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4 de agosto de 2022

O Abolicionismo Prisional e o Declínio da Academia

John O. McGinnis

Defund the police [Cortar o financiamento da polícia] tornou-se um slogan político da esquerda nas cidades de todo o país. Mas esse mantra é um pouco tímido se comparado a um novo slogan que está se firmando entre os professores de direito: Abolir Prisões. Este programa é agora regular e seriamente publicado nas revistas jurídicas mais importantes da academia. É o assunto de discussão séria em conferências e workshops de professores em todo o país. Existe agora uma indústria caseira de professores titulares que escrevem sobre suas nuances e mais, sem dúvida, em breve garantirão estabilidade por fazê-lo.

Sua proeminência e os argumentos a seu favor mostram a disposição da academia de direito e da classe intelectual em geral em tolerar argumentos tolos, desde que estejam de acordo com as modas atuais da esquerda. Em vez de construir uma estrutura para uma reforma incremental baseada em evidências empíricas, esses bacharéis agora são pagos para se engajar em retóricas utópicas – até mesmo niilistas. Pode-se pensar que esses tipos de ideias – da abolição das prisões ao desfinanciamento da polícia e à eliminação dos testes padronizados – marcam um retorno ao radicalismo da década de 1960.

Mas naquela época o radicalismo veio de estudantes contra o establishment. Agora, o radicalismo vem do próprio estabelecimento educacional. A melhor analogia histórica é com a Rússia do século XIX. Lá, a intelligentsia continha elementos radicais substanciais, oferecendo não reformar, mas destruir as instituições de sua sociedade. Fiódor Dostoiévski capturou de forma memorável seus meandros fervorosos em seu grande romance, Os Possuídos.

É importante entender que o abolicionismo prisional não está prestes a apreciar o significado disso se tornar um tema sério no mundo das faculdades de direito. A abolição das prisões não propõe tornar as prisões mais humanas. Não sugere que eles devam se tornar mais efetivamente reabilitadores, devolvendo as pessoas a um lugar produtivo na sociedade. Não defende a diminuição da população carcerária reduzindo ainda mais o número de pessoas presas por crimes não violentos ou pela libertação de prisioneiros à medida que envelhecem fora da probabilidade de cometer novos crimes. Esses tipos de reformas incrementais podem ser esquemas plausíveis para melhoria social, mas são um anátema para muitos abolicionistas das prisões. Tais reformas representam o tipo de análise custo-benefício dentro da estrutura do status quo que se opõe totalmente ao espírito de destruição das instituições.

Abolicionismo: O Argumento Básico

O argumento básico para a abolição das prisões depende da visão de que a sociedade é totalmente injusta. Os criminosos são vítimas tanto quanto as vítimas de seus crimes. Dorothy Roberts, professora da Universidade da Pensilvânia, resumiu os argumentos em um simpático prefácio de análise do mandato anterior do Supremo Tribunal produzido pela Harvard Law Review (o ensaio anual mais proeminente entre acadêmicos de direito) que encapsula essa perspectiva: “O encarceramento é o que o estado emprega para resolver problemas causados pela desigualdade social, sufocar a resistência política das comunidades oprimidas e servir aos interesses das corporações que lucram com as prisões e as forças policiais”.

Essas alegações seriam embaraçosas, mesmo se não fossem publicadas na Harvard Law Review. A ideia de que ladrões de carros e assaltantes fazem depoimentos e confissões baseados em opressão política é estúpida. Tampouco é plausível que os maus ambientes sejam a única causa da criminalidade, fornecendo uma desculpa para todos os criminosos escaparem da prisão. As prisões são usadas para encarcerar pessoas em nações com níveis amplamente variados de desigualdade econômica e social. A maioria das pessoas pobres nunca comete crimes. Seria maravilhoso se soubéssemos que conjunto de reformas sociais acabaria com crimes graves – um fenômeno que tem sido um problema durante toda a história humana. Mas nós não sabemos, e abolir as prisões sem esse conhecimento mágico é uma receita para o caos.

Culpar as corporações é bobagem. As prisões existiam antes do surgimento das corporações e mesmo com o surgimento das privatizações ainda são geralmente administradas pelos governos, não pelas corporações. E, claro, as principais vítimas das pessoas na prisão estão na mesma classe de pessoas que os abolicionistas afirmam ser oprimidas.

Outro argumento da moda para a abolição é que as prisões são uma extensão de Jim Crow [As leis de Jim Crow eram leis estaduais e locais que impunham a segregação racial no sul dos Estados Unidos], porque os presos são desproporcionalmente negros. Mais uma vez, este argumento não tem mérito em si para a abolição. As prisões são uma característica das nações sem nossa [dos EUA] história racial. Isso mostra que sua existência não pode ser explicada apenas por essa variável. A desproporção de diferentes raças (e sexos) reflete o fato de que diferentes grupos populacionais cometem crimes em taxas diferentes. Se as leis sobre drogas ou outras leis engambelam injustamente grupos minoritários, esse problema oferece um argumento para a reforma ou abolição das leis sobre drogas e outras leis, não um argumento para a abolição das prisões.

O problema da minoria perigosa

Claro, não é preciso ser um intelectual para identificar um problema gritante com a abolição das prisões. Tal como acontece com o rei que está nu, até uma criança poderia fazê-lo. Algumas pessoas na prisão são muito perigosas. Eles estão lá para matar, mutilar, estuprar ou roubar pessoas. Se soltos, muitos provavelmente nos ameaçarão com mais do mesmo. Na literatura sobre a abolição das prisões, isso é chamado de “o problema da minoria perigosa”. Observe que esse enquadramento da literatura do problema assume, sem qualquer evidência, que existem apenas algumas dessas pessoas e que, se as prisões fossem abolidas, o número de perigosos não aumentaria muito, porque nosso principal método de dissuasão desapareceria.

Alguns abolicionistas das prisões simplesmente rejeitam o problema dos poucos perigosos. Eles reclamam que essa noção não reconhece que a abolição das prisões faz parte de um programa social mais amplo, onde mudanças no sistema de educação e saúde tornariam as prisões desnecessárias. A abolição das prisões é apenas uma parte de um programa de mudança social.

Essa resposta ressalta a natureza utópica do movimento de abolição das prisões. Nenhum trabalho sério em psiquiatria sugere que os sociopatas possam ser reformados por melhores sistemas de saúde. Mesmo pessoas que não são sociopatas podem desenvolver hábitos de vida que os tornam um perigo permanente para os outros. O grau de intervenção do Estado para impedir as escolhas que levam a tais condições faria com que as sociedades totalitárias parecessem apenas levemente intrusivas na liberdade em comparação. Fazer da sociedade uma prisão à maneira de Laranja Mecânica dificilmente parece uma boa troca para abolir as prisões reais.

A mais recente contribuição para a literatura sobre a abolição das prisões, também publicada na Harvard Law Review por Thomas Frampton, professor da Universidade da Virgínia, dedica-se a responder mais diretamente aos problemas da “minoria perigosa”. Mas os argumentos são tão fracos que não convenceriam ninguém que já não fosse abolicionista. Em primeiro lugar, o artigo observa que tem havido muitas pessoas perigosas, como Jack Kevorkian, que não estão encarceradas, porque as leis não chegam até elas. É indubitável que algumas de nossas leis permitem que as pessoas escapem impunes de condutas perigosas, embora às vezes seja difícil ver como elas poderiam ser reformadas sem pôr em perigo as liberdades benéficas, incluindo a produtividade econômica. Mas abordar esse problema legal é ortogonal à questão de saber se devemos punir as pessoas por assassinato, agressão, estupro e roubo, leis que são suficientemente claras e sobre as quais há um amplo consenso social.

Outro argumento é que o sistema de justiça existente é falho, porque às vezes condenamos inocentes. Esse é um argumento para melhorar nosso sistema de julgamento, mas dificilmente para abolir as prisões, a menos que possa ser demonstrado – e não é – que uma parcela significativa das pessoas na prisão é inocente – tão significativo que abolir as prisões não resultaria em mais danos.

Terceiro – e este pode ser o argumento mais fraco de todos – Frampton observa que os poucos perigosos prejudicam os outros mesmo quando estão na prisão. Este é, sem dúvida, o caso, mas o problema da violência nas prisões apenas mostra como essas pessoas são perigosas – que mesmo quando contidas, elas encontram maneiras de prejudicar os outros. Pense no que eles provavelmente farão quando estiverem fora da prisão e tiverem menos restrições e mais possibilidades de violência.

Eu também observaria que deixar de criar um sistema que forneça o que as pessoas comuns consideram justiça, em vez do que os professores de direito conceituam em seus artigos, levará a mais violência. Se as pessoas que cometeram crimes graves forem deixadas vagando por aí com pouca ou nenhuma sanção, outros, principalmente membros da família, farão justiça com as próprias mãos. De fato, um objetivo central da punição autorizada pelo Estado é aliviar esse sentimento de injustiça e, assim, evitar as rixas de sangue que nas sociedades mais primitivas levaram a ondas de matança ao longo de gerações.

Refletir sobre esse passo central na evolução da civilização mostra por que o quarto argumento do autor – de que não pegamos todos os infratores da lei criminal – também não apoia a abolição das prisões. Se o governo tivesse uma política de não punir substancialmente as muitas pessoas que pegamos, mais violência e até dissolução social seriam as consequências.

A Situação da Academia

O que define a academia, legal ou não, é o debate entre acadêmicos – quais ideias são levadas a sério e quais não são em publicações e apresentações. As ideias de esquerda sempre floresceram na academia, muitas vezes dominando o debate. A Harvard Law Review não publica artigos sobre utopias (ou distopias) conservadoras ou libertárias, como o integralismo católico ou o assentamento libertário.

A prevalência de ideias esquerdistas na academia é previsível, porque, como observou Thomas Sowell: “O fato mais fundamental sobre as ideias da esquerda política é que elas não funcionam. Portanto, não devemos nos surpreender ao encontrar a esquerda concentrada em instituições onde as ideias não precisam funcionar para sobreviver.” [Ver resenha e fragmentos que publiquei em outro blog] Mas só recentemente as ideias absurdas tanto na aparência quanto na reflexão tornaram-se uma parte importante do debate. E os acadêmicos que obtêm status e estabilidade com as ideias contratarão pessoas como eles que podem replicá-las ainda mais. O resultado será uma maior alienação do público, que considerará a academia de direito mais do que nunca um bastião de insensatez.

Se há algo de bom no declínio da academia de direito é que essas ideias são um veneno político. Desfinanciar a polícia já é o apelo de recrutamento para que os moderados votem certo. O mantra de abolir as prisões, se pegasse os ativistas políticos, garantiria uma vitória conservadora.


12 de fevereiro de 2021

Alain Peyrefitte e a Sociedade de Confiança

J. O. DE MEIRA PENNA

Foi diplomata e escreveu livros importantes sobre o Brasil, especialmente Em Berço Explêndido e Opção Preferencial Pela Riqueza, ambos comentados no blog Fragmentos do menu Livros e Mais Livros. Foi aluno e discípulo de Jung na Suíça, e seus livros sempre são introduzidos pelo método da psicologia analítica de seu mestre. Por isso, sua compreensão de nossa herança cultural baseada nos valores da Contra-Reforma são fundamentais para o conhecimento da Identidade Brasileira tanto cultural quanto de nosso psiquismo carregado de atavismos antimodernos. Nascido em 1917 e falecido aos 100 anos de idade, deixou muitos admiradores no meio intelectual brasileiro e seguramente é uma das referências nacionais nos assuntos do século XX.

A morte de amigos e pessoas ilustres é uma fatalidade com a qual jamais nos reconciliamos. Por mais que saibamos ser parte inevitável da condição humana, o sentimento de revolta que nos atinge é tanto mais pronunciado quanto mais a essa pessoa estamos presos por laços de afeto e admiração. Foi assim que reagi à notícia do falecimento de Alain Peyrefitte, com o qual havia marcado um encontro, no início do mês passado, para comunicar-lhe os esforços do Instituto Liberal do Rio de Janeiro no sentido de publicar um de seus livros. Homem extremamente discreto, até o último momento Peyreffite escondeu a moléstia que o consumia. Disseram-me que na antevéspera de seu falecimento, ainda foi entregar ao editor as provas finais de sua última obra, o terceiro volume de C'Était De Gaulle.

Escritor, político ativo e teórico, membro do Institut e da Academia Francesa, senador, oito vezes ministro, maire da cidade medieval de Provins, Peyrefitte era uma combinação excepcional daquele ideal platônico, tão frequentemente frustrado, de filósofo e governante ao mesmo tempo. Julgo que, como amiúde ocorre, acabou preferindo as letras ao exercício do poder. Em sua enormemente prolífica atividade como escritor, dedicou-se a três temas favoritos, com um quarto ocasional.

Foi em primeiro lugar o cronista de De Gaulle e alguns de seus contemporâneos o compararam a outros, como Commines, Saint Simon e Las Cases, os de Luís XI, Luís XIV e Napoleão. No terceiro volume, por falar nisso, esperemos que faça referência à viagem do general à América do Sul em 1966 em que, presumivelmente, encontraremos observações sobre nosso país. Como historiador de um dos períodos mais importantes da história moderna da França (e da Europa), Peyrefitte tem seu nome já consagrado como intérprete do renascimento de sua pátria após o colapso que a afetou na primeira metade do século. Inicialmente diplomata, formado na famosa ENA, a escola superior que prepara a elite da administração francesa, e havendo alcançado o grau de ministro plenipotenciário, serviu em Bonn, na Cracóvia e na Conferência de Bruxelas após o que, em 1958, entrou para a política, sendo sucessivamente reeleito deputado até tornar-se senador em 1995.

Como um dos mais fiéis gaullistas, foi ministro da Informação e ministro da Ciência e Tecnologia Atômica (1966/67), em cuja capacidade contribuiu para a entrada da França no clube fechado das potências nucleares. Como ministro da Educação, colocou-se no centro do chienlit estudantil de maio de 1968, que conseguiu conter sem violência.

Foi como ministro da Justiça (Garde des Sceaux) que Peyrefitte visitou o Brasil, em outubro de 1978, com o presidente Giscard d'Estaing, quando tive a honra de conhecê-lo, interessado como estava em um de seus primeiros e mais importantes livros, Le Mal Français, publicado dois anos antes. Traduzido para o inglês, e para o espanhol e italiano com o título O Mal Latino, tenho tentado em vão interessar editoras brasileiras na soberba análise crítica empreendida por Peyrefitte, já agora como sociólogo, dos fundamentos religiosos, culturais e morais dos males que têm prejudicado o desenvolvimento e a modernização de toda a área latina.

Tocqueville e Weber

Revela-se aí fiel discípulo de Tocqueville e Weber. Responsabiliza inclusive a contra-reforma, como fazemos nós, liberais brasileiros, e a tradição do autoritarismo absolutista pelas mazelas que embaraçam, senão impedem, nossa emergência como democracias liberais, abertas ao mercado e sobrepujando o ranço patrimonialista de nossa estrutura social. Creio que em nenhuma outra obra de sociologia as origens de nossos vícios coletivos foram tão objetiva e sabiamente perscrutados em suas profundas raízes culturais ou psicossociais. Talvez seja o vezo weberiano da crítica ao romanismo centralizador e interventor de nossa estrutura sociopolítica o motivo das suspeitas de que alimentasse convicções huguenotes.

Peyrefitte, infelizmente, não estendeu suas pesquisas sociológicas à América Latina e, particularmente ao Brasil como eu esperava, após a segunda visita que realizou a nosso país, em 1987, a convite do Estado e da Associação Comercial de S. Paulo. Nessa ocasião lhe servi de intérprete, em conferência pronunciada na Avenida Paulista, e de cicerone no Rio e Brasília. Estava, na ocasião, acompanhado do filho mais moço, Benoit. Ao invés, o ilustre acadêmico preferiu desviar sua atenção para um outro tema que desde então o fascinou.

Paixão de aprender

Sofrendo, como notou o jornalista e autor liberal Guy Sorman, da "paixão de aprender", Peyrefitte publicou uma série de obras sobre a China, que visitou mais de uma dúzia de vezes. Talvez tenha almejado realizar para os chineses o mesmo que Tocqueville com sua De la Démocratie en Amérique. Em 1973, parafraseando uma frase célebre de Napoleão publicou Quand la Chine s_Éveillera... le Monde Tremblera. Esse livro foi seguido de Chine Immuable, L_Empire Immobile (1989), La Tragédie Chinoise (após o episódio do massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial) e de um pequeno ensaio, com fotografias, terminando com La Chine s_Est Éveillée (1996), ocasião em que manteve uma longa entrevista com o atual presidente chinês Jian Zemin.

Em todos esses ensaios, julgo tenha o autor compensado seu deslumbramento com o Império do Meio (Djung Guó), graças a uma crítica objetiva da complexa problemática levantada pela necessidade da China se abrir ao mundo global, enquanto procura preservar sua identidade confuciana e a difícil unidade do povo de Han, de mais de 1 bilhão de pessoas.

Teimosia oriental

O Império Imóvel foi publicado em português em 1997 pela Casa Jorge Editorial do Rio. Acompanhado de mais três volumes complementares, relata a embaixada chefiada em 1792/94 por lorde Macartney, na primeira e frustrada tentativa dos ingleses de provocarem a abertura do imenso império, então governado por seu último grande imperador, Kien Long. A China obstinava-se na arrogância de ser a potência mundial hegemônica, postura estimulada pela desconfiança da classe dominante imperial manchu. Os volumes anexos cobrem uma enorme documentação relativa às reações dos jesuítas de Pequim, dos ingleses e dos próprios chineses àquela missão diplomática sui-generis — que demorou dois anos e comportou o envio de uma esquadra e 2.000 homens de comitiva. Macartney não pôde contornar, contudo, a teimosa insistência dos mandarins no sentido de lhe exigir o humilhante kowtow, as nove prosternações diante do Filho do Céu, obrigatórias para os representantes dos vassalos.

Surpresa

Peyrefitte manifestou sua surpresa quando descobriu que eu conhecia a extrema pertinência desse episódio, no relacionamento entre o Ocidente e Ásia. Expliquei-lhe que minha carreira se iniciou na China (1940/42 e 1947/49) e que, durante anos, estudei sua história e cultura. O que destaca a tese central da obra é o contraste entre a inflexível imobilidade e introversão autárquica dos chins, postergando durante dois séculos a abertura do Império Central, até o esforço de modernização encetado por Deng Xiaoping — e a flexibilidade com que, em meados do século 19, os japoneses se adaptaram à inevitável globalização. Se o Japão é hoje a segunda potência econômica do mundo enquanto só agora "a China acorda para fazer tremer o mundo", a origem do descompasso se coloca nas peripécias dessa missão diplomática.

Criminalidade

O quarto tema que interessou o eminente escritor francês foi o problema da Justiça e da criminalidade no mundo moderno, fruto de sua experiência como ministro da Justiça. Les Chevaux du Lac Ladogala Justice entre les Extrêmes apareceu em 1982 e lhe custou caro: quase foi morto por uma bomba terrorista que explodiu na frente de sua residência, em Provins, sacrificando seu motorista. Peyrefitte defende uma legislação mais rigorosa contra bandidos, assassinos e terroristas — antecipando a ideia central que estamos emergindo da Idade das Guerras para entrar na Idade do Crime.

Mas retornemos agora ao tema principal das preocupações de Peyrefitte, expresso em escritos que vão desde 1947, Le Sentiment de Confiance, ao Du Miracle en Économie e, finalmente, a La Société de Confiance, de 1995. Com tradução patrocinada pelo Instituto Liberal, essa obra será brevemente publicada pela Editora Topbooks, sob o comando esclarecido e corajoso de José Mário Pereira e com tradução primorosa de Cylene Bittencourt.

Comentemos a questão levantada por Peyrefitte. Num artigo de 2 de março de 1997, Roberto Campos se pergunta por que, apesar das celebrizações de economistas e sociólogos, o desenvolvimento econômico continua a ser essencialmente um mistério. Campos oferece como exemplos de problemas não esclarecidos o despertar da China de um sono de 500 anos, o "milagre brasileiro" da década dos 70 que desembocou na "década perdida" dos 80, e os "dominós" asiáticos que se tornaram "dínamos".

A pergunta levantada é daquelas a que inúmeros pesquisadores têm tentado responder desde que, em 1776, Adam Smith pesquisou As Causas da Riqueza das Nações, ora salientando o ambiente cultural; ora favorecendo o tipo de estrutura institucional no mercado aberto; ora apontando para a iniciativa de governantes excepcionais que, convencidos dos méritos superiores da receita do livre câmbio sobre o planejamento socialista centralizador e uma pertinaz tradição patrimonialista, tomaram a iniciativa de atos concretos de sábia política, graças aos quais um surto de desenvolvimento milagrosamente se registrou. Estou, neste caso, pensando especialmente em Pinochet, no Chile, e em Deng Xiaoping, na China. As duas nações registram índices inéditos de desenvolvimento acelerado, que a "crise" atual não parece haver senão temporariamente interrompido.

Um caso particular que desperta nossa curiosidade é o da França. Trata-se, afinal de contas, da quarta economia mundial (depois dos EUA, Japão e Alemanha). É também uma nação que, por não se decidir francamente nem por um lado, nem pelo outro, continua dividida, angustiada e sofrendo de uma espécie de incurável moléstia social. A pátria de Alain Peyrefitte não parece haver superado a fatídica cisão esquerda X direita que a dialética do jacobinismo revolucionário em 1793 engendrou, com seu contraponto no bonapartismo ditatorial; nem tampouco o absolutismo ("O Estado sou Eu") herdado do Rei Sol, Luís XIV.

Para a integração profícua na comunidade regional e num mundo globalizado, deve todo cidadão convencer-se que a liberdade de iniciativa, a confiança na honestidade dos outros, o espírito inventivo e o estado de direito, forte e limitado, são definidos como as causas da riqueza coletiva — não havendo outras.

Ora, foi justamente Peyrefitte quem melhor procurou analisar o que chama le mal français. Ao vislumbrar as condições da sociedade de confiança que favorece o progresso, o grande ensaísta enfrentou um de seus maiores desafios. No esforço hercúleo de penetrar no "mistério" ou "milagre" do desenvolvimento (uma de suas obras prévias chama-se, justamente, Du Miracle en Économie), nosso amigo é o maior participante francês num debate ardente que data da publicação, em 1835/40, da Démocratie en Amérique e, em 1905, de um das obras fundamentais da sociologia moderna, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Falsidades perversas

A polêmica que esses livros provocaram muito longe ainda está de se esgotar — e confesso me haver dedicado, com furor, a promovê-la no Brasil. O propósito weberiano era escaparmos das perversas falsidades do determinismo materialista que fez a fortuna inidônea do marxismo. Peyrefitte elaborou extensamente o tema da preeminência dos fatores morais, desde a publicação daquele primeiro título há 20 anos, até seus mais recentes. E é esta obra fundamental precisamente, a Sociedade de Confiança, que foi precedida de um compte-rendu do colóquio internacional, realizado no Institut de France em setembro de 1995 — em que me surpreendendi com a identidade dos problemas levantados, na França e no Brasil, quanto às condições morais e culturais do desenvolvimento e às políticas adequadas a seu sucesso.

No livro, o pensador francês coroou seu trabalho monumental com um estudo histórico e sociológico exaustivo da ética de livre iniciativa e incentivos ao setor privado da economia, suscetíveis de assegurarem o progresso. Renovando com o inquérito que, pela primeira vez, Adam Smith empreendeu no sentido de descobrir, na liberdade e na simpatia, o segredo do progresso, ele acentua o paralelismo entre o que chama a "divergência" religiosa entre os latinos, autoritários, patrimonialistas e desconfiados — e os holandeses e anglo-saxões, mais liberais, mais tolerantes, mais racionais e livres, e nutrindo maior confiança nos méritos da troca e divisão do trabalho.

Questão de confiança

A divergência explicaria o ritmo diverso de crescimento e progresso das respectivas sociedades. Esse desenvolvimento tem sido sustentado, de um lado, pelos sentimentos de confiança dos cidadãos uns nos outros; e, do outro, pela capacidade do estado de direito de fazer cumprir o princípio pacta sunt servanda. Pois não devem os contratos e a propriedade ser respeitados, sendo a honestidade pressuposto de toda transação econômica?

O descompasso histórico no ritmo de desenvolvimento se foi acentuando. Peyrefitte compara, por exemplo, o take-off inglês a partir do século 18 com o declínio espanhol. Chegando a nossos dias, diagnostica a mentalidade desconfiada, com o pressuposto generalizado que, até prova em contrário, todo o mundo é desonesto e sem-vergonha, se não pertence a nosso círculo de amizades e família. Os governantes podem ser tacanhos, mas só a eles o povo acredita que cabe a tarefa altruísta de nos salvar do egoísmo entranhado de todo capitalista. E insiste no fato de que a resistência enfadonha a qualquer inovação e o conservadorismo inquisitorial da Igreja cooperam para erguer barreiras burocráticas e impasses legais a qualquer oportunidade de avanço nos países obedientes à ética tridentina sob a qual fomos educados e sofremos.

Introversão

Peyrefitte amplia e aprofunda estudos setoriais que, em The Moral Basis of a Backward Society, foram realizados pelo sociólogo americano Edward Banfield ao analisar o comportamento familista, desconfiado e introvertido numa aldeia do mezzogiorno italiano, dominada pela Máfia; e pelo nipo-americano Francis Fukuyama que, em seu livro Trust, tenta explicar o sucesso das sociedades da Ásia oriental por motivações oriundas da disciplina da moral confuciana.

Os dados elementares do desenvolvimento são a liberdade, a criatividade e a responsabilidade. Mas utilizar os recursos da liberdade com autonomia individual e explorar essas virtudes na fase educacional da vida fazem supor uma confiança muito forte no homem, trabalhando dentro das normas de uma sociedade livre. É esse o fator, por excelência, do desenvolvimento.

Querer o desenvolvimento, o progresso, o enriquecimento do país comporta, na conclusão do livro, a "confiança na confiança". Peyrefitte é otimista. O tom hortativo do trabalho representa o esforço de um homem que, tendo ao morrer alcançado o topo da elite intelectual francesa, incentiva seus compatriotas à superação dos traços culturais viciosos que configuram o "mal francês". Estamos em suma, em presença de um novo Tocqueville cujo valor e reputação tenderão, estou certo, a crescer e se estender fora do âmbito da língua e cultura francesas.


Publicado em O Estado de S. Paulo, Domingo, 19 de dezembro de 1999


9 de outubro de 2020

A Duradoura Psicologia da Escravidão

Mark T. Mitchell

é Decano de Assuntos Acadêmicos e Professor de Governo no Patrick Henry College. Ele é o autor, mais recentemente, de Power and Purity: The Unholy Marriage that Spawned America’s Social Justice Warriors (Regnery). Ele é um dos principais autores da Carta Aberta, Liberdade e Justiça para Todos, e é o co-fundador e presidente do Front Porch Republic.

A escravidão está nas notícias e em nossas mentes. Qualquer figura histórica que participou da economia escravista deve ser redondamente criticada, condenada e entregue ao esquecimento. Se essa pessoa for homenageada com uma estátua pública, cuidado. Deve cair — violentamente e com extremo preconceito. Essas figuras não serão toleradas — mesmo que sejam o Pai do País ou o autor da Declaração de Independência.

Mas, em sua condenação à escravidão, os guerreiros da justiça social mais vociferantes, talvez ironicamente, defendam as mesmas categorias que tão vigorosamente condenam. Em suma, eles não querem ou são incapazes de se livrar da mentalidade da escravidão. No processo, eles perpetuam as estruturas psicológicas que afirmam abominar. A patologia contínua da escravidão pode ser vista de duas maneiras significativas.

Primeiro, a economia escravista cortou a conexão entre trabalho e recompensa. O escravo fazia o trabalho e o proprietário de escravos colhia os benefícios. A injustiça é óbvia. Significativamente, mesmo quando a escravidão era praticada na América, muitos observadores notaram que a instituição era prejudicial para escravos e proprietários de escravos. Obviamente, a escravidão degradou e humilhou os que estavam em cativeiro. Destruiu famílias e infligiu dor física e mental indescritível. Porém, de uma forma mais sutil, degradou também o proprietário de escravos. Promoveu a preguiça e um falso senso de superioridade. Esse sistema não poderia ser outra coisa senão corrupto e corrompido.

Mas aqui está o curioso: hoje, progressistas radicais insistem em receber uma variedade de bens e serviços gratuitos. Eles exigem educação universitária gratuita, assistência médica gratuita e uma renda garantida mesmo para aqueles que não trabalham. E agora, como os donos de escravos do passado, eles estão se mostrando dispostos a usar a violência e o medo para obter os bens, serviços e concessões que exigem. Um ativista do Black Lives Matter chegou a descrever os saques em agosto em Chicago como "reparações". Isso representa uma afirmação notável dos contornos da economia escravista: trabalho e recompensa são cortados, um grupo se beneficia do trabalho de outro e usa a força para extrair os benefícios que afirma serem seus por direito. Como no passado, essa estrutura econômica corrompe moralmente todos os que participam, especialmente aqueles que colhem benefícios econômicos do trabalho de outros. Pois, com os benefícios econômicos, eles também colhem danos morais: preguiça, um senso de direito e uma oportunidade perdida de experimentar a satisfação da recompensa que vem como resultado de um bom trabalho.

A segunda característica da psicologia escrava que os progressistas se recusam a descartar é esta: a escravidão foi construída em torno do pressuposto básico de que alguns grupos de pessoas são superiores a outros. Hoje, aqueles que abraçam a política de identidade se engajam nos mesmos padrões de pensamento. Como na economia escravista, superioridade e inferioridade — hoje manifestadas em termos de culpa e inocência — são atribuídas a grupos raciais, mas nesta nova versão, os papéis são invertidos: os descendentes dos proprietários de escravos — e todos os brancos em geral — herdaram ostensivamente a inferioridade nascida da culpa, e os descendentes de escravos — e todos os negros em geral — herdaram a superioridade da inocência. A responsabilidade individual é eclipsada pela identidade do grupo e, como a culpa ou a inocência são herdadas, é para todos os fins práticos inerradicável — está no DNA. Os atos públicos de contrição — alguns dos quais incluem ajoelhar-se, confessar e implorar por perdão — amenizam as queixas dos descendentes de antigos escravos? Haverá verdadeiro perdão e reconciliação? Em que ponto o BLM declarará que os brancos pagaram um preço adequado e que as contas agora estão equilibradas? A resposta é óbvia: nunca, pois ir além da política de identidade seria abandonar a psicologia da escravidão, e isso não deve ser permitido porque privaria BLM de seu poder. BLM sobrevive apenas perpetuando as estruturas mentais e sociais às quais afirma se opor.

A lógica das reparações combina ambas as características patológicas da mentalidade escravista. Aqueles que não fizeram nenhum trabalho serão enriquecidos por aqueles que são compelidos a carregar a culpa de seus ancestrais. Não adianta nada perpetuar as mesmas categorias que causaram tantos danos.Existem duas etapas óbvias para superar essa patologia.

Primeiro, devemos fazer todo o esforço para afirmar a conexão entre trabalho e recompensa. Em vez de sucumbir à turbamulta da justiça social com suas demandas ilimitadas de bens e serviços gratuitos pagos pelo trabalho de outros, os líderes políticos devem concentrar sua atenção nos pobres e marginalizados — as pessoas que Cristo chamou de "o menor deles" — fornecendo oportunidades de trabalho significativo e posse de propriedade produtiva. Quando a recompensa econômica segue o trabalho duro, os benefícios sociais e morais são incalculáveis. Quaisquer estruturas econômicas ou políticas públicas que obstruam a possibilidade de propriedade ou prejudiquem a conexão entre trabalho e recompensa devem ser eliminadas. Todo esforço deve ser feito para garantir que a propriedade seja uma realidade viável, desejável e atingível. Em suma, a propriedade negra é importante.

Em segundo lugar, a noção de culpa e inocência do grupo deve ser rejeitada enfaticamente. Em vez disso, devemos afirmar o valor, dignidade e responsabilidade de cada indivíduo. A culpa e a inocência devem estar clara e inextricavelmente ligadas à ação individual. A política de identidade é a irmã grotesca da psicologia escrava. Ambos são moralmente questionáveis por razões idênticas. Somente quando os progressistas rejeitarem enfaticamente as estruturas mentais da escravidão é que um sistema verdadeiramente justo pode ser criado.


14 de setembro de 2020

Prazeres do sexo e frutas vermelhas


Matt Ridley

Publicado em: Domingo, 13 de setembro de 2020

Hart explica por que estamos adaptados ao ambiente em que evoluímos, em vez daquele em que habitamos.

Minha crítica de Unfit for Purpose: Quando a evolução humana colide com o mundo moderno por Adam Hart, para The Critic:

Nossos ancestrais passaram algumas centenas de anos em cidades, no máximo. Antes disso, eles passaram um milhão de anos ou mais no que era essencialmente uma viagem de acampamento perpétua, a maior parte na África. Não é de admirar, então, que as pessoas tenham mais medo de cobras do que de carros, de águas profundas do que de velocidade, de aranhas do que de armas. Estamos, de forma significativa, adaptados ao ambiente em que evoluímos, e não aquele que a maioria de nós habita agora.

Essa incompatibilidade explica muito sobre nossos problemas modernos, e Adam Hart, um entomologista e broadcaster, começou a ver até onde e de forma convincente a incompatibilidade pode explicar coisas como alergias, obesidade e nosso vício em drogas, mídia social e até notícias falsas. Seu livro é especialmente valioso porque não cai em histórias simplistas do tipo "apenas isso" sem antes verificar as evidências reais.

No caso da obesidade, por exemplo, a teoria da incompatibilidade afirma que nossos ancestrais se fartavam de frutas açucaradas e larvas gordurosas sempre que tivessem a chance, porque a fome estava rondando. Agora não há fome, mas abundância perpétua, essa tendência nos torna gordos e diabéticos. Isso é conhecido como a hipótese do gene econômico e tem um sentido superficial.

Mas Hart acha isso insuficiente. Com exceção dos samoanos, que engordam com especial facilidade, mas não se tornam diabéticos facilmente, provavelmente por causa de viagens de canoa muito longas e famintas nas quais os gordos sobreviveram e os magros não, a maioria das evidências aponta para longe de genes econômicos uma vez examinados em detalhe. Por exemplo, apenas nove dos 115 genes associados à obesidade mostram evidências de seleção e cinco deles foram selecionados para promover corpos magros.

Em vez disso, Hart argumenta: o que nos faz engordar hoje é que não somos mais perseguidos por tigres dente-de-sabre e similares. Quando deixamos de ser presas regulares, há muito tempo, desapareceu a desvantagem de sermos atarracados. Portanto, nossos genes “derivaram” para nos permitir engordar demais quando confrontados com dietas ricas em carboidratos facilmente disponíveis e acessíveis.

O aumento constante de doenças autoimunes, alergia e intolerância alimentar pode ser mais bem explicado por um empobrecimento na variedade e abundância de bactérias que habitam nosso intestino. Nós nos tornamos tão implacavelmente higiênicos que não pegamos mais os vermes em nosso sistema que o corpo espera, e isso causa uma reação imunológica exagerada.

Aqui eu sinto que Hart vende sua própria tese curta. Essa “hipótese da higiene” nunca fez sentido para mim até que li An Epidemic of Absence, de Moises Velasquez-Manoff. Aquele livro resolveu meu problema, que era a perplexidade de por que o sistema imunológico deveria reagir exageradamente se subutilizado. Não é que fique entediado. Fontes de Velasquez-Manoff apontaram que um parasita desenvolve rapidamente a capacidade de amortecer a reação imunológica de seu hospedeiro. Isso dá início a uma corrida armamentista evolutiva, na qual o hospedeiro desenvolve um sistema imunológico superreactivo. Tire o parasita e a coisa terá uma reação exagerada contra a doença alérgica polínica.

Com certeza, há evidências abundantes de que a remoção de vermes de (por exemplo) aldeias etíopes é seguida pelo aparecimento da febre do feno, asma e semelhantes pela primeira vez. Experimentos com ratos descobriram que infectá-los com vermes reduz alergias, doenças inflamatórias intestinais e até mesmo diabetes e condições semelhantes à esclerose múltipla. Tratar pessoas com vermes também demonstrou funcionar contra essas doenças, embora não seja um bom negócio, já que infecções por vermes não são divertidas. Hart menciona vermes apenas de passagem, concentrando-se principalmente em bactérias, mas não há dúvida de que muitas de nossas condições modernas derivam da extinção de parasitas e de criaturas amigáveis ​​dentro de nós.

Em um capítulo engenhoso, Hart argumenta que nosso problema com as mídias sociais decorre do fato de que fomos projetados para ter uma rede social de cerca de 150 pessoas, não milhares. Este número, em homenagem ao biólogo evolucionista Robin Dunbar, deriva de uma correlação clara entre o tamanho do cérebro e o tamanho do grupo em primatas e se encaixa surpreendentemente bem com o número de pessoas em uma agenda de endereços antiquada, ou o tamanho de uma empresa antes de se tornar muito pesada para gerenciar. Hoje temos redes sociais reais e virtuais que ultrapassam em muito esse número e não estamos bem posicionados para lidar com isso.

Aqui está outra incompatibilidade intrigante. Por que gostamos tanto do álcool que ficamos viciados nele? Obviamente, existem pistas genéticas. Uma versão mutante de um gene chamado ADH4 surgiu há cerca de 10 milhões de anos nos ancestrais dos grandes macacos africanos, tornando-nos 40 vezes mais bons em digerir etanol. Ficar embriagado era um pequeno preço a pagar pelas calorias. Provavelmente deu uma vantagem significativa à coleta de frutas podres e caídas.

Junto com outras drogas que estimulam o sistema cerebral que é desencadeado pelo orgasmo, argumenta Hart, “o ambiente moderno é de grande tentação e uma riqueza de novas e potentes oportunidades de sequestrar um cérebro que evoluiu para desfrutar, e recompensar, os prazeres do sexo e das frutas maduras. ”

Talvez o mais original dos argumentos de Hart seja aquele em que ele explica notícias falsas. Temos uma tendência profundamente desenvolvida de confiar nas coisas. “Há uma linha muito tênue entre a confiança necessária para a vida cotidiana e a ignehuidade ou credulidade que pode nos levar a acreditar em notícias falsas.” Colocamos um halo em nossos heróis, seja como um efeito colateral neurológico da tendência de se apaixonar por companheiros de alto status, ou como um subproduto de termos seguido líderes na batalha contra tribos inimigas por milhões de anos. A lealdade tribal nós e eles, uma tendência humana profundamente arraigada, faz o resto, deixando-nos polarizados em grupos com crenças inabaláveis em “fatos” que às vezes são inabalavelmente errados.

Meu exemplo favorito dessa tendência é o experimento que Hans Rosling — o agora infelizmente falecido autor de Factfulness —, fez com mais de 1.000 pessoas. Ele simplesmente perguntou a eles: “A porcentagem da população mundial que vive em extrema pobreza (a) caiu pela metade, (b) dobrou ou (c) permaneceu a mesma nos últimos 20 anos?” Apenas 5% acertaram a resposta de que havia caído pela metade; 65 por cento acham que dobrou. Rosling apontou que se ele escrevesse as três respostas em três bananas e as jogasse para um chimpanzé, ele pegaria a resposta certa 33 por cento das vezes, acertando seis vezes mais do que os seres humanos ao responder a uma pergunta sobre a sociedade humana.

É esse descompasso, entre nossa tendência a acreditar em pessoas persuasivas e nossa exposição a charlatães com megafones globais, que explica o pior aspecto do mundo moderno: a corrida precipitada para cultos, sejam de Trump, Muhammad, Marx, Corbyn, Ayn Rand ou Foucault. (Essa é a minha lista, não a de Hart, a propósito.) Este livro é, portanto, um bom lugar para começar a entender quase tudo sobre o século XXI, da obesidade a Donald Trump, reconhecendo que ainda somos macacos.


9 de setembro de 2020

A Mente Conspirativa

Carlos U Pozzobon

Usada e abusada como explicação ontológica dos males do Brasil e do mundo, a teoria da conspiração apareceu entre as curiosidades que a última eleição presidencial nos trouxe. De repente, começaram a aparecer versões malucas da história, citações de líderes incondizentes com suas obras, revisionismo elogiando regimes autoritários e um festival de besteiras movido por uma articulação com o objetivo de eleger Bolsonaro. Com o passar dos meses era possível perceber que não se tratava de autores isolados, mas de um método. Que método é esse?

Idolatria

Nas entrelinhas da narrativa, verificamos que existe um propósito claro de analisar os fenômenos político-sociais atrelados a uma figura central que representa a liberdade e luta arduamente contra seus inimigos. Não se trata de fetiches ou religião. A idolatria é ao chefe político — o inefável líder que nos salvou do mal e que, encurralado pelos demônios, luta bravamente para extirpar as forças da corrupção no país.

Ao contrário de movimentos como o Black Lives Matter que luta para desestabilizar a ordem através do revisionismo histórico pisoteando a tradição, propondo a mudança de valores, a desconstrução de princípios que fundamentam a sociedade americana, impondo mudanças das representações e símbolos do passado — , a mente conspirativa atua sempre no sentido de aninhar todos os relatos na defesa do líder.

O propósito é explicar os fenômenos comparando-os a acontecimentos diferentes, como se fossem correlacionados e perigosamente ameaçadores à ordem institucional, quando o narrador pretende defendê-la (ou atacá-la), elucubrando as atitudes de um governo a acontecimentos de regimes totalitários do passado para mostrar suas similaridades.

Importa observar que o conspiracionista coloca sua mente em defesa da advertência alarmista, da ameaça comunista, fascista, racista, nazista ou daquilo que pretende combater. Suas motivações são as mais variadas e circunstanciais.
O conspiracionista não se satisfaz em defender uma ideia. Ele está sempre combatendo outra. Não verdade não tem ideias, mas análises comparativas com base na relatividade do menos pior. Mais do que um simpático, milita em favor da causa.

A defesa do líder tem uma base quantitativa de comparação. Se o roubo da Petrobras foi o maior do mundo, todos os outros podem ser minimizados, com base no relativismo estatístico. Desta forma, a defesa do líder fica assegurada pelo raciocínio que iguala o roubo irrisório de uma barra de chocolate no supermercado com o desvio bilionário de uma estatal ocorrida no governo do adversário.

A defesa apela para argumentos sórdidos do tipo: "mas por que falam disso se tem gente que roubou muito mais e não é molestada pela imprensa e pelo MP?" Levado ao exremo, o argumento pretende normalizar a corrupção com base numa hierarquia de valores, acompanhada, naturalmente, da desculpa moral de ter encontrado um alívio para a culpabilidade.


Dentre as dezenas de narrativas conspiracionistas que tenho lido, escolhi uma que revela inteiramente o teor do método:

Método DDD

O psicólogo Albert Biderman estudou táticas chinesas para tortura e doutrinação comunista conhecidas como DDD, expostas no trabalho de psicologia de I. E. Farber, “Lavagem Cerebral, Condicionamento e DDD ”(Debility, Dependence, Dread - Debilidade, Dependência, Pavor).

  O objetivo maior da DDD é, por meio de um amplo processo de lavagem cerebral, tornar a vítima dependente do seu torturador, a partir de um medo constante que lhe faz crer estar mais seguro sob a custódia dele do que em liberdade.

[A maioria dos textos começa com a citação de uma autoridade no assunto, apresentando o tema com uma argumentação conhecida e aceita pelo leitor, para logo a seguir apontar para o alvo:]

Mas o que mais chama a atenção nisso é que as táticas do método DDD são idênticas ao que se está impondo, hoje, sob pretexto de controle da pandemia.

[Pronto: foi dado o pulo do gato que caracteriza eloquentemente o resto da narrativa conspirativa: a identidade na diversidade, a utilização de um fato de uma ocorrência histórica para igualar com aquilo que pretende atacar, quando o objeto estiver em desacordo com as ideias correntes do líder idolatrado.]

Eis a seguir os 8 passos do Método DDD expostos pelo psicólogo americano Albert Biderman e publicados pelo Report on Torture de 1972 da Anistia Internacional”.

1o. - Isolamento da vítima

O primeiro passo do método é isolar a vítima e fazer com que ela perca contato com o mundo lá fora.

No nosso caso, particularmente, podemos chamar de 'isolamento social' ou 'quarentena'.

[O primeiro lance é fatal: qualquer pessoa minimamente informada percebe que a comparação forçada de vítimas de campos de concentração com o isolamento social da pandemia é coisa de maluco. Mas o maluco sabe que é maluco? Eventualmente, ao se esconder em um pseudônimo ele confessa o temor em se assumir. Com isso, se isenta da responsabilidade pelo que escreve porque seu propósito é ideológico.]

2o. - Controlar a percepção da vítima sobre a realidade.

O segundo passo é tomar o controle sobre aquilo que ela pensa e sobre a sua percepção da realidade.

Consegue-se isso detendo o monopólio da informação, que será usado para desorientar a vítima já confinada.

Com o advento da TV e dos jornais, a capacidade que os donos do poder ganharam de exercer esse controle sobre a mentalidade popular é monstruosa.

Basta ligar a TV ou abrir os jornais que você poderá ver essa tática sendo colocada em prática abertamente.

[A explicação apresenta um instrumento social para acontecer o controle da mente: a imprensa. Agora já sabemos quem são os vilões. Não importa que a imprensa esteja reproduzindo informações de laboratórios médicos, universidades, institutos ou o que valha. Aqui existe a homogeneidade do conspirador contra o conspirado, no caso, o povo.]

3o. Levar a vítima à exaustão física ou mental

Muitas práticas podem ser colocadas a serviço do passo três, desde jogos mentais a torturas físicas. O importante aqui é tirar a vítima do seu eixo e fazer com que ela perca o equilíbrio emocional. Longos períodos de confinamento combinados com ócio forçado e cenários apocalípticos iminentes não seriam por acaso, uma forma perfeita de alcançar a exaustão mental? Eles sabem que sim.

[Aqui temos uma associação de ócio forçado com terrorismo psíquico, um silogismo bárbaro mas não gratuito, porque o autor pretende mostrar que o combate à pandemia é feita com os instrumentos dos regimes totalitários. Se tais instrumentos foram utilizados em Nova York, Milão, Londres, Paris e Madri, o mínimo que se pode dizer é que o mundo está perdido.]

4o. Alimentar a ansiedade e estresse com ameaças

Em seguida, vem o passo 4 que completa o 3, no sentido de bombardear a vítima com ameaças e terrorismo psicológico. Isso num campo de concentração pode ser feito com ameaças reais de matar a própria vítima ou a sua família.

Já em tempos de pandemia, o medo entra na nossa mente pelos próprios meios de comunicação que insistentemente repetem que as pessoas que mais amamos estão correndo sério risco de vida e podem morrer a qualquer momento.

[O texto confessa a similaridade existente entre os campos de concentração e a pandemia, porque tratada com o alarmismo natural que sua ameaça provoca, é justificada pelo risco de vida. Trata-se de uma visão coerente com a opinião da “gripezinha”.]

Além disso, o fechamento da economia coloca o emprego e a segurança familiar de milhões de pessoas em cheque, gerando cada vez mais estresse e ansiedade. 

De acordo com o Manual de Treinamento da CIA publicado em 1983 no livro Human Resource Exploitation Training Manual, muitos psicólogos afirmam que a simples ameaça de induzir debilidades é mais eficiente do que a debilidade em si.

[A conclusão óbvia é que se a pandemia não fosse tratada com rigor, não haveria o risco da ansiedade coletiva pelo desemprego maciço. No parágrafo seguinte, a opinião conspiratória é reforçada por um documento expedido por uma autoridade que legitima a identidade dos métodos totalitários com a pandemia.]

5o. - Praticar indulgências ocasionais

“Algumas concessões ocasionais podem ser firmadas para premiar a vítima e motivá-la a cooperar com os desmandos do torturador. 

Exemplo: 'se você usar máscara, passar álcool gel toda hora, não chegar perto de ninguém, medir a temperatura antes de entrar nos lugares, ficar de pé esperando exatamente onde está delimitado no chão que você pode ficar, sair de casa só para o que for extremamente necessário, voltar direto pra casa correndo e cumprir mais 1001 exigências desnecessárias, nós deixaremos você ir até a esquina comprar pão'. Entenderam como funciona a 'troca'?”

[O argumento avança em sua asnice implacável: a adoção universal de métodos de isolamento para combate ao coronavírus é remediado por uma indulgência, uma concessão das autoridades locais para não deixar o povo morrer de fome.]

6o. - Exibir manifestações de onipotência

Fechar a economia de países inteiros da noite para o dia? Passar por cima das leis e da Constituição? Mandar prender as pessoas só porque elas saíram de casa? Interferir na forma como as pessoas se relacionam e na dinâmica interna das famílias dentro de seus lares? Impedir as pessoas de casar, de ir às igrejas ou de dar um mergulho no mar? Todas essas são demonstrações bem claras de 'quem é que manda'.

[O narrador reconhece que o fenômeno acontece em diversos países, com seus atores agindo contra as leis e a constituição. E, prender pessoas implacavelmente só por saírem de casa ou impedi-las de casar e até mesmo de irem à Igreja. Trata-se de uma generalização que pretende fazer do excepcional uma normalidade, apenas porque o narrador não concorda com o distanciamento e isolamento social. Seria de perguntar: será que passando a pandemia as coisas não voltam ao normal, ou as pessoas ficarão para sempre impedidas dos antigos hábitos sociais?]

7o. - Fomentar a degradação do ser humano

Punir publicamente de forma humilhante, arrastando cidadãos honestos como se fossem bandidos de altas periculosidade, a desobediência pode inclusive ser justificativa para entrar na sua casa e expor como exemplo público.

Isso mostrado continuamente faz com que o indivíduo acabe aceitando o destino imposto pelas autoridades pois isso lhe causa menos danos que resistir - 'resistir é inútil' - reduz o indivíduo à condição de um animal enjaulado onde o 'tratador' lhe trará o que for necessário para sua sobrevivência.

[Neste ponto o narrador passa do geral ao particular. Porém, o particular explica o geral, por alguma razão misteriosa. Como a de que ou a maioria é objeto de busca policial por desobediência, ou o desobediente está certo e o estado errado e, amedrontado, se entrega mentalmente a seus algozes.]

8o. - Reforço das demandas triviais

O poder muda as regras de acordo com as necessidades do momento, isso desenvolve hábitos de conformidade com as restrições impostas pelo sistema que aplica regras minuciosas e punições rígidas e fora da realidade para quem as quebra, mudam os discursos criando jogos mentais para com os indivíduos, as permissões e a liberdade podem nos ser tiradas a qualquer momento, bastando que se crie um bom pretexto para isso.

Esses são os 8 passos do método chinês de lavagem cerebral, chamado DDD. Coincidentemente, todos eles estão sendo aplicados hoje a nível global em um experimento de controle social tão monumental que a maioria das pessoas não consegue sequer vislumbrar que possa existir.

E essa é a prova maior de que esse método não só está sendo posto em prática, sim, como está funcionando (!!!), pois, lembrem-se do objetivo citado no início: 'por meio da doutrinação, tornar a vítima dependente do seu torturador'.

[O método chinês, possivelmente maoista, está sendo usado em escala global para tratar a pandemia em países onde existe a liberdade, mas a democracia estando hipnotizada pela conspiração, não permite que se saiba que sub-repticiamente ela é usada para a introdução de controle social ao modo do comunismo. Para pessoas ilustradas, a paranoia conspirativa não passa de uma bobagem: para pessoas angustiadas e sem noção histórico-social, pode causar o efeito devastador de trocar o medo do vírus pelo medo das forças do mal “articuladas para destruir a liberdade”].


26 de abril de 2020

Integralismo no Mundo


Após a virtude republicana

James M. Patterson é Professor Associado de Política na Universidade Ave Maria e autor de Religião na Praça Pública: Sheen, King, Falwell (Universidade da Pensilvânia, 2019).

Nos últimos anos, o integralismo católico passou de uma curiosa margem do direito americano para um assunto de interesse entre as publicações conservadoras mais populares. A American Affairs publicou a crítica integralista de Adrian Vermeule de Why Liberalism Failure, de Patrick Deneen, e First Things publicou a crítica de Gladden Pappin sobre The Lost History of Liberalism, de Helen Rosenblatt, bem como o pe. Romanus Cessario A Defesa do Sequestro do menino judeu Edgardo Mortara pelo Vaticano, em sua resenha das memórias de Mortara. Outros integralistas, como Patrick Smith e Pater Edmund Waldstein, publicaram para First Things, com eles e outros aparecendo no The Plough, University Bookman, Church Life Journal e em outras publicações. William Borman e Matthew Walther levantaram com sucesso fundos para iniciar o The Lamp, que promete ser uma espécie de triunfo redivivus, embora seu lançamento esteja atualmente atrasado. Publicações como Providence e The Chronicle of Higher Education escreveram peças observando o retorno do integralismo, com o City Journal publicando um retrato de página inteira de Vermeule. Como escritores, acadêmicos e, no caso de Waldstein, monge cisteriano, eles foram formados não por associações republicanas, mas pelo governo de cima para baixo que define a vida religiosa e acadêmica. Assim formados, revoltam-se contra a desordem constante e de baixo nível típica das democracias constitucionais. Em vez de entrar na briga para convencer os cidadãos, eles desejam colocar seus cidadãos sob o controle de um estado administrativo católico que degrada a livre associação de cidadãos na submissão solene de súditos a seus superiores espirituais e temporais.

Com o sucesso vem a crítica. Minha resposta, "Por que o integralismo é uma ideologia do desespero", foi publicada aqui e recebeu alguns avisos, mas outros já abordaram os argumentos do integralismo. Antes de meu artigo ter sido o longo debate no Public Discourse, havia um ensaio de Richard Reinsch na National Review. Logo depois, presidi uma mesa redonda sobre o assunto na reunião de 2019 da American Political Science Association. Em Assuntos Nacionais, Robert P. George e Ryan T. Anderson defenderam o liberalismo na mesma questão com Dan Burns. Essas peças ilustravam o liberalismo como uma prática ou como separado dos tipos de liberalismo que a Igreja havia condenado durante o século XIX. Timothy Troutner, no Church Life Journal, observou que a natureza ideológica do integralismo é apenas a imagem invertida do liberalismo ao qual Waldstein respondeu, estranhamente, que os regimes deveriam ser construídos da mesma maneira que os mosteiros. A mais abrangente e danosa é também a mais recente contribuição de Michael Hanby em First Things. Hanby, que nunca foi amigo do liberalismo, considerou o integralismo parte do “desastre místico da modernidade que reduz o cristianismo de uma mística para uma política". Isto é, que degrada o ensino social católico, ironicamente, no projeto hobbesiano.

O debate tem sido rico e fecundo, mas permanece menos interessado no porquê o integralismo é errado (embora certamente é) do porquê o integralismo ganhou influência na América em tudo. Começo meu ensaio retomando de onde Hanby parou — tratando o integralismo não como o ensino da Igreja (o que não é), mas como uma ideologia reacionária, acrescentando que essa ideologia é mais esteticamente do que dogmaticamente católica.


Integralismo e Fascismo

O leitor conservador comum ouviu durante décadas o fascismo como inerente ao movimento conservador americano. Muitas dessas acusações eram difamatórias e motivadas ideologicamente, mas no caso do integralismo, sua conexão com o fascismo é inegável. O integralismo surgiu durante os anos entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais na maioria dos países católicos. Os católicos de classe média temiam forças secularizantes de governos liberais ou a violência generalizada das forças socialistas. Por não poderem apoiar partidos liberais ou socialistas, os católicos se sentiram encurralados. Consequentemente, muitas vezes optaram por partidos reacionários "integralistas" que prometeram alguma versão da política restaurada do trono e do altar e optaram ou se tornaram causa comum do fascismo. Para nomear alguns havia a aliança entre carlistas integralistas e falangistas fascistas na Espanha, o integralismo nacional de Charles Maurras e seu Partido da Ação Francesa na França, o apoio à Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado para o Estado Novo de Getúlio Vargas que Loathar Hoebelt chamou de “embaraço das opções” para católicos que procuravam partidos fascistas que apoiavam Engleburt Dollfuss na Áustria. Embora a implementação do ensino social católico fosse o objetivo mais elevado de alguns, o mais importante era o desejo de se opor aos inimigos da Igreja: comunistas, maçons e judeus.

Os católicos americanos não têm uma história de abraçar o integralismo porque nunca foram maioria e, dentro de uma geração, romperam com os velhos laços com as monarquias ancestrais que deixaram para trás em favor das promessas do Novo Mundo. No entanto, durante os anos entre guerras, muitos católicos americanos apoiaram o popular padre Charles Coughlin nos programas de rádio, mesmo quando, em 1934, ele havia mergulhado em um quase-fascismo anti-semita que provavelmente seria populista demais para seus contemporâneos na Europa. [Nota minha: Na obra The Plot Against America (2004), o autor Philip Roth trata Coughlin como o vilão que ajuda Charles Lindbergh a formar um governo americano pró-fascista].

Trinta anos depois, sob a influência do falangismo espanhol, L. Brent Bozell fundou a revista Triumph . Em resposta à desordem libertina da cultura americana durante os anos 1960 e 1970, os camaradas da Triumph revoltaram-se com os compromissos e fracassos do conservadorismo do movimento e buscaram, na Espanha de Franco, uma imposição autoritária de dogmas católicos que coagiriam os desobedientes a obedecer à autoridade divina mediada pela Igreja e pelo Estado. Onde a liberdade fracassasse, a força prevaleceria. Ao longo de sua publicação, a Triumph considerou a Espanha o melhor regime e seu líder, Francisco Franco, o melhor governante. Bozell e outros acabaram se tornando antiamericanos durante a Guerra do Vietnã e o veredicto de 1973 em Roe versus Wade. A revista foi publicada entre 1966 e 1977, após a qual muitos de seus principais colaboradores fundaram o Christendom College.

Coughlin está morto há muito tempo, e Triumph era uma pequena operação que quase nenhum católico americano hoje já ouviu falar. Por que alguns intelectuais católicos hoje recordam um período em que o catolicismo europeu se aliou às ditaduras? Afinal, essas ditaduras, como a de Vargas, esfaqueavam integralistas pelas costas. Outros, como Franco e Antonio de Oliveira Salazar, de Portugal, manipularam clara e cinicamente os católicos para reforçar seu apoio até a morte, após o qual a Igreja nos dois países entrou em declínio acentuado e quase terminal. Como Alexis de Tocqueville previu, a imposição política direta do dogma da Igreja apenas degrada a reputação do estado e da Igreja, uma descoberta confirmada no trabalho de Anthony Gill.


Integralismo e ideias gerais da era democrática

Os neo-integralistas celebram o pensamento político reacionário e o autoritarismo porque são democráticos demais. Tal posição pode parecer, a princípio, bastante ridícula. Afinal, o neo-integralismo tem como premissa a administração executiva totalmente empoderadora, a fim de construir um estado confessional baseado em uma visão autenticamente católica da lei natural. Os exemplos antigos são os Habsburgos, os Hohenstaufens e o rei São Luís IX, e os modernos incluem Salazar, Franco e Dollfuss – os chamados "bons fascistas". O que todos têm em comum é o esforço de unificar os ensinamentos da administração do estado e da Igreja a ponto de “integrar” a Igreja e o estado sem muita ou nenhuma influência direta do povo. Como isso pode ser democrático demais?

A resposta não está na ideologia do neo-integralismo ou no regime ideal que eles imaginam, mas nos defeitos de viver em uma era democrática. Como explicou Alexis de Tocqueville, os povos democráticos tendem a reduzir os problemas políticos a "ideias gerais" ou ao que chamamos de construções ideológicas.

Por exemplo, Vermeule, cujo artigo de recente ataque ao originalismo desencadeou uma confusão, parece voltar ao pensamento do Nazi teórico Carl Schmitt e uma leitura reacionária de St. John Henry Newman como a ideologia para o "Império de Nossa Senhora de Guadalupe" na América do Norte. Essas construções substituem a experiência do autogoverno. Tocqueville argumenta que as democracias não têm como premissa o autogoverno ou a liberdade; pelo contrário, têm como premissa a igualdade de condições, pela qual Tocqueville quer dizer igualdade nos termos da lei ou igualdade no despotismo administrativo, como o que Vermeule recomenda. Ou são democráticos, mas apenas a primeira premissa é desejável. Como ele diz no Antigo Regime, pela Revolução Francesa, o Terceiro Estado estava convencido de sua igualdade com seus superiores, mas a administração central dos Bourbons havia privado o Terceiro Estado (ou mesmo a antiga aristocracia) de qualquer experiência no exercício da liberdade para fins de governo próprio. Como os neo-integralistas de hoje, o liberais filósofos da Revolução Francesa acreditavam que governar seria fácil porque tinham as ideias gerais certas para governar. Quando chegou a hora de governar, suas ideias gerais não tinham correlação com o bom governo, porque eram totalmente ignorantes e não estavam dispostas a reconhecer que as leis exigiam compromisso e consenso. Para compensar, eles usaram a administração centralizada do antigo regime para se envolver em loucuras extremamente violentas.

Tocqueville não estava menos preocupado com a entrada de outras nações na era democrática. Ele viu que o Reino Unido de seu tempo havia preservado grande parte de suas tradições aristocráticas, proporcionando à nação um estado capaz de resistir ao pior do desejo democrático de igualdade. Os EUA, no entanto, não tinham essa aristocracia, mas também esta nação resistiu aos excessos da democracia. A experiência americana em autogoverno havia treinado os americanos há muito tempo a preferir a liberdade de formar associações cívicas para servir ao bem comum. Essas associações tornaram o estado supérfluo na maioria dos casos, pois os cidadãos comuns lidavam com seus próprios assuntos, tornando-o mais capaz nas áreas onde a ação do governo é mais vital. Além disso, os americanos participaram do governo local, onde foram tomadas a maioria das decisões importantes do dia a dia. Como resultado, os americanos tendiam a falar como se estivessem sempre em audiência pública. Ele relata confuso como o americano “não sabe conversar, mas discute; ele não discursa, mas se mantém. Ele sempre fala com você como numa assembleia; e se, por acaso se exaltar, ele dirá 'senhores' ao se dirigir ao interlocutor.”

O clero católico americano foi igualmente afetado. Tocqueville transcreve um discurso de um padre católico que fala não do altar ou do púlpito, mas na frente de mais uma associação cívica, desta vez de cidadãos católicos americanos, a quem ele declarou que Deus "sustentara os direitos sagrados da ... independência nacional" e, portanto, "não permitir que o despotismo viesse deformar o seu trabalho para manter a desigualdade na terra", mas admitia que "sempre devemos ser as pessoas mais religiosas e as mais livres". O clero católico havia desenvolvido os hábitos e a linguagem do autogoverno de maneira a afastar ideias gerais e arejadas; eles não precisavam delas simplesmente porque, ao longo de anos de autogoverno, eles conheciam melhor.

Eu nunca descobri quem era esse padre, mas Tocqueville diz que estava em uma das maiores cidades da América. Sempre me perguntei se aquela cidade era Filadélfia, onde então o padre John Hughes estava servindo na diocese da Filadélfia, que certamente poderia ser descrita como uma das maiores cidades da América. O exemplo de Hughes é um caso que ajuda a ilustrar como os católicos americanos aprenderam bem os hábitos de autogoverno que os disciplinaram contra a adesão às ideias gerais que reduzem a política à construções ideológicas.

Durante a "crise escolar" de 1840-1842, o agora bispo "Dagger" John Hughes, da diocese de Nova York, realizou reuniões no porão da Igreja Católica St. James, em Manhattan, onde aguardava uma grande multidão de fiéis principalmente irlandeses. Hughes havia encontrado um aliado improvável e muito sincero no protestante Whig, William Seward. Seward prometeu apoiar uma legislação que forneceria alocações diretas do governo para financiar o funcionamento das escolas católicas. O Conselho Comum da cidade de Nova York tinha sido responsável pela distribuição de fundos do estado para escolas de caridade, e essas escolas eram quase inteiramente operadas pela grande rede de igrejas da cidade. O Conselho Comum, no entanto, não era sectário. Depois que uma igreja batista procurou instruir os alunos nas crenças batistas, o Conselho Comum procurou impor uma condição não-sectária às escolas, pois ficaram preocupados que outras denominações pedissem dinheiro do Estado para ensinar instrução religiosa. Hughes havia desafiado diretamente o Conselho a fornecer dinheiro e insistiria para que suas escolas instruíssem os irlandeses muito pobres e deslocados em sua fé ancestral; além disso, ele insistia que outras igrejas tinham o mesmo direito de fazê-lo. Como ele disse em suas reuniões noturnas nos porões da igreja e nas audiências do Conselho Comum, o povo de suas congregações também era cidadão e não deveria ter sua formação na fé violada por burocratas distantes. Infelizmente, Hughes perdeu a luta com o Conselho Comum, mas também ganhou o apoio de seu rebanho ao construir neles instituições e hábitos republicanos.

Ele não estava sozinho. Historicamente, a maioria dos bispos americanos é descendente de irlandeses, embora houvesse grandes congregações de católicos alemães, franco-canadenses e cajuns católicos durante o início do século XIX. Em 1900, mexicanos, afro-americanos, poloneses, eslovacos, tchecos, lituanos e italianos introduziram ainda mais tensões étnicas. Para gerenciá-las, os prelados americanos passavam muito tempo com seus padres e congregações, o que significava que viajavam extensivamente e frequentemente com um orçamento apertado, devido ao quão pobres suas Sés deviam ser. Enquanto Hughes estava errado em relação à escravidão, uma geração depois o arcebispo John Ireland desafiou os católicos americanos a expiar os pecados do passado e trabalhar em prol da justiça racial, e ele experimentou o tipo de golpe que se poderia esperar. Nenhum bispo gosta dos leigos que resistem à obediência, mas ele entendeu a necessidade de persistir na defesa da fé e de sua aplicação à vida pública – frequentemente em resposta a cartas hostis, artigos de jornal ou até vigaristas. De fato, como observa John Loughery, Hughes brigou com o convertido católico Orestes Brownson pela publicação deste último de uma revista católica crítica ao clero católico, surpreendentemente, por não fazer o suficiente para instruir os imigrantes irlandeses sobre a instrução adequada em “cidadania, civilidade e seus deveres religiosos."

Ao contrário de muitos de seus colegas europeus, os pastores americanos cheiravam suas ovelhas. Eles compartilharam suas dificuldades e mostraram o tipo de liderança que os leigos em declínio do Velho Mundo frequentemente admiravam. Em 1892, o irlandês visitou a França para fazer vários discursos, muitos na imprensa católica francesa o celebraram – exceto os reacionários que temiam e odiavam um bispo católico (e irlandês) elogiando as virtudes do governo republicano. Tocqueville observou que os padres católicos americanos:

... dividiram o mundo intelectual em duas partes: em uma, deixaram dogmas revelados e se submeteram a eles sem discuti-los; no outro, colocaram a verdade política e pensavam que Deus a abandonou à livre investigação dos homens. Assim, os católicos nos Estados Unidos são ao mesmo tempo os mais submissos dos fiéis e os mais independentes dos cidadãos.

Vale ressaltar que uma das condições que favoreceram o desenvolvimento da virtude republicana foi a pobreza relativa e a minoria numérica. Se os católicos americanos tivessem sido “ricos e predominantes”, observou Tocqueville, eles teriam adotado a virtude republicana “talvez com menos ansiedade”, um ponto que se refere às origens do integralismo na Europa.

Os católicos americanos, como Tocqueville os observou, possuíam a virtude republicana necessária para preservar a liberdade em contravenção à tendência democrática à igualdade, mesmo sob despotismo. Muito disso decorreu da agitação da vida diocesana na qual a hierarquia da Igreja Americana aprendeu a interagir com partidos políticos, funcionários eleitos, representantes de negócios, líderes leigos e paroquianos comuns, mas os católicos comuns também serviram de jurados, estabeleceram instituições da sociedade civil, ou simplesmente mantinham suas obrigações de vizinhança. Em outras palavras, os católicos americanos possuíam e frequentemente exemplificam a virtude republicana. Como Adam White argumentou, integralistas como Vermeule conspiram necessariamente contra a virtude. Nas próprias palavras de White:

Vejo o resultado lamentável da perda de virtudes republicanas – a capacidade de compromisso, de boa vontade e a crença de que nosso governo representativo deve traduzir nossas paixões em razão pública. Um cidadão impaciente com o compromisso e a deliberação do Congresso, um cidadão que exige o imediato intransigente da administração, é algo diferente: pegando emprestada uma frase de Alasdair McIntyre, a abnegação da lei é o que temos "depois da virtude republicana".

Que tipo de catolicismo faz da virtude um inimigo do estado?


O autoritarismo e a sublime experiência histórica

Tocqueville não dá muito crédito a um profundo conhecimento de teologia ou filosofia especulativa ou gasta seu tempo em casa lendo panfletos radicais, mas essas são as coisas que muitos neo-integralistas passam seu tempo fazendo nos equivalentes do século XXI. Além de Vermeule, Pappin e Waldstein, os integralistas mantêm em grande parte os blogs pessoais e as contas do Twitter. Eles colecionam memes. O resultado é o fluxo contínuo de manifestos abreviados no The Josias ou longos tópicos no Twitter que descrevem esquemas abstratos fundamentados nominalmente no ensino social católico, mas com mais frequência desculpas implícitas por ditaduras políticas cujos benefícios estão sempre no futuro ou no passado, e são descritas como as mais sublimes vantagens.

Repetidamente cometendo a falácia da reificação, eles postulam o “liberalismo” como uma ideia geral que se opõe aos seus grandes planos. Como Sam Goldman deixou claro, as ideologias não possuem agência e, dado o papel central de Charles Maurras no desenvolvimento do integralismo, não é difícil adivinhar o que alguns integralistas realmente querem dizer com o termo.

De onde tudo isso veio? Como um artigo do The Guardian explicou, a mudança para esse tipo de falso-tradicionalismo é amplamente online e reflete um desejo pela estética real das antigas monarquias europeias que decorre das frustrações que os jovens experimentam com a vida democrática moderna. Eles encontram no integralismo velhos heróis para adorar. Quando um jovem lê o heroico relato de Luís IX em Antes de Igreja e Estado: Um Estudo da Ordem Social no Reino Sacramental de São Luís IX, de Andrew Willard Jones, ele tem o que Matthew Schmitz chamou de “o desejo de mundos perdidos”. E o que o filósofo Frank Ankersmit chama de "a sublime experiência histórica". Vale a pena citar Ankersmit em seu livro homônimo:

A experiência histórica envolve, em primeiro lugar, uma mudança da Gestalt de um presente atemporal para um mundo que consiste em coisas passadas e presentes. Isso nos dá a descoberta do passado como uma realidade que de alguma forma "rompeu" o presente atemporal. Este é "o momento da perda". Mas, ao mesmo tempo, a experiência histórica visa a recuperação do passado, transcendendo novamente as barreiras entre passado e presente. E isso pode ser caracterizado como "o momento do desejo ou do amor". Toda a escrita histórica deve estar situada no espaço fechado por esses movimentos complementares de descoberta (perda) e recuperação do passado (amor) que constituem juntos o domínio da experiência histórica … A sublimidade da experiência histórica se originou dessa união paradoxal dos sentimentos de perda e amor, isto é, da combinação de dor e prazer em que nos relacionamos com o passado [ênfase no original].

Não é de admirar, então, que William Borman vivenciou a leitura de Antes da Igreja e do Estado e expressou, como ele faz no título de sua resenha do livro "Tudo o que sabíamos que estava errado", e nos sentimentos de que a perda do reino sacramental francês do século XIII causa dor, mas o amor por ele "pode” encontrar eco ou premonição no mundo cada vez mais descentralizado da Internet". A esperança era que a Internet servisse ao antigo papel de "redes de amigos, manifestadas nos atos de aconselhamento e ajuda", o que significa que aqueles com maior probabilidade de desejar alternativas as procurarão nas mídias sociais para formar redes virtuais de amizade encontradas entre os integralistas em uma rede de blogs, contas no Twitter e bate-papos em grupo.

Há também um desejo de um governo como o antigo – que decide unilateralmente impor a lei natural a um povo corrupto. Apenas recentemente, um padre no Twitter postou uma foto de Dollfuss e Thomas Jefferson, proclamando que apenas um dos dois havia fundado um regime baseado no ensino social católico. Dollfuss era um expoente do "austrofascismo" ou uma forma de corporativismo vagamente baseada no ensino social católico e atualmente promovida por Pappin. Ele se opôs a Adolf Hitler, mas tinha esperanças de preservar a independência austríaca com uma garantia de Mussolini antes que agentes nazistas o assassinassem, levando esse mesmo padre a considerar Dollfuss como um "mártir". Ainda mais ameaçador, em uma conversa que tive em um grupo do Thomism no Facebook, um colaborador declarou: “A Comunhão dos Santos realmente usa botas de montaria e braçadeiras Sigma [o símbolo do integralismo brasileiro]. Eles queimaram hereges e apreenderam crianças judias. Isso é catolicismo.” Quando eu, entre outros, indaguei se a negação dos direitos da consciência religiosa dos judeus era anti-semitismo, a mesma pessoa respondeu invocando a síntese de Vermeule do catolicismo reacionário e do decisivismo schmittiano:

Ninguém de boa vontade deve levar a sério essas acusações do tipo "racismo" ... É uma acusação que vive em um mundo moral totalmente diferente, um mundo que não deve receber um naco de reconhecimento. Se não é óbvio o quão equivocado e derrotado isso é, pelo menos a experiência deveria ter nos ensinado. Ver além da estrutura moral liberal e afirmar a antiga – e aceitar a distinção amigo-inimigo aplicada à igreja católica – é o maior desafio enfrentado hoje pelos integralistas do tipo Josias .

A resposta deve nos dar uma pausa, pois o colaborador interpreta erroneamente os direitos de consciência como “liberalismo” e considera os defensores dos direitos de consciência como inimigos da Igreja. Presumivelmente, então, são os judeus que esses defensores procuram defender. Os laços entre integralismo e fascismo permanecem tão fortes como sempre.

No final, tudo isso é realmente integralismo. É uma estética da Internet composta principalmente por jovens alienados da vida pública e consumidos pela libido dominandi (desejo de poder). Na ausência das instituições que outrora fizeram da América um lugar de profunda fé e comprometidas com a liberdade, esses jovens recorreram à Internet e se apegaram à sublime experiência histórica da realeza sacramental, do falangismo ibérico ou do fascismo direto. apoiado pelas ideias gerais fornecidas por Vermeule e similares. A única alternativa é a Igreja treinar e nomear novos bispos comprometidos em participar da vida pública com suas congregações e elevá-los à virtude republicana que definiu o catolicismo americano.

Fui abençoado por experimentar esse tipo de catolicismo muitas vezes na minha vida, embora meu favorito fosse em uma pequena paróquia no centro da Virgínia. No batismo de nosso primeiro filho, toda a paróquia nos deu uma grande festa, e um paroquiano nos deu um envelope cheio de dinheiro. Quando tivemos que nos mudar, outro paroquiano, que dirigia um caminhão da UPS para sobreviver, conduziu o caminhão de mudança até a frente da nossa casa. Ele e os dois filhos do ensino médio, que trabalhavam no depósito de madeira nas proximidades, conseguiram encher o caminhão em uma hora, oraram conosco e deram algumas dicas para lidar com os turnos de professor. Então, talvez, os jovens neo-integralistas devam colocar suas cópias gastas de Considerations on France, parar de twittar alegremente sobre os recentes esforços de Viktor Orbán para se tornar ditador da Hungria e verificar se algum de seus vizinhos precisa de ajuda durante esse período problemático.


14 de abril de 2020

De Bolsopatas a Covidiotas

Carlos U Pozzobon

A pandemia de coronavírus abriu as portas da discórdia política até então restrita às disputas entre os 3 poderes. A movimentação do Ministério da Saúde, liderado por Henrique Mandetta, estava dando o tom da mobilização nacional necessária para o enfrentamento do vírus. Parecia que, sob ameaça de morte, o país iria se unir em torno de um consenso no qual o sacrifício seria dividido igualmente e seus prejuízos não se tornassem objeto de disputa política.

Isto foi só aparência. Coisa de Alemanha. Na iminência de um colapso econômico, não se viu a redução de um centavo sequer nos salários da privilegiatura, e tampouco das compras suntuosas dos três poderes.

Tudo começou com uma notícia divulgada pelo gabinete de Trump a respeito do coronavírus ser curado com o uso da cloroquina.

Imediatamente a opinião dele foi tomada como verdade e os coletores de evidências saíram mundo afora atrás da opinião de autoridades da área de saúde que confirmasse a receita. Os que duvidavam foram descartados, como costumam fazer aqueles que não precisam de evidências para assumir sua posição em qualquer debate.

Ao mesmo tempo, um enorme contingente radicado no mundo hospitalar negava a cloroquina como solução, enaltecendo a prudência no uso da medicação, e desautorizando a certeza científica em testes experimentais, em contraposição aos evangelistas de primeira hora, aquela parte da sociedade que acreditando em João de Deus, mantinha a opinião da cura como se fosse um xarope milagroso.

A crise não teria um ápice se Bolsonaro não entrasse em cena para subestimar o contágio como base no “animus americanus” e servir de defensor do isolamento vertical, aquele que dispensa os que estão fora dos grupos de risco, com vistas a produzir o menor efeito nocivo na economia.

Como os maiores recursos de saúde estão em São Paulo, evidentemente que a hostilidade do próprio presidente contra as determinações do MSaúde, sobrou para João Doria que defendendo a posição do isolamento horizontal de Mandetta, entrou em rota de colisão com Bolsonaro. Foi a centelha que faltava para os bolsopatas dispararem uma campanha contra um líder político que aparecia em cena desafiando a autoridade de um presidente que, desde a posse, terceirizou a responsabilidade dos assuntos ministeriais aos titulares, resguardando o papel de animador popular do palco que o mantém popular.

Ocorre que Doria também é um homem de palco, um exímio mestre de cerimônias que fez carreira como se fosse um apresentador de programas de debates na TV. A fluência com que fala, a capacidade de articulação que Bolsonaro não tem no DNA, excitou ainda mais os ânimos. A resposta foi a sociedade ficar dividida entre a receita da cloroquina, o momento exato de aplicá-la, e as formas de combater o vírus.

Na santa inocência de agir em função dos parâmetros aplicados pelos demais governos ao redor do mundo, na sexta-feira (10/4) Doria chegou a ameaçar de prisão os que furassem o bloqueio sem motivo, baseado nos relatórios de tráfego das empresas de telefonia.

Estava instalado o pandemônio no meio da pandemia. Os bolsopatas descobriram que havia no país um software que controlava seus movimentos, e que estavam às portas de um estado orwelliano. E deram o alarme do perigo totalitário.

Ignoram que as empresas de telefonia celular usam os dados de localização do celular como a única forma de endereçar chamadas ou dados para um telefone, sem o qual o sistema teria de ser fixo em vez de móvel. Um mapeamento do número de aparelhos em uma região é um recurso de tráfego usado para conhecer a concentração de assinantes e dividir as células sempre que apresentem congestionamento recorrente.

Ocorre que qualquer erro de avaliação cria seus próprios argumentos favoráveis. Empresas de telefonia como a ZTE da China, estão implantando o estado orwelliano através da conjugação em um único cartão de crédito dos dados bancários, informações de saúde e, por extensão, a presença eleitoral quando de eleições. Com a temporização do voto por urnas eletrônicas, é possível saber em quem o vigiado votou se for possível saber o momento exato em que o eleitor aperta o botão da urna com sua localização. Este sistema está em vigor na Venezuela, não se sabendo se total ou parcial.

Mas isso não seria grave se os covidiotas não acusassem Doria de tentar implantar uma ditadura, ou como disse Coppolla, “fizesse ressurgir um ditadorzinho enrustido” no meio político. Que eu saiba nunca existiu na história do Brasil e, provavelmente do mundo, uma ditadura de um governo estadual à revelia do governo federal. No entanto, a bolsopatia precisa de exasperações para acionar suas bases esbravejadoras, e foi o que aconteceu no sábado (11/4) com a carreata levada a cabo e o bloqueio na Av. Paulista de automóveis e 3 ambulâncias.

O mesmo Coppolla vaticinou do alto de sua sabedoria: “É óbvio que uma medida de monitoramento agressiva que consegue determinar se você está a 300 metros da sua própria casa – informações essas nas mãos de empresas privadas – pode degringolar em uma grande perseguição às liberdades individuais“, reclamou. Ou seja, aquilo que sempre se fez por razões técnicas, passou a ser uma ameaça por razões histéricas. Este rapaz mostra que tem todos os requisitos para, tal qual o seu homônimo americano, comandar um roteiro sobre o Poderoso Chefão Doria.

O próximo bolsopata a entrar em cena foi o conhecido blogueiro que nunca foi santo chamado Allan dos Santos. Usando o recurso metafórico dos campos de concentração na vertical e na horizontal, sempre que não se tem grande coisa para dizer, conseguiu uma reação à altura da Confederação Israelita do Brasil (Conib) quando afirmou que “omitir o uso da cloroquina é o mesmo que deixar judeus na dúvida entre chuveiro e câmara de gás”. Para a Conib, “antissemitas e oportunistas estão sempre à espreita para, em momentos como este, fazer ataques contra judeus e outras minorias”. E informou que denunciou a postagem ao Twitter e está examinando as alternativas legais.

O festival de besteiras continua a revelar covidiotas por todo o tecido social do país. Um apresentador do SBT que se autointitula Marcão do Povo, sugeriu ao vivo que “o presidente Jair Bolsonaro montasse campos de concentração para infectados de coronavírus.” A emissora de Sílvio Santos não gostou da sugestão do Marcão, até porque seu alinhamento com o governo, isto é, as verbas do governo, não chegam a tanto. Foi suspenso e a emissora pediu desculpas aos ofendidos pelo comentário.

Existem ganhadores na guerra política do coronavírus? A curto prazo não. Mas a área de conflito com o governo federal, em oposição ao seu ministro da saúde e equipe, continua, quando em 13/4 “os presidentes dos dois principais hospitais do País, Sidney Klajner, do Einstein, e Paulo Chapchap, do Sírio Libanês, defendem a necessidade do isolamento social para conter a epidemia do novo coronavírus. Sobre a cloroquina, medicamento que vem sendo apontado pelo governo como uma possível cura para a covid-19, ambos afirmam que “ainda” não há provas conclusivas sobre a sua eficácia.”

Tal informação não pode ser categórica, pois já existe prática de uso bem sucedido em um coquetel de medicamentos. Em todo caso, os dois hospitais são aqueles endereços onde qualquer grande figura política costuma se tratar, incluindo Bolsonaro. O que fazer se ele pensa contra o hospital que lhe serve de último refúgio para a salvação pela excelência técnica com que é conhecido? Evidentemente, ignorar a verdade quando em confronto com a ideologia.

O outro dado curioso é sobre a OMS, dirigida por Tedros Adhanon, nome mais de múmia egípcia que de biólogo. A OMS, como qualquer organização governamental (intergovernamental) é ruim. Sempre foi. É ruim exatamente porque sua atuação consiste em fazer perguntas aos governos e pautar suas recomendações com as informações desses mesmos governos. E quando o governo é uma autocracia, a OMS vai trocar os pés pelas mãos invariavelmente.

Quando um governo esconde uma pandemia em seu início, a única forma da OMS ter uma avaliação própria passa por denúncias produzidas por agentes (businessman, viajantes de eventos, turistas, etc) que façam chegar casos de pandemia às embaixadas e estas alertarem seus governos para, ao fim, colocar o caso no plenário da ONU e na cúpula da OMS simultaneamente. Tudo pelos meios burocráticos comuns. Fora disso, os erros do governo chinês são também erros da OMS, apesar de sabermos que antes do governo chinês admitir a pandemia, a OMS já ter conhecimento dela e, como os chineses, subestimado a gravidade.

O mais político dos convidiotas se chama Guilherme Fiúza. Este comentarista fez uma live para falar da conspiração do coronavírus comandada, naturalmente, por João Doria. Reverberando a opinião delinquente de que Doria queria criar o caos para se eleger presidente (a obsessão com que desde de janeiro de 2019 se fala em reeleição é algo que desnuda um esquema de poder e não de gestão, ao estilo psicológico do PT), disfarçando providências de saúde como se fosse um ardil para uma paralisação total da economia. Não se sabe como as ações de Doria, imitando os governos da Itália, Espanha, França, Inglaterra e Nova Iorque possam ser uma conspiração tão insidiosa, a menos que se entenda o fenômeno cultural brasileiro da dupla moral: o que é bom para os outros é diferente para nós.

Num país com uma estrutura partidária fragilizada ao extremo, Fiúza comenta a declaração de Arthur Virgílio sobre a iminência de colapso na rede pública de Manaus com as 44 mortes até então (13/4). Mas Virgílio estava falando sobre o número de corona-positivos, o que significa uma projeção para o agravamento da situação face ao número de leitos hospitalares. Esquecendo que são os infectados que contam, e não os mortos, logo ficamos sabendo a causa da sonegação da verdade. Fiúza queria fazer uma ponte com Doria, do mesmo partido que “vem se comportando como um tiranete ao ameaçar com prisão aqueles que descumprirem a ordem de ficar em casa”. E como na Barra da Tijuca circulou um clipe de policiais retirando aos puxões uma banhista de biquíni que recusava cumprir a ordem carioca, o nosso Fiúza que usa e abusa da lógica obtusa, conclui que estão havendo prisões em massa. Onde? Em São Paulo, evidentemente.

O outro covidiota é Hélio Beltrão, engenheiro como eu que, no entanto, articula a demissão de Mandetta (13/4) porque este teria recomendado o uso de cloroquina somente para paciente em estado grave, isto é, em adiantado estado de infecção. Mas por que Mandetta recomendou a seleção é algo que não se tem notícia, a menos da trivial, de que o país não dispõe nem de testes de infectados nem de cloroquina para todos os contaminados. Ele não acha que na escassez alguém precisa ser priorizado. Ele acha que Mandetta mantém-se no erro por alguma birra contra as evidências farmacológicas. E mais, que os médicos devem seguir as ordens estritas do MS, como pegar o telefone e perguntar ao Mandetta se ao paciente em suas mãos já pode ser ministrado a cloroquina, já que não se sabe o estágio da doença para o começo da aplicação.

Nesta atmosfera de entortar doidos, a pandemia da covid-19 atingiu 2 milhões de casos confirmados no mundo. Desde o primeiro caso em Wuhan, em 31/12/19, “foram 93 dias até os 1 milhão de casos, em 2 de abril. Agora, o segundo milhão deve ser atingido só 12 dias depois. O número de mortes, que bateu 100.000 neste fim de semana, segue padrão parecido. O tempo entre 1.000 e 10.000 mortes nos cinco países que atingiram essa marca (EUA, Itália, Espanha, França e Reino Unido) foi de duas semanas em média — dado que serve de alerta para o Brasil, que atingiu 1.000 mortes na sexta-feira, 10/4.”

E para aumentar as incertezas, ainda vivemos o inferno das subnotificações. Qualquer pessoa medianamente ilustrada, com a desconfiança permanente nas veias de tudo o que procede dos governos, sabe que a precariedade de recursos na maioria dos pequenos municípios pode elevar nossos índices para valores muito mais graves que os conhecidos. Basta que os mortos sejam uma ameaça ao continuísmo político para que a trapaça se imponha à realidade.