21 de outubro de 2016

INTIMIDAÇÃO COMO ARGUMENTO

Ayn Rand

(Julho de 1964)

Há um certo tipo de argumento que, de fato, não é um argumento, mas um meio de evitar debate e extorquir a concordância de um oponente com noções não discutidas. É um método de contornar a lógica por meio da pressão psicológica. Já que é particularmente predominante, na cultura de hoje, e o será mais, nos próximos meses, seria bom aprender a identificá-lo e a ficar prevenido contra ele.

Este método tem alguma semelhança com a falácia ad hominen, e vem da mesma raiz psicológica, mas é diferente, em essência. A falácia ad hominen consiste em tentar refutar um argumento pondo em dúvida o caráter de seu proponente. Exemplo: “O candidato X é imoral, portanto o seu argumento é falso”.

Mas o método da pressão psicológica consiste em ameaçar por em dúvida o caráter de um oponente por meio de seu argumento, pondo, assim, em dúvida, este, sem debate. Exemplo: “Somente os imorais podem não conseguir ver que o argumento do candidato X é falso”.

No primeiro caso, a imoralidade do candidato X (real ou inventada) é oferecida como prova da falsidade de seu argumento. No segundo caso, a falsidade do argumento é afirmada arbitrariamente e oferecida como prova de sua imoralidade.

Na selva epistemológica de hoje, este segundo método é usado mais frequentemente do que qualquer outro tipo de argumento irracional. Deve ser classificado como uma falácia lógica e pode ser designado como “O Argumento da Intimidação”.

A característica essencial do Argumento da Intimidação é o seu apelo à auto incerteza moral e sua confiança no medo, culpa ou ignorância da vítima. É usado na forma de um ultimato que exige que a vítima renuncie a uma suposta ideia, sem discussão, sob a ameaça de ser considerada indigna, do ponto de vista moral. O padrão é sempre o mesmo: “Somente aqueles que são nocivos (desonestos, desumanos, insensíveis, ignorantes, etc.) podem sustentar esta ideia”.

O exemplo clássico do Argumento da Intimidação é a história intitulada As Roupas Novas do Rei.

Nessa história, alguns charlatões vendem roupas inexistentes ao Rei, afirmando que a beleza incomum destas torna-as invisíveis para aqueles moralmente depravados de coração. Observe os fatores psicológicos envolvidos neste trabalho: os charlatões contam com a auto-incerteza do Rei; este não questiona a declaração daqueles, nem sua autoridade moral; rende-se de imediato, afirmando que certamente vê as roupas — negando, deste modo, a evidência de seus próprios olhos e invalidando sua própria consciência —, ao invés de enfrentar uma ameaça a sua precária autoestima. Sua distância da realidade pode ser medida pelo fato de preferir caminhar nu pela rua, exibindo suas roupas inexistentes ao povo — ao invés de arriscar-se a incorrer em condenação moral por dois vigaristas. O povo, movido pelo mesmo pânico psicológico, tenta exceder-se em exclamações ruidosas sobre o esplendor das roupas — até que uma criança grita que o Rei está nu.


Esse é o processo exato do funcionamento do Argumento da Intimidação, como está sendo explorado a nossa volta, atualmente.

Todos nós já ouvimos e ainda estamos ouvindo constantemente; “Apenas aqueles que carecem de instintos mais requintados, podem não conseguir aceitar a moralidade do altruísmo.” — “Apenas o ignorante pode não conseguir saber que a razão foi invalidada.” “Apenas os reacionários intimamente convictos podem defender o capitalismo.” — “Apenas os fomentadores de guerras podem opor-se às Nações Unidas.” — “Apenas a horda lunática ainda pode acreditar em liberdade.” — “Apenas os covardes podem não conseguir ver que a vida é um esgoto.” — “Apenas o superficial pode buscar a beleza, a felicidade, a conquista, os valores ou os heróis”.

Como um exemplo de um campo total de atividade baseado apenas no Argumento da Intimidação, dou-lhe a Arte Moderna — onde, para provar que realmente possuem a percepção especial dominada somente pela “elite” mística, os homens estão tentando ultrapassar uns aos outros em altas exclamações ao esplendor de algum pedaço rudimentar de tela (apenas manchada).

O Argumento da Intimidação domina de duas formas as discussões atuais. Em discursos e impressos, floresce na forma de longas, envolventes e elaboradas estruturas de palavrório ininteligível que transmite claramente uma ameaça moral. (“Apenas a pessoa de mente primitiva pode não conseguir perceber que a clareza é simplificação em demasia,”) Mas na experiência diária particular, ele surge de forma não-identificável, nas entrelinhas, na forma de sons inarticulados que exprimem implicações indeterminadas. Ele confia, não no que é dito, mas em como é dito — não no conteúdo, mas no tom de voz.

O tom é, geralmente, de incredulidade desdenhosa ou beligerante. “Certamente você não é um defensor do capitalismo, não é?” E se isto não intimidar a provável vítima — que responderá, apropriadamente: “Eu sou’ — o diálogo decorrente será mais ou menos assim: “Ah, você não pode ser! Não mesmo!” “Mesmo.” “Mas todos sabem que o capitalismo está fora de moda!” “Eu não.” “Ah, não!” “Já que eu não sei, você me diria, por favor, as razões para pensar que o capitalismo está fora de moda?” “Ah, não seja ridículo!” “Você me diria as razões?” “Bem, realmente, se você não sabe, provavelmente eu não poderia lhe dizer!” Tudo isso é acompanhado por sobrancelhas levantadas, olhares fixos arregalados, dar de ombros, grunhidos, risinhos e o arsenal completo de sinais não-verbais que dão indiretas funestas e comunicam vibrações emocionais de um único tipo: desaprovação. Se as vibrações falham, se os debatedores são desafiados, pode-se achar que estes não têm argumentos, evidências, provas, razões, nenhum motivo pra insistir — que sua agressividade barulhenta serve para esconder um vácuo — que o Argumento da Intimidação é uma confissão de impotência intelectual.

O arquétipo primordial deste Argumento é óbvio (e também as razões de seu apelo ao neomisticismo de nossa era): “Para aqueles que compreendem, nenhuma explicação é necessária; para aqueles que não compreendem, nenhuma é possível”.

A fonte psicológica deste Argumento é a metafísica social.

Um metafísico social é aquele que considera a consciência dos outros homens como superior à sua própria e aos fatos da realidade. Para um metafísico social, a avaliação moral que os outros fazem dele é um interesse primordial que substitui a verdade, os fatos, a razão, a lógica. A desaprovação de outros é tão destruidoramente apavorante para ele, que nada pode resistir ao impacto dentro de sua consciência; assim, negaria a evidencia de seus próprios olhos e invalidaria sua própria consciência pelo bem de qualquer sanção moral de um charlatão errante. Apenas um metafísico social poderia imaginar este absurdo de esperar ganhar um argumento intelectual insinuando: “Mas as pessoas não gostarão de você!”

No sentido estrito das palavras, um metafísico social não concebe seu Argumento em termos conscientes: ele “instintivamente” o encontra por introspecção — já que representa sua maneira psico-epistemológica de vida. Todos nós já encontramos o exasperante tipo de pessoa que não ouve o que se diz, mas sim as vibrações emocionais da voz, ansiosamente traduzindo-as em aprovação ou desaprovação, e assim respondendo de acordo. Este é um tipo de Argumentação da Intimidação auto-imposto, ao qual um metafísico social se rende na maioria de seus contatos humanos. E, assim, quando encontra um adversário, quando suas premissas são desafiadas, imediatamente recorre à arma que mais o aterroriza: a retirada de uma sanção moral.

Já que esse tipo de terror é desconhecido dos homens saudáveis psicologicamente, estes podem aceitar o Argumento da Intimidação precisamente por causa de sua inocência. Incapazes de compreender este motivo do Argumento ou acreditar que é simplesmente um blefe sem sentido, presumem que o seu usuário possui algum tipo de conhecimento ou razões para apoiar suas asserções aparentemente autoconfiantes e beligerantes; eles dão-lhe o beneficio da dúvida — e são deixados numa confusão desamparadamente desnorteante. É assim que os metafísicos sociais podem vitimar os jovens, os inocentes, os conscienciosos.

Isto é particularmente predominante nas salas de aula de faculdades. Muitos professores usam o Argumento da Intimidação para sufocar a opinião independente dos alunos, fugir das perguntas que não conseguem responder, desencorajar qualquer análise crítica de suas suposições arbitrárias ou qualquer divergência do status quo intelectual.

“Aristóteles? Meu caro amigo” — (suspiro cansado) “Se você tivesse lido o artigo do Professor Spiffkin” — (respeitosamente) “no exemplar de janeiro de 1912 da revista Intellect, o qual” —- (desdenhosamente) “obviamente você não leu, saberia” — (vagamente) “que Aristóteles foi desmentido”.

“Professor X?” (X no lugar do nome de um destacado teórico da economia de livre mercado) “Estaria você citando o Professor X? Ah, não, não mesmo!” — seguido por um sarcástico sorriso entredentes com intenção de transmitir que o Professor X já tinha sido completamente desacreditado. (Por quem? Sem resposta).

Estes professores são, frequentemente, ajudados pelo esquadrão dos inconvenientes “liberais” da sala de aula, que morrem de rir nos momentos apropriados.

Em nossa vida política, o Argumento da Intimidação é quase que o método exclusivo de discussão. Predominantemente, os debates políticos atuais consistem em dois tipos: tentativas de difamação e desculpas, ou intimidação e apaziguamento. O primeiro geralmente é (embora não exclusivamente) praticado pelos “liberais”; o segundo, pelos “conservadores”. Os campeões, a este respeito, são os republicanos “liberais”, que praticam ambos: o primeiro, para com os seus colegas republicanos “conservadores” — o segundo, para com os democratas.

Todas as tentativas de difamação são Argumentos da Intimidação: consistem em afirmações pejorativas sem qualquer evidência ou prova, oferecidas como um substituto destas, com o objetivo de atingir a covardia moral ou a credulidade irrefletida dos ouvintes.

O Argumento da Intimidação não é novo: tem sido usado em todas as épocas e culturas; raramente, porém, em tão larga escala como hoje. É usado mais cruelmente na política do que em qualquer outro campo de atividade, mas não é restrito àquela área. Penetra em nossa cultura inteira. É um sintoma de falência cultural. Como se resiste a este Argumento? Existe apenas uma arma contra ele: certeza moral.

Quando se entra numa batalha intelectual, importante ou não, pública ou privada, não se pode buscar, desejar ou esperar a aprovação do inimigo. Verdade ou falsidade deve ser a preocupação única de alguém e seu exclusivo critério de julgamento — não aprovação ou desaprovação de alguém; e, acima de tudo, não a aprovação daqueles cujos padrões são opostos aos que se tem.

Deixe-me enfatizar que o Argumento da intimidação não consiste em introduzir julgamento moral em questões intelectuais, mas em substituir o julgamento moral pelo argumento intelectual. Avaliações morais estão implícitas na maioria das questões intelectuais; não é simplesmente admissível, mas imperativo, expressar um julgamento moral quando e onde apropriado; suprimir este julgamento é um ato de covardia moral. Um julgamento moral, porém, sempre deve seguir e não preceder (ou substituir), as razões nas quais é baseado.

Quando se dá razões ao veredito de alguém, assume-se responsabilidade por ele e coloca-se a si mesmo à disposição para um julgamento objetivo: se as razões deste alguém são erradas ou falsas, sofrem-se as consequências. Mas condenar sem dar razões é um ato de irresponsabilidade, uma maneira de conduzir do tipo “bate e foge”, que é a essência do Argumento da Intimidação.

Observe que os homens que usam este Argumento são os que temem um ataque moral fundamentado, mais do que qualquer outro tipo de batalha — e quando encontram um adversário moralmente confiante, são os mais ruidosos ao protestar que a “moralização” deve ser mantida fora das discussões intelectuais. Mas discutir-se o nocivo de uma maneira que implique neutralidade, é sancioná-lo.

O Argumento da Intimidação ilustra por que é importante estar-se certo das próprias premissas e motivos morais. Ilustra o tipo de cilada intelectual que aguarda aqueles que se aventuram sem um conjunto de convicções completas, claras e consistentes, inteiramente integradas do início ao fim aos fundamentos — aqueles que precipitadamente saltam para a batalha, armados apenas com poucas noções casuais, flutuando na névoa do desconhecido, do não-identificado, do não-provado e sustentado apenas por seus sentimentos, esperanças e medos. O Argumento da Intimidação é o seu merecido destino. Em questões morais e intelectuais, não é suficiente estar-se certo: deve-se saber que se está certo.

O exemplo que mais ilustra a resposta adequada ao Argumento da Intimidação foi dado, na história americana, pelo homem que, rejeitando os padrões morais do inimigo com total certeza de sua própria retidão, disse:

“Se for traição, tire todas as vantagens que puder”.