessoal: aquelas nas quais o beneficiário é um pícaro facilmente despedível. A corrupção tem essa forma: a força está do lado do mandante, que pode mais (ou igual) que o mandatário (um familiar, companheiro, vizinho, subordinado ou agente contratado), cujo poder é revogável”.

“Se toda a representação implica num desdobramento (entre atuar por contra própria e por conta do representado), se toda a corrupção precisa ocultar os atos que não correspondem ao que se supõe, a corrupção moderna eleva a dissimulação à constituição mesma do Estado”. Dissimulação que nos seus jogos retóricos, nas práticas de tapeação e na isenção da responsabilidade individual se converte em cultura.

A corrupção pressupõe um teatro de pureza onde o funcionário não tem interesses próprios, não é um ser humano que atue por conta própria, mas vive em função de representar a lei, as normas estabelecidas, o interesse coletivo, que pode muito bem ser negociado com atenuantes propinas e prorrogantes exigências. “A essência da corrupção não está no lucro derivado das funções públicas: está na mentira de que o poder é público, conferido e revogável pelos governados, que são seus proprietários. Se um representante dos poderes públicos pode tratar impunemente a um cidadão (do qual é supostamente servidor) como objeto de sua propriedade: cuspi-lo, coiceá-lo, torturá-lo, matá-lo, que importância tem que ademais fique com sua carteira e relógio? A essência do assunto não está no lucro, mas sim na impunidade, em quem presta contas a quem”.

A cultura baseada no estatismo forjou na sociedade a mentalidade de que para cada regulamentação torna-se imprescindível a criação de um instrumento disciplinar (um órgão ou empresa estatal) para atingir seus fins, e não o estatuto jurídico puro e simples que garanta à justiça o papel de resolução das disputas entre cidadãos independentes. Trata-se de uma deformação do que deve ser o Estado e o seu papel na sociedade, este desejo aberrante de que existe muita coisa por fazer, sem que nunca se altere o que já foi mal feito, abrange o espectro que vai dos militares aos comunistas. A tontice da imaginação cativa vem da esclerose mental de gente domesticada para a obediência, para a subordinação a chefes de outros chefes, e de uma tradição hegeliana contrabandeada para o marxismo de que o “Estado é a encarnação da ideia de liberdade moral”.

No Brasil, como no México, na Polônia como na Romênia, em Cuba e no Paraguai, o estatismo é o sintagma pré-moderno do fracasso da hierarquização. O Estado terminou sendo a encarnação do diabólico, não tanto pela violência, tampouco pelos seus abusos, mas pela lenta, sorrateira erosão dos valores éticos, pelo silencioso e progressivo desvirtuamento das funções públicas que vai da mais simples prefeitura à mais complexa organização estatal.

Para a sociedade civil, a burocracia tem a natureza de um sequestro. Se estabelece com dois fatores fundamentais: o tempo e as “exigências”. O tempo representa o elemento kafkiano que nunca se resolve, que nunca chega ao fim o resultado desejado. O tempo desvaloriza, inflaciona, penaliza o processo (a causa, o papel, a documentação pretendida, qualquer coisa que se faça num órgão público). De nada vale a argumentação de que o indivíduo necessita trabalhar, e que a demora está lhe causando prejuízos inestimáveis. O solicitante é um refém até que o sequestro chegue ao fim. O segundo fator, as “exigências”, são as discriminações não escritas no procedimento da burocracia. Através das “exigências” a burocracia amplia os limites do tempo e pode chegar a eliminar o indivíduo, simplesmente aumentando-as a um nível tal que exclua-o da possibilidade de atingir o que pleiteia, isto é, a igualdade perante a lei.

As “exigências” mostram que não basta alguém se candidatar a um ou outro benefício. Ao contrário, deve provar que não é um fantasma, um transgressor ou delituoso. O sequestro da burocracia pode chegar rapidamente ao término. Para tanto, basta que o solicitante pague o resgate, que não significa outra coisa que a corrupção normatizada. Se não pagar, que espere. Em qualquer repartição pública, o pretendente a alguma coisa vai ouvir as desculpas do excesso de serviço que nada mais é do que a degradação indispensável à corrupção e discriminação social. São alguns dos maus tratos que ao fim geram o instinto depredatório como sublimação de espíritos humilhados na indefectível diabolização carnavalesca.

A consolidação de um número imenso de inversores ativos numa sociedade está vinculado a privilégios imensos ancorados na rede estatal dissimulando prerrogativas sem qualquer escrutínio público. Se o sistema político está inextricavelmente ligado ao Executivo do qual é um suposto fiscalizador, então o caminho da cumplicidade está trilhado e aberto, e o clientelismo faz a ponte que coopta e familiariza seus atos.

Zaid vê na impunidade a questão central, aquela que define quem é o proprietário das funções públicas. “ Impunidade se transmite em cascata desde os presidentes até o último policial, e ao longo do tempo entre sucessores do mesmo cargo. Em privado se julga severamente aos superiores e inferiores, e as vezes se castiga os inferiores. Mas tudo ocorre na zona privada do poder público. As vezes o castigo ou ameaça consiste, precisamente, em levar o assunto à luz pública. Mas se alguma coisa chegar nos jornais, nos tribunais, não significa que o poder se submete ao juízo cidadão: o que chega é coisa julgada e sentenciada prévia e privadamente. Que as pessoas sejam enviadas ostensivamente à cadeia, não muda a impunidade”. A qual, Zaid define como “uma necessidade de rescisão do contrato sobre o qual está fundado o sistema: a propriedade privada das funções públicas, por turnos sucessivos e pacíficos, com a obrigação de retirar-se, mas com o direito de não ter de responder por seus atos”.

Tal foi a passagem da ditadura à democracia no Brasil. Se uma ditadura passa a democracia sem qualquer chamamento à Justiça, sem o menor dano para as transgressões sabidas e conhecidas, então liberdade e opressão são intercambiáveis, são fenômenos dissimulantes, e uma parte não desprezível da política deve ser algo como uma conversa de barbearia de subúrbio, onde independente de quem estiver sentado na cadeira, o assunto é sempre rinchavelhante.

São Paulo, dezembro de 86.

30 de agosto de 2025

Quando “tratativas” são “tentativas” na semântica jurídica

Nos Processos de Moscou dos anos 30, conduzidos pelo famoso procurador Andrei Vyshinsk, responsável pela instrução, julgamento e execução dos acusados, os membros da velha guarda foram eliminados em grupo até que sobrasse apenas um herdeiro da Revolução Bolchevique: o próprio mandante por trás dos muros do Kremlin.

Entre 19 a 23 de agosto de 1936, os 16 acusados, entre eles os bolcheviques G. Zinoviev e L. Kamenev, são condenados à morte e executados 24 horas depois. No segundo processo de 23 a 30 de março de 1938, 15 dos 17 acusados, entre os quais os revolucionários G. Piatakov e K. Radek, são igualmente condenados e executados logo a seguir. No terceiro processo, de 2 a13 de março de 1938, o último velho bolchevique, Bukharin, foi liquidado juntamente com Iagoda, o ex-diretor da polícia política que havia organizado os processos precedentes e que Stalin resolveu incluí-lo para apagar suas ordens de mando.

As referências parecem injustificadas, mas são apenas adaptações com que as autocracias se esmeram no roteiro teatral das aparências. Se para The Economist Bolsonaro é um Trump tropical, para este escriba Moraes é apenas um Vyshinsk tropical, cuja folha corrida das ilegalidades constitucionais vão para a história brasileira das infâmias jurídicas.

O julgamento de Bolsonaro na próxima semana não pode ser interpretado exclusivamente com base nas acusações lançadas contra ele e equipe. O que aconteceu em janeiro de 2023 foi uma descoordenação entre as lideranças que prepararam a invasão dos prédios dos 3 poderes, e os envolvidos na sublevação que não houve.


Como é próprio do perfil psicológico de Bolsonaro, ele nunca assume o papel de comando de qualquer coisa, deixando sempre para auxiliares a execução das tarefas. Com isso, seria impossível um golpe de estado sem um comando organizado e planos claros de sublevação militar. O que as investigações revelaram foram TRATATIVAS de golpe e não o motivo pelo qual está sendo julgado e condenado, isto é, TENTATIVA de golpe.

O golpe de 64 não foi realizado pela passeata dos 100 mil, mas pela sublevação do comandante da 4a Região Militar, general Olympio Mourão Filho que colocou as tropas na estrada em direção ao Rio de Janeiro, para surpresa dos demais comandos do exército que aderiram em cascata.

Como pode ter ocorrido uma tentativa de golpe em 8 de janeiro sem o disparo de um só tiro, sem uma única guarnição pronunciar-se em estado de insurgência? Nem mesmo apareceram o cabo e soldado que Bolsonaro anunciou em 1999 que seriam suficientes para fechar o STF. Arruaças iguais ou semelhantes no Brasil nunca foram mencionadas como intenção de derrubar o poder.

Desde o início do julgamento do Mensalão, o PT vem falando em golpe de estado e inclusive havia criado uma sigla para atacar a imprensa golpista chamando-a de PIG, hoje em desuso exatamente porque a imprensa capitulou.

Bolsonaro nunca foi julgado pelas rachadinhas. Considerando ser um delito coletivo pluripartidário, ninguém achou suficientemente grave para se transformar em julgamento. Também não está sendo julgado por corrupção, outro delito que recebe a água benta do nosso sistema pela vilificação política modelada no petismo 3.0. Nullum crimen ubi omnes delinquant.

Por outros meios, Bolsonaro imitou Jânio Quadros. Jânio acreditava que renunciaria, deixaria um vácuo no poder com a repulsa coletiva a João Goulart e voltaria com poderes excepcionais para governar o país por decreto. Inventaram um parlamentarismo de improviso para amenizar a surpresa e o autogolpe falhou. Por mais inconcebível que pareça, Bolsonaro acreditava que a pressão popular levaria os comandantes do exército a assumir um poder transitório que ao fim lhe seria restituído por uma declaração de fraude nas urnas.

Como ele pode ter chegado a esse ponto? A insubordinação contra o processo eleitoral associada a acusação de fraude nas urnas, o motivo mobilizador do 8 de janeiro, incitando suas hordas a recusarem a derrota, foi uma réplica do que aconteceu nos Estados Unidos um ano antes no Capitólio, e serviu de modelagem para conseguir apoio de Trump, o incitador, e para a reportagem de The Economist.

Esta revista não percebeu o que está ocorrendo no Brasil. Isto acontece quando jornalistas estrangeiros vêm ao Patropi às pressas para fazer uma reportagem com base em contatos oficiais. Terminada as entrevistas, vão direto para o aeroporto e o resto é apenas redação da matéria.

Acredita a revista que o julgamento de Bolsonaro será um exemplo de resiliência democrática para os Estados Unidos, já enfatuados com o ioiô diário de Trump em sua agenda.

Bolsonaro já tinha aderido ao trumpismo antes de ser eleito. E é inútil negar que se tornou um dos líderes mais importantes da política brasileira no século XXI. Foi turbinado pelas táticas de guerra revolucionária dos militares da reserva na propaganda de suas virtudes, aos quais retribuiu com a defesa de Brilhante Ustra; pelas filhas “solteiras” de militares temerosas da capacidade desagregadora do petismo; e pelo olavismo que salvou da perdição os desorientados lavradores do conhecimento com uma obra que misturava verdades evidentes com mentiras deslavadas e insuficiências suspeitas, em sintonia com o cruzadismo moderno de combate aos demônios da alta tecnologia. Nunca faltou biografias para qualquer coisa que se pretenda como o suprassumo da análise social.

Nem a condenação e nem a própria morte será capaz suprimir o bolsonarismo das aspirações políticas de muita gente quando doutrinada na alternativa relativista do mazzaropismo como contraposição ao macunaísmo petista. Assim como o getulismo, o bolsonarismo sempre será uma referência histórica de nossa vida política porque nenhuma nação consegue fugir de seus próprios valores. Nossa crise não é só um produto de nós mesmos, como de um mundo que não tem mais como nos inspirar, e vive dilemas semelhantes aos que nos fizeram diminutos e inertes no contexto mundial. Ou os democratas se convencem que a democracia precisa ser remodelada, ou nunca sairemos do impasse político que nos aflige.


31 de maio de 2025

A Crítica do Cancelamento e o Cancelamento da Crítica

Carlos Umberto Pozzobon

“Somos criaturas de nosso tempo, todos cheios de falhas. Será justo nos julgar pelos padrões desconhecidos do futuro? Alguns dos hábitos de nossa época serão, sem dúvida, considerados bárbaros pelas gerações posteriores – talvez o fato de insistir para que as crianças e até os bebês durmam sozinhos, e não junto com os pais; ou o de alimentar paixões nacionalistas como meio de ganhar aprovação popular e alcançar um alto cargo político; ou o de permitir o suborno e a corrupção como meio de vida; ou o de ter animais de estimação; ou o de comer animais e enjaular chimpanzés; ou o de criminalizar o uso de euforizantes por adultos; ou o de permitir que nossos filhos cresçam ignorantes.”
Carl Sagan – O Mundo Assombrado pelos Demônios

“O pessimismo cultural é tão velho quanto a cultura humana e tem uma longa história na Europa. Hesíodo julgava viver na Era do Ferro; Catão, o Antigo, acusava a filosofia grega de corromper os jovens; Santo Agostinho denunciou a decadência pagã como responsável pela queda de Roma; os reformadores protestantes se consideravam vivendo no Grande Tormento; os realistas franceses culpavam Rousseau e Voltaire pela Revolução; e praticamente todo mundo culpava Nietzsche pelas duas guerras mundiais.
Mark Lilla – A Mente Naufragada


Tornou-se um lugar comum nas redes sociais e na academia – para não falar de biógrafos famosos –, a recorrência a imputações de terceiros para desqualificar pensadores de cujas opiniões comuns são contrários, como forma de polemizar sobre os erros e as consequências do pensamento desses autores na explicação da História e dos destinos humanos.

O núcleo da crítica desses escritores conecta os fatos da vida privada dos pensadores a fenômenos históricos, procurando ligações que os façam responsáveis pelo desatino de tantos quantos ditadores apareceram no mundo.

Um dos mais apreciados intelectuais que perambularam pelo método psicanalítico para julgar as obras de autores é Samuel Johnson, de quem resenhei seu principal estudo biográfico chamado Intelectuais:

Johnson procura determinar os fatos conhecidos da vida privada de escritores para explicar a personalidade e contradições de sua vida social e os fatores políticos concomitantes.
Usei a expressão “perambular” por não acreditar que a vida de um intelectual ou artista seja uma sequência uniforme de pensamentos e posições sobre os fatos cotidianos de sua época. A opinião dominante de que o mundo é regido pelas ideias de pensadores, cuja influência determina os acontecimentos históricos, é uma criação de filósofos diletantes e acadêmicos historicistas.

Com isso, fica fácil eliminar todas as características da psicologia social e simplificar uma questão em torno da obra de um pensador. O povo passa a agente estático das ideias propagadas que, sem essas, jamais ocorreriam os acontecimentos históricos.

Ninguém lê para aprender a ser tirano. A formação intelectual, usada para justificar uma predisposição já existente, que busca razões para o desencadeamento de justificativas políticas, torna-se falsa.

Existe uma falsa correlação entre obras de escritores precedentes (em alguns casos, em séculos) resultante de interpretações que depois integraram o totalitarismo contemporâneo, como o antissemitismo, o anticatolicismo e o nacionalismo. Hitler e Mussolini nada devem aos autores que mencionarei a seguir. O contexto social em que viveram diz mais sobre eles do que estes à interpretação dos intelectuais que os precederam.

A recorrência analógica da influência de um autor sobre as gerações posteriores provém da religião baseada em profecias e do marxismo. Os comunistas elevados ao grau de grandes pensadores e dirigentes sempre foram fontes de incitação para a ação revolucionária e, ao mesmo tempo, seus epígonos como Marx e Lênin, se tornaram uma fonte de disputa intelectual pela produção de citações como base para argumentação em debates.

Marx escrevia bordando citações literárias. Entre seus preferidos estava Shakespeare e, no entanto, não conheço um professor sequer que tenha escrito que este tenha sido o inspirador daquele.

Na ideologia marxista, as obras dos antecessores são necessariamente inspiração para as gerações os posteriores pelo aspecto intrínseco em ser uma religião secular, como abordado por Aron em O Ópio dos Intelectuais: uma teoria que nasce com os movimentos operários e se constrói com um panteão de pensadores agrupados em uma coletânea de obras de reflexão obrigatória para todos os dirigentes políticos associados a ele. O aspecto religioso está no historicismo definido no Manifesto Comunista transformado em instrumento de ação revolucionária. Meu foco, como o leitor terá notado, é discutir as contradições de atribuir INFLUÊNCIA a autores que não se pode afirmar com certeza de a terem exercido.

A agitação do século XIX foi pioneira de seus próprios intérpretes, e eles não podem ser responsabilizados pelo mau uso que fizeram de suas obras, especialmente quando pretendiam esclarecer o mundo.

Para o leitor que deseja uma análise do engajamento intelectual, isto é, da militância em favor do totalitarismo – tão citado e repetido no pensamento contemporâneo –, indico a minha resenha do livro de Mark Lilla:
A Mente Insensata.

A tradição acadêmica de atribuir um livro como inspirador da ação histórica é generalizada. Considere um autor como Martin Puchner, em seu livro O Mundo da Escrita. Para ele,

A epopeia de Homero já era um texto fundamental para os gregos havia muitas gerações. Para Alexandre, [a epopeia] adquirira a importância de um texto quase sagrado, e é por isso que sempre o levava consigo em sua campanha. É o que fazem os textos, sobretudo os fundamentais: eles alteram a maneira como vemos o mundo e também como atuamos nele. Esse era decerto o caso de Alexandre. Ele foi induzido não só a ler e estudar esse texto, mas também a reencená-lo. Alexandre, o leitor, se pôs dentro da narrativa, vendo sua própria vida e sua trajetória à luz do Aquiles de Homero. Alexandre, o Grande, é bem conhecido por ser um rei extraordinário. Acontece que era também um leitor extraordinário.

………… Embora não tivesse nenhum significado estratégico direto, Troia trouxe à tona as fontes secretas da campanha de Alexandre: ele fora para a Ásia a fim de reviver os relatos da Guerra de Troia. Homero moldara a forma como Alexandre via o mundo e agora, durante a campanha, ele estava munido dessa visão. Quando chegou a Troia, ele decidiu dar continuidade à epopeia, para além do que Homero poderia ter imaginado. Alexandre exaltou Homero ao reencenar a conquista da Ásia numa escala maior.

Considerando que Homero e Alexandre estavam separados no tempo em 9 séculos, não tem sentido para um comandante, disposto a vingar a derrota ateniense frente ao império Persa usar como guia de comando a batalha de Troia, com dezenas de problemas logísticos e militares para resolver. No entanto, é a opinião dominante no mundo acadêmico. Como o interesse pela Grécia nasceu em Puchner na adolescência e terminou marcando sua carreira de historiador, ele compartilha o sentimento que forja a história pela ação inspiradora que a leitura da Ilíada no leito influenciava as ações de Alexandre no dia seguinte.


As teorias conspiratórias

O erro crasso dos intelectuais consiste em recusar o fato de que são os tiranos que influenciam os intelectuais e não estes aos déspotas. Assim, Hitler não seria quem foi se não fosse Carl Smith. Mas o que seria de Carl Smith sem Hitler? O que seriam Giovanni Gentile e D’Annunzio sem Mussolini?

A incompreensão sobre a natureza do Poder faz com que se pense sempre que as ideias criam o mundo em que vivemos e não, no caso dos governantes, que são estes que buscam justificação e apoio em tantos quantos escritores estejam dispostos a servir de vitrine política para seus atos. Conheço um Apedeuta que nunca escreveu nada além de alguns bilhetes e que serve de inspiração intelectual para uma plêiade de acadêmicos brasileiros sem jamais suspeitar quem são, quanto mais ler suas obras. Evidentemente que blogs e podcasts, disputam renhidamente a precedência de suas inspirações na condução do governo.


O Caso Olavo de Carvalho

Já escrevi 3 ou 4 ensaios sobre o olavismo e vou me deter em apenas um ponto. Com uma compreensão muito limitada da política e seus necessários arranjos e compromissos de parte a parte, Olavo de Carvalho introduziu no pensamento brasileiro da direita naftalina o gramscismo, uma criação intelectual de Antonio Gramsci que, em sua obras sobre a cultura italiana, instigava o PCI a participar (o verbo correto para a análise dele seria se infiltrar) em todas as correntes da sociedade (burguesa) como forma de introduzir o marxismo cultural e assim preparar intelectualmente o ambiente político para a tomada do poder.

Foi Gramsci, portanto, o autor da ideia de que os comunistas deveriam dominar a imprensa, as escolas e universidades paulatinamente ocupando todos os espaços onde a educação e a opinião pública se manifestasse. Esta teoria novamente despreza o fato de que qualquer movimento que pretenda uma transformação social o faça espontaneamente como uma conclusão banal de estratégia de seus dirigentes políticos. E mostra como as teorias conspiratórias são predominantes na psicologia social dos povos iludidos.

Qual a diferença, no mundo do clientelismo político, de um dirigente liberal, social-democrata ou conservador que empregue um cabo eleitoral em um jornal para escrever a seu favor, de um marxista que faça o mesmo inspirado nas causas utópicas de sua doutrina?

Isso foge à compreensão de Olavo de Carvalho porque sua militância tem a mesma insuficiência do marxismo: achar que o mundo é regido pela conspiração das elites. Com isso, educou uma geração na concepção dogmática do gramscismo e não se deteve em falsificar a verdade quando espalhou o Decálogo de Lênin, ignorando o discurso redentor e utópico do socialismo com um receituário para a execução de crimes em nome da fidelidade ao partido bolchevique. Se a História fosse assim tão simples, ela nunca se repetiria.


O Caso Rousseau

Para Johnson, por exemplo, a Vontade Geral de Rousseau era uma premonição do leninismo. Este é um bom achado retórico, mas não passa disso. Achar que existam premonições na história é tão duvidoso quanto acreditar em superstições. A história é recorrente, e se Rosseau está vivo no pensamento do século XXI, não se deve ao que escreveu, mas à permanência de certos sentimentos que fundamentaram suas ideias. Para entender o renascimento do socialismo, é preciso mergulhar na esfera do pensamento religioso condensado na visão do apocalipse, no aparecimento do Messias, no milenarismo que transforma valores religiosos em ideológicos e cria uma visão histórica profetizadora, a que os críticos chamam de historicismo e, atualmente, pelo contrabando das teses escatológicas primitivas do fim do mundo no ambientalismo alarmista. Valores que renascem no vai e vem do processo histórico onde seus autores são meros intérpretes do espírito da época. Não acredito que sem Rosseau o mundo pudesse ser diferente. Portanto, ele tornou-se um predecessor porque sua sensibilidade foi apreendida e literatizada, comprovando que sua influência é menos pessoal do que temporal.


O Caso Le Bon

Foi por ter esquecido essa condição essencial que o livro [O Príncipe de Maquiavel], tão admirado a princípio, foi mais tarde criticado, quando, tendo evoluído as ideias e a moral, deixou de refletir as necessidades dos novos tempos. Só então Maquiavel se tornou maquiavélico.
Julgar a política desta época com as nossas próprias ideias seria tão ilógico quanto tentar interpretar as Cruzadas, as Guerras Religiosas e a Festa de São Bartolomeu à luz das ideias atuais. [Psicologia da Política].

Um dos exemplos mais pronunciados da difamação sutil, com o propósito de afastar os psicólogos e demais leitores em geral de um autor fundamental para o entendimento da psicologia das massas, é praticado pelo portal de psicologia denominado ironicamente de: A Mente é Maravilhosa.

As motivações para ocultar Le Bon da bibliografia acadêmica estão relacionadas a questões ideológicas que envolvem seu pensamento. Vou direto ao motivo: Le Bon abominava os sindicatos e a agitação social que produziu o homem-massa, o indivíduo transformado em rebanho de demagogos, que depois gerariam os 3 grandes males do século XX: o comunismo soviético, o fascismo e o nazismo. Não por acaso, foi considerado o fundador da psicologia social.

Ele é acusado de racista, e por isso, inspirador de Hitler por ser citado em Minha Luta. Porém, o conceito de raça em Le Bon não difere de outros notáveis escritores do seu tempo e se confunde com etnia e nacionalidade. Para ele, “os resíduos ancestrais formam a camada mais profunda e mais estável do caráter dos indivíduos e dos povos. É pelo seu ‘eu’ ancestral que um inglês, um francês, um chinês, diferem tão profundamente”.

Esta observação parece saída da pena de Edmund Burke. Deve-se observar que o conceito recorrente de raça em Le Bon provém de sua experiência internacional que o levou ao Egito, Arábia e Índia.

Vejamos como ele explica seu conceito de raça: “No despertar da civilização, um enxame de homens de diversas origens, agrupados pelo acaso das migrações, invasões e conquistas, de sangues diferentes, de línguas igualmente diferentes, possuíam o único elo comum de união: a difusamente reconhecida lei de um chefe… No transcurso dos séculos o tempo realiza seu objetivo. A identidade das vizinhanças, a repetida miscigenação das raças, as necessidades da vida em comum, exercem suas influências. A aglomeração de unidades díspares começa a misturar-se em um todo, a formar uma raça; isto é, um agregado possuindo características e sentimentos comuns aos quais a hereditariedade fornece uma solidez cada vez maior. A massa se torna um povo, e este povo é capaz de emergir de seu estado bárbaro. Entretanto, somente emerge inteiramente quando, depois de grandes esforços, lutas repetidas necessariamente, e inumeráveis recomeços, ele tenha adquirido um ideal. A natureza deste ideal é de pequena importância; seja o culto de Roma, o poder de Atenas, ou o triunfo de Alá, basta para dotar todos os indivíduos da raça que ele forma com uma perfeita unidade de sentimentos e pensamentos.”

Não há o que obstar neste conceito. Em outro livro, ele volta ao tema:

“O conceito de raça, tão incompreendido até poucos anos atrás, tende cada vez mais a se espalhar e dominar todas as nossas concepções históricas, políticas e sociais.
“Mostramos em outro livro como os povos, reunidos e misturados pelas oportunidades de emigração ou conquista, vieram a formar raças históricas, as únicas que existem hoje; porque raças puras, do ponto de vista antropológico, dificilmente são encontradas, exceto entre os selvagens. Estabelecida essa noção, indicamos os limites das variações de caracteres nessas raças, ou seja, como caracteres variáveis se sobrepõem a um substrato fixo. De imediato, mostramos que todos os elementos de uma civilização: línguas, artes, costumes, instituições, crenças, sendo consequência de uma determinada estrutura mental, não podem passar a diferentes povos nem sofrer transformações muito profundas”.

Não se trata pois do racismo como o conhecemos a partir da década de 30 do século XX. No entanto, o uso difuso da palavra raça não torna um escritor racista. O substrato sucessivo da raça para Le Bon é o grupo social em que o indivíduo está inserido e localizado, seja por razões políticas ou culturais.

O conceito dele serve para nós, brasileiros, que somos uma amálgama de europeus, africanos, asiáticos e ameríndios. Basta substituir a palavra raça pela palavra povo, e o texto perde o caráter preconceituoso com que o termo raça é abordado.

Impossível apresentar o riquíssimo pensamento de Le Bon em poucos parágrafos. É preciso ler As Opiniões e as Crenças para encontrar análises fascinantes – porque originais – sobre questões que nos dizem respeito quase cem anos depois de sua morte. Como sua percepção de que a fé política é um sucedâneo da fé religiosa, e de que “a providência estatista foi herdeira da antiga providência divina”, um tema que ocupou Octavio Paz em diversos artigos. Ou ler o livro As Multidões em que novamente paraleliza o pensamento religioso com o político na imaginação coletiva. Ou, A Psicologia do Socialismo, obra capital para o entendimento do que depois se tornou a gênese do movimento social mais importante do século XX com seu fracasso anunciado por ele ainda no século XIX. Um livro capital para entender nossa identidade é Psicologia da Política, onde discorre sobre temas em que a cultura latina se dissocia das demais, especialmente no culto à solução dos problemas políticos e sociais através da lei. A identidade de partidos políticos diferentes se torna uma quimera em relação ao mindset da herança cultural estatista, onde tudo se resolve com as boas intenções, seja da regulação até a vigilância do Estado sobre a sociedade. Le Bon enfatiza a natureza burocrática do mundo latino como consequência do apego regenerativo da regulamentação legal.

Criticar Le Bon é um imperativo da leitura ideologicamente desinteressada, mas essa crítica não deve se limitar àquilo que está superado em seus argumentos, porque a superação é própria do desenvolvimento posterior da marcha da humanidade.

Vamos tomar um exemplo de seu pensamento e inserir na realidade brasileira do presente: o sufrágio universal, uma reivindicação generalizada no século XIX que viria a ser implantado no seguinte, visto por Le Bon com muitas objeções. Argumentava que a grandeza de uma civilização não poderia ser garantida pelo voto dos “elementos inferiores ostentando exclusivamente a superioridade numérica”. É uma forma radical de dizer o que Tocqueville falou suavemente sobre os perigos que circundam a democracia: o democratismo, a peste capaz de degenerar as democracias tal como a conhecemos desde a Grécia antiga, materializada no Brasil pelo voto de cabresto, é uma prova da análise percuciente de Le Bon sobre o tema, hoje consolidado nos resultados eleitorais dos programas sociais. Porém, se “elementos inferiores” é um termo agressivo para nossos dias, não o foi para sua época.

O portal de psicologia A Mente é Maravilhosa argumenta que Le Bon foi o inspirador de Adolf Hitler. O primeiro parágrafo diz tudo: “O nome de Gustave Le Bon está associado a vários fatos muito importantes do século XX. Suas considerações e estudos encorajaram a ideologia nazista. Por este motivo, especula-se que o livro Minha Luta, de Adolf Hitler, teve a sua inspiração na obra de Le Bon.” Seria paradoxal, se não fosse de propósito, o portal não entender que um aspirante a ditador buscaria até na Bíblia uma justificativa para tomar o poder dentro da agitação política cotidiana de seus dias. Basta olhar para o Brasil evangélico. Repito: este desvio intelectual de achar que uma filosofia política precisa de “encorajadores”, provém da academia e de sua tradição livresca de atribuir o mal ancorado no pensamento de intelectuais e não na mente do déspota. E circula intensamente nas teorias da conspiração. No entanto, apresenta duas questões contraditórias: 1) que os intelectuais pelo seu pensamento é que fazem os acontecimentos do mundo; 2) que eles são os responsáveis pelos males causados pelos grandes déspotas.

Gustave Le Bon repetidamente enfatizou a superioridade do desenvolvimento cultural anglo-saxônico sobre o latino em aspectos como a educação para a prática e não para a formação de teóricos defasados da vida profissional, como era a essência da educação latina, com cursos superiores voltados para a formação de inadaptados que se tornam agitadores permanentes, e a organização social burocrática, tema depois desenvolvido por Alan Pereyfitte em O Mal Latino.

Le Bon mostra como a razão pragmática é superior à razão teorizante na vida social, e critica impiedosamente o instinto de rebanho, sobretudo o que nos interessa: o atavismo latino-americano de rebeldia impotente, incapacitante, retórico e grandiloquente, mas vazio de atitudes nos movimentos revolucionários do século XIX e XX. Achava uma decadência moral injustificável dos latino-americanos que, sentados num tesouro inesgotável de recursos naturais, sublevar-se periodicamente para ocupar o poder sem nada mudar, enquanto as nações europeias se transfiguravam com a agitação do progresso tecnológico.

Mas existem tantas razões para ocultar Le Bon da nova geração de estudantes de psicologia social, sociologia e história, que ficam claras quando vemos que o alvo é silenciar sobre nossos vícios institucionais, retratados por ele como uma herança latina. Vejamos um exemplo:

“M. P. Bourde reportou um exemplo muito típico deste estado mental [recorrer ao Estado para obter subsídios, proteção, solução de problemas, etc.]. É uma história absolutamente incompreensível e irreal para um inglês ou americano, sobre o que ocorreu com os habitantes da pequena cidade X. Uma das canalizações de água quebrou, e subitamente recebeu contaminação da tubulação de esgoto vizinha. Mandar um encanador e assim reparar o acidente era uma ideia muito estreita.
Em vez disso, foi encaminhada à Câmara de Vereadores que se reuniu para discutir o acidente. Evidentemente eles precisavam se dirigir ao governo. Quatro colunas de jornal foram suficientemente escassas para relatar os procedimentos adotados. Graças à intervenção de um considerável número de ministros, senadores, deputados, prefeitos, engenheiros, etc, a requisição fez nada menos que vinte paradas nos diversos departamentos administrativos, e a decisão final levou somente dois anos para retornar à comuna. A população, neste meio tempo, continuou, com resignação, a beber esgoto, sem sequer sonhar em remediar o acidente por si própria. Os exemplos dados por Tocqueville mostram que tais assuntos eram tratados exatamente da mesma forma no ‘ancien régime’.”
E, então, Le Bon, conclui: “Temos um estado especial da mente, que é evidentemente uma característica racial. O Estado é obrigado a intervir incessantemente em matérias de regulação e proteção; mas se fôssemos creditar todas as reclamações ele interviria ainda mais frequentemente.”

Hoje diríamos que o “estado especial da mente é uma característica cultural”. A análise é tão verdadeira quanto surpreendente que sua crítica seja tão perspicaz para nosso tempo. Não seria o caso de traduzir raça por cultura e deixar o texto palatável para uma geração que criou uma histeria tal em nome do racismo que uma simples piada pode provocar um processo por injúria racial? É mais preocupante o estigma racializante do que o preconceito em si. A histeria criada em torno do racismo acabou com os programas de humor e quando isto acontece sabemos que a liberdade corre perigo. Todas as épocas totalitárias começam com o patrulhamento da sátira. E terminam em acrobacias linguísticas barrocas para contornar a repressão imposta por uma ortodoxia voltada contra a manifestação espontânea do convívio jocoso. Enfim, o racismo de Le Bon é o mesmo de Lobato. Uma insignificância dentro de um pensamento fecundo para o seu tempo. E, querer ler o passado com os olhos censores do presente, significa negar o valor da evolução social humana que é também um evolução intelectual com seus baixos, como a presente.


O caso Nietzsche

A mesma difamação sutil encontrei em Steve Pinker ao tratar de Nietzsche. Para Pinker, o filósofo alemão foi um dos inspiradores de Hitler pela sua obsessão com o grande homem. Erro crasso: a figura do grande homem nele era apenas a constatação do supercapitalista, até então desconhecida na história humana que não tinha nada a ver com governantes, porém com a emergência da revolução industrial. É a mesma tradição acadêmica da “inspiração” do tirano. Atribui-se a Nietzsche a visão do niilismo quando ele expôs o sentimento niilista formado no século XIX nas jornadas revolucionárias: o primeiro a compreender que a fusão do cristianismo com o romantismo permitiu o nascimento do socialismo, despertando pela primeira vez o negativismo dos despossuídos que iria frutificar no século seguinte com todo o seu cortejo de horrores. Considero o niilismo um dos componentes mais importantes da má consciência do brasileiro, exatamente como decorrência da segregação social em que vivemos.

Pinker enfatiza, em tom indignado, a afirmação de Nietzsche de que o cristianismo é uma religião para escravos. Mas para quem, como Pinker, que escreveu um livro inteiro para mostrar a evolução humana dos tempos da revolução industrial aos nossos dias (O Novo Iluminismo), não poderia hostilizar a afirmação de Nietzsche. O que se pode entender, com um pouco de flexibilidade, é que o cristianismo fenece lentamente à medida que o Ocidente se enriquece e prospera. A doutrina cristã, no entanto, se mantém inabalável em países da América Latina, especialmente no Brasil, cujo deficit de progresso social faz o povo apegar-se ao exemplo sandapilário de um profeta que exalta a virtude da fé no autoflagelo de procissões, e tudo o que revela o obscurantismo mental deste povo deixado à mercê das carências, condimento indispensável para o aparecimento de charlatões de todas as espécies, especialmente nas confissões evangélicas de subúrbio.

Quem conhece a atuação das comunidades católicas junto a índios e quilombolas, ao tipo de reforma agrária em que os assentados jamais recebem o título de propriedade, transformando-se em fantoches do PT para fins de mobilização permanente em suas causas, sabe perfeitamente que essas comunidades são uma religião ensinada para prometer a libertação escravizando seus adeptos.

Não posso deixar de assinalar a importância da religião católica na assistência social, no trabalho social incomparável desde Anchieta e Manuel da Nóbrega, na preservação de igrejas e relíquias artísticas, escolas, conventos e santuários, mas é fundamental entender que a glorificação do sacrifício como dogma originário não tem lugar em uma sociedade cujo progresso torna os povos desenvolvidos muito mais inclinados ao epicurismo que ao estoicismo. No entanto, há quem sustente que o agnosticismo derivado do progresso seja um dos principais problemas de nosso tempo.

Não se compreende Nietzsche sem entender que seu louvor ao dionisíaco como força vital decorria de suas duas doenças fisiológicas acabrunhantes que lhe haveriam de enlouquecer: a sífilis e os surtos seguidos de dores no estômago. Pela sífilis, ficou privado do sexo e confinado ao amor platônico; pelo estômago, à ingestão de álcool. Sem sexo e sem álcool foi obrigado a viver como um asceta a contragosto, de onde surge sua particularidade intelectual de ser um maximista com lampejos de loucura.

Para Pinker, “Friedrich Nietzsche, que cunhou o termo vontade de poder, recomenda a violência aristocrática das “bestas louras teutônicas” e dos heróis samurais, vikings e homéricos: “dura, fria, terrível, sem sentimentos e sem consciência, esmagando tudo e respingando tudo com sangue.” Mas era apenas seu ódio ao cristianismo que lhe fazia mergulhar no mundo antigo, ao perceber os valores que o cristianismo destruíra em sua ortodoxia.

Mais adiante, tratando de um tema importante do qual nada tenho a discordar, a progressofobia, coloca o nome de Nietzsche entre aqueles que não têm similaridades com ele: “Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Martin Heidegger, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jean-Paul Sartre, Frantz Fanon, Michel Foucault, Edward Said, Cornel West, e o coro dos ecopessimistas.”

Ao atribuir o “Will of Power” à ameaça de uma sociedade autocrática comandada por robôs de Inteligência Artificial, tudo indica que o psicólogo Pinker desconhece a obra de um importante psicanalista de todos os tempos, Rollo May.

Alguém que tenha lido Nietzsche poderia afirmar que ele “[é um] pessimista cultural taciturno que declara que a modernidade é odiosa, as afirmações são paradoxais, as obras de arte são ferramentas de opressão, a democracia liberal é o mesmo que o fascismo e a civilização ocidental está indo pelo ralo?” Por que Pinker coloca Nietzsche no meio dos luminares da esquerda?

A difamação deixa de ser sutil e passa a ser obsessiva. No último capítulo, nos oferece uma conclusão estupefaciente: “Nietzsche argumentou que é bom ser um sociopata insensível, egoísta e megalomaníaco.”

Não sei de onde Pinker tirou esta conclusão. Repete o erro do historicismo quando diz que o mundo é guiado pela influência dos intelectuais: “Obviamente, Nietzsche ajudou a inspirar o militarismo romântico que levou à Primeira Guerra Mundial e o fascismo que levou à Segunda. Embora o próprio Nietzsche não fosse um nacionalista alemão nem um antissemita, não é coincidência que essas citações saltem da página como a quintessência do nazismo: Nietzsche tornou-se postumamente o filósofo da corte nazista.”

Primeira difamação: o militarismo precisa de um inspirador. Segunda difamação: a corte nazista era carente de um filósofo que lhe esclarecesse as ideias. A tendência dos intelectuais de se atribuírem importância em assuntos nos quais eles apenas comparecem como figurinistas do coquetel com que os líderes autocráticos se confraternizam em justificações, prova que eles não conseguem diferenciar o real pensamento das tolices com que os tiranos costumam se autoelogiar. Falta um pouco de senso literário a estes acadêmicos.

São estas correlações que formam a maior parte das falsidades do pensamento intelectual contemporâneo.
E Pinker não está sozinho. Entre nós, o grande diplomata e escritor Meira Pena escreveu um pequeno livro analisando a obra de Nietzsche pelo lado negativo, com a mesma tônica com que se criticava Maquiavel até meados do século XIX, cujo eufemismo guardava o significado para todas as maquinações astuciosas dos pretendentes ao poder.

Octavio Paz, talvez o crítico mais importante de todos os tempos na América Latina, tem opinião contrária à clerezia acadêmica: para ele Nietzsche, sobretudo no livro A Genealogia da Moral, “me ensinou a ver o que estava por trás de palavras como virtude, bondade, mal. Foi um guia na exploração da linguagem mexicana: se as palavras são máscaras, o que há por trás delas?

Existe uma diferença entre os intelectuais orgânicos que se engajaram na defesa dos ditadores, largamente citados por Pinker, como Sartre, e os pretensamente “inspiradores”. Aqueles que escreviam artigos e ensaios de louvação dificilmente podem ser comparados com outros cujas ideias sequer foram entendidas post-mortem pelos oportunistas, mas cujos nomes eram usados como vitrine de respeitabilidade.

Pinker provavelmente desconhece que em Minha Luta, Hitler traça elogios a Shakespeare e Goethe. Devemos portanto concluir que estes dois atores serviram de inspiração para o nazismo, como fez com Nietzsche? Vejamos o que Hitler diz:

“Ainda na época de Frederico, o Grande, ninguém se lembraria de ver nos judeus outra coisa senão ‘o povo estranho’, e até Goethe se mostrava horrorizado com o fato dos casamentos entre cristãos e judeus não serem proibidos legalmente”. Goethe, portanto, santo Deus, não era nenhum retrógrado nem "ilota, o que o fazia falar era nada menos do que a voz do sangue e da razão.”

E, mais adiante, continua o autor de Minha Luta:

Mas, na realidade, o que são Goethe, Schiller ou Shakespeare em comparação com os heróis da nova poesia alemã? Gastas e obsoletas coisas de um passado que não podia mais sobreviver! A característica desses literatos é que eles não só produzem somente sujeira mas, pior do que isso, lançam lama sobre tudo o que é realmente grande – no passado”.
Esse sintoma se verifica sempre nesses tempos de decadência. Quanto mais baixas e desprezíveis forem as produções intelectuais de um determinado tempo e os seus autores, tanto mais odeiam esses os representantes de uma grandeza passada.” Aí está uma boa pista para seguir o pensamento de Hitler. Deixo ao leitor interpretar a contradição flagrante e confusa entre Goethe, Schiller e Shakespeare comparados com os “heróis da poesia alemã”; que não foram “inspiradores” de Hitler.

Não existe um comportamento humano de parte dos intelectuais que não possa ser questionado, por melhor que ele seja. Apenas como anedota da recorrência intelectual do “inspirador”, narro uma pequena experiência que tive nos EUA.

No dia em que cheguei em Michigan para residir três anos e seis meses, em abril de 1982, ocorreu um assassinato em um estacionamento no centro de Detroit. A vítima era um chinês, tomado por japonês por dois ex-operários do setor automotivo recentemente demitidos. O motivo do homicídio era punir os japoneses pela enorme importação de veículos Toyota que vinha causando desemprego e consequente mal-estar nos meios empresariais e políticos da sociedade. Vigorava, naquela época em Detroit, a opinião de que não competia à indústria automobilística construir robôs para a montagem de veículos, por não ser uma atividade fim. Tal procedimento já vinha sendo adotado no Japão, o que levou a indústria de Detroit a mudar de ideia por perda de competitividade. No entanto, apesar dos apelos da mídia para não se consumir automóveis importados, poucos meses depois fiz amizade com um professor de música de uma universidade das redondezas que me mostrou seu carro no estacionamento. Era um Volvo. Quando lhe perguntei por que adquirira um carro importado, me respondeu que era mais seguro que os “locais”. Achei muito curiosa aquela resposta.

No entanto, incapaz de desconfiar do cansaço do leitor nas mais de 800 páginas do livro Iluminismo Já, ficamos sabendo que Pinker comprou um carro novo, quatro décadas e meia depois, da marca Volvo, por ser mais seguro. Evidentemente que o velho professor de música de Michigan não foi o “inspirador” de Pinker quatro décadas atrás, porque não existe inspiração. Apenas prova que certas coisas presentes no ambiente acadêmico não se dissipam com os novos tempos. São o mindset institucionalizado que persiste e que leva muitos a considerar como precursores uns dos outros.

Se a experiência humana pode contribuir com o pensamento que nos forma como seres, a DIFAMAÇÃO SUTIL trabalha do lado oposto da coleta dos fatores positivos na obra dos autores que contribuíram para ela. Procura dilacerar seus erros e aspectos controversos, suas “influências” involuntárias, como se os tarados de qualquer época não fossem justificar seus atos nas interpretações psicóticas de pessoas honradas para justificar seus fins.

Em primeiro lugar, as difamações sutis não partem apenas de membros da academia, mas de amplos setores da ideologia do cancelamento. O procedimento adotado julga os fatos históricos em função dos parâmetros atuais e não da época em que se revelaram.

O segundo caso, atribuir a pensadores com um século ou mais de antecedência a origem do pensamento de uma doutrina autocrática, é não só um erro, como uma difamação utilizada para desviar as novas gerações do conhecimento desses autores.


Um caso brasileiro típico

Entre nós, a comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna de 22 teve a presença do jornalista Ruy Castro no programa Roda Viva para falar sobre o acontecimento. Esse carioca da gema procurou minimizar o episódio histórico argumentando que Paulo Prado, um dos mecenas das artes em São Paulo, provinha de uma família de bandeirantes escravocratas. O que isso tem a ver com a agitação artística de 22? O qualificativo pejorativo de escravocrata associado aos bandeirantes é uma novidade das distorções do século XXI (antes era visto como um fato intrínseco da história da conquista territorial do Brasil), e tem sido amplamente utilizado pelos militantes do cancelamento. Afirmou Ruy Castro que ninguém mais lê aqueles autores, pois de toda a turma, Oswald de Andrade já foi pro saco, e Mario de Andrade ainda permanece, talvez o último.

A ligeireza de Ruy Castro é não entender que os cariocas estavam bem representados no Teatro Municipal em 22. Senão vejamos: o homem que comandava a mesa do espetáculo era Ronald de Carvalho, um carioca. Lá estavam também os cariocas Vila Lobos e Di Cavalcanti, para citar os mais famosos. O principal escritor paulistano – Monteiro Lobato – não foi convidado. Não foi portanto um acontecimento meramente paulistano, senão pelo patrocínio das artes ser financiado em SP. E associar a Semana de Arte Moderna ao escravismo é apenas um infantilismo intelectual e uma recorrência à um estigma social para difamar um evento histórico. A forçada atribuição de culpa dos antepassados é um dos artifícios do novo totalitarismo que se engendra no horizonte.

Borges costumava rir-se da fama de escritor preferido quando ironizava que ninguém seria capaz de adivinhar as preferências dos leitores do século XXI. Grandes nomes da literatura desaparecem e novos ocupam a simpatia das novas gerações pela simples ação da reprodução humana diferenciada nas forças enigmáticas da transvaloração social. Relativamente à Semana de Arte Moderna, acho pouco inteligente que Ruy Castro veja no eclipse de Oswald de Andrade algo sintomático da pouca importância do movimento de 22 e não o da literatura em si para este contexto histórico de Internet, onde a literatura agoniza e a Inteligência Artificial se anuncia como uma grande coautora do gênero. Na verdade, no Brasil nada se lê do legado literário escrutinado por Wilson Martins.

Contra o mote de que “a ocasião faz o ladrão”, Carlos Drummond de Andrade afirmou que “a ocasião faz o furto, o ladrão já nasce pronto”. O mesmo vale para os ditadores supostamente inspirados por intelectuais anacrônicos.

Se os autores influenciam ditadores como influenciam leitores, a conclusão óbvia seria uma apologia liberticida: excluam-se esses autores e a humanidade estará salva de novos déspotas. Não se engane com este paradoxo: ele está em gestação insuspeitavelmente com grandes espertalhões a serviço de causas extraídas dos repertórios da corrupção no curso maléfico de criar barreiras intelectuais para as novas gerações com base em preconceitos da razão politicamente correta.