30 de abril de 2018

Conservadorismo teocrático brasileiro

A insuficiência do pensamento conservador deveria ser objeto de atenção do mundo liberal brasileiro. Isto não acontece porque o debate intelectual desapareceu ou só aparece muito fragmentado em argumentos isolados no cenário nacional.

A inserção de Olavo de Carvalho como o pontífice da liderança organizadora de um movimento cujas raízes estão no Centro Dom Vital e seus apêndices, criando um número expressivo de seguidores em sua escola de pensamento através do aliciamento de críticos independentes espalhados pelos diversos movimentos liberais do país, conseguiu o raro fenômeno de produzir debates tão somente entre eles.

A principal característica de tantos quantos seguiram as pegadas do seu “grande mestre”, consiste na lamentação quase unânime de terem sido rejeitados pelo mundo acadêmico e intelectual brasileiro, seja pelo silêncio, seja pelo desdém.

Se o fracasso da esquerda mundial pós-muro de Berlim tem sido objeto de incontáveis análises críticas por parte de seus membros, não existe uma análise sequer – e digo isso com a atenção de quem se dedica ao rastreamento de ideias, sobre o fracasso do movimento militar de 64 do qual os conservadores foram parte atuante e que terminaram se condenando ao silêncio pelo excesso de despudor com que a corrupção grassava em todo o período. Não existem análises sobre esse passado que condenou o conservadorismo a uma cacofonia impotente de lamentações acusatórias contra a esquerda, como se esta desfrutasse de onipotência divina para excluir seus adversários do debate intelectual.

O que se conhece do pensamento conservador do período consiste na alusão a uma reunião entre Lula e o general Golberi, que teria negociado apoio do regime a Lula para se contrapor à influência dos velhos comunistas nos sindicatos.

Quando Bolsonaro apareceu na cena política, com um discurso meramente reducionista tratando o passado como se fosse apenas uma luta entre guerrilheiros e policiais, esperava-se que o conservadorismo crítico pudesse reagir a tal impostura, e colocar as ideias na mesa, mas, novamente, o que se revelou foi um silêncio brutal sobre o período, seguido pela falsificação do passado pela direita nacionalista com uma propaganda sistemática sobre as virtudes do regime militar que não consegue explicar nem mesmo tartamudeando o fracasso espetacular e, mutatis mutantis, de todos os grupos que assumiram o poder para manter o sistema que vem saqueando a nação sistematicamente desde a formação da República.


Se o leitor já percebeu, o surgimento dos neocons tem uma causa mobilizadora que não está latente no mundo das ideias, porém na derrota fulminante do lulopetismo em todos os campos da atividade político-cultural de atuação institucional. Foi o vexame petista que forjou as aspirações para um outro tipo de pensamento, do qual o movimento liberal prosperou e o conservadorismo cruzadista olaviano se enraizou com as mesmas técnicas da calúnia petista contra adversários situados fora de seus mitos fundadores.

Assim, o pêndulo da governabilidade oscila a cada 20-30 anos para um lado do espectro ideológico, e o resultado sempre termina no mesmo fracasso. Mas, os perdedores, estes sim, são os grandes depositários da esperança de um Brasil novo, que termina derrapando em alguma curva da estrada e se espatifando outra vez no mesmo precipício de seus antecessores.

E isto sempre acontecerá enquanto os conservadores virarem as costas para a realidade nacional e viverem anaerobicamente das ideias conservadoras anglo-americanas, que por sua vez já se mostraram impotentes para entender nossa realidade além meramente da história política, comprovada pela perplexidade de um Samuel Huntington quando afirmou que a América Latina não pertencia à civilização ocidental. Pois é... nunca se averiguou em nenhum artigo conhecido, o porquê desta intrigante conclusão.

O que eu pretendo mostrar é que o conservadorismo brasileiro não tem explicações teóricas para essa obviedade que tomou como zombaria.

No livro “O que você deve ler para não ser um idiota”, Olavo de Carvalho apresenta uma coletânea de autores que serviram de inspiração intelectual para suas ideias, com um princípio organizador inaceitável: o livro não tem índice de autores, e quero crer que isto não tenha sido um lapso de Felipe Moura Brasil que o organizou, porém uma intenção óbvia de não mostrar as lacunas que podem ser encontradas facilmente em uma lista. Como expliquei em meu ensaio Você é Aquilo que Lê:

“Alguém que tenha lido 1000 livros, acha-se no devido direito de recomendar a seus leitores sobre a importância do que sabe, do que lhe parece o melhor de nossas letras e pensamento, e chamar a frivolidade existente de imbecilidade geral. Mas, se no quadro geral da cultura encontramos um conjunto de 4 a 5 mil livros igualmente importantes, e muito além da disponibilidade de leitura do comum dos mortais (pois estou falando apenas da cultura nacional), como afirmar que se conhece “tudo” de mais importante, se todo o dia encontramos autores e livros esquecidos ou desconhecidos de altíssimo conteúdo estético e moral?”

Aqui cabe uma observação entre parênteses. “Os livros e autores esquecidos e mesmo desconhecidos de altíssimo conteúdo estético e moral” são resultado de duas coisas: a primeira, da nossa desordem institucional que dispensa comentários; e a segunda, do fato desses autores não seguirem o mainstream do mundo acadêmico cativo do nacionalismo em frente ampla com o socialismo, e não da conspiração de um segmento ideológico. As pessoas não conspiram contra o pensamento: elas simplesmente desprezam o que não se enquadra em seus esquemas mentais. Este é o meu argumento de retomada do assunto em pauta.

O livro de Olavo-Felipe causa perplexidade pela ausência de livros essenciais ao pensamento brasileiro. Meu propósito não é encher este ensaio com nomes de autores e livros, porém apontar para as mesmas deficiências do resto dos nossos intelectuais com formação exclusivamente no quadro das ciências humanas: são autores que não falam do Brasil profundo, do Brasil que se autodestrói, do país surrealista, jurássico, anticapitalista, alérgico à modernidade, e que consegue levar na parolagem as interpretações bizarras sobre si mesmo. Quem não se aprofundou no tema Brasil, nunca vai perceber que por aqui vingou uma Ciência Jurídica contra a justiça, uma Ciência Econômica contra o desenvolvimento, uma Ecologia contra o ser humano. A crise brasileira é muito mais profunda do que se imagina, e pretender que a abordagem pomposa da realidade seja reveladora de sua essência não ultrapassa o limiar do meio-saber.


Em sucessivos artigos Olavo de Carvalho apresenta uma argumentação totalmente maniqueísta utilizando suas ferramentas críticas para inverter as consequências como causas. Seu pensamento pode ser esboçado da seguinte forma: o mundo evolui pelo pensamento de seus principais intelectuais e pela capacidade destes de influenciar os seguidores de uma corrente de pensamento. Nada existe fora do pensamento dos grandes filósofos. Não existe lugar para a intuição humana, para os sucessivos agregados tecnológicos e para os saltos produzidos pela sociedade – no que se chama espírito da época.

Sabemos que a mudança humana se deve sobretudo a fatores como o comércio, à itinerância do homem no espaço geográfico, à abertura de estradas e meios de transporte, à implantação do serviço de correios, à descoberta da imprensa a partir de Gutenberg, ao desenvolvimento da ciência, ao avanço dos meios de comunicação, à inserção da população à educação escolar, à invenção do rádio, TV e Internet. A tecnologia tem um papel determinante no modo de pensar e se comportar, mas funciona apenas como parte de um agregado. Ortega y Gasset explorou esse tema na passagem do regime absolutista para a liberal democracia. Ocorre que, ignorando o instinto humano, o conservadorismo teocrático reduziu a ação humana à obediência a líderes políticos e intelectuais. Assim sendo, o fenômeno da geração de 68 foi causado pelas obras de Marcuse, como se este não fosse um mau intérprete de seu tempo, porém o teórico que tivesse jogado a juventude no desregramento. Como testemunha daquela época posso dizer que a maioria dos que mencionavam Marcuse não o tinham lido, e pouco interesse demonstravam aos bonzos além das manifestações. Foi a época em que a TV pela primeira vez entrou em cena para influenciar o mundo com as cenas nada edificantes da guerra do Vietnã. Mas isso não conta. O que importa para os neocons sãos os livros de Marcuse.

Este mesmo método bookish ocorre na construção intelectual do gramscismo. Não se trata de que o instinto socialista consista em buscar abrigo no aparelho de estado porque à revelia de Gramsci, o PC já entendia que era preciso dominar o aparelho estatal para preparar o terreno para a virada ao socialismo. Qualquer grupo sedicioso sabe que para tomar o poder precisa dominar o aparelho de estado. Prestes, depois de ter sido torturado por Getúlio, manteve firme seu apoio ao ditador no pós-45 exatamente porque este abrira as porteiras do estado para um número espetacular de novos funcionários, entre os quais seus militantes. A partir desta acomodação de quadros, o PC passou a ser influente no Rio de forma permanente. Porém, segundo os neocons, o socialismo não nasce das oportunidades criadas na realidade social, mas surge da pena de seus teóricos.

O mesmo vale para o próprio socialismo. Para os conservadores, o socialismo existe através de seus autores que foram os inventores e não produto da evolução histórica da humanidade. Uma análise mais aprofundada revela claramente que o socialismo nasceu do casamento do cristianismo com o romantismo. O nascimento ocorre no século XIX, mas tem seus precedentes dentro da Igreja na Contrarreforma do século XVI, como na rebeldia de Thomas Müntzer contra a ordem papal e sua aventura insurrecional para a destruição das classes sociais em seu tempo. Foi o primeiro comunista de nossa Era que organizou seus paroquianos para uma insurreição armada objetivando a sociedade sem classes. Não surpreende que ele tenha tomado inspiração nos evangelhos.

A prova de que o romantismo está presente no socialismo é fácil de verificar. Não é necessário esforço mental para entender que o coitadismo foi a principal alavanca ideológica da ascensão do petismo.

Porém, onde entra a Contrarreforma na construção do socialismo? A pervasiva noção de que cabe ao estado tudo prover para a realização do bem comum leva à corrupção dos sentimentos cristãos. Assim, a solidariedade não é devida aos seres humanos, mas a uma ação do estado. A compaixão não é uma obrigação moral dos indivíduos bem situados para com os desvalidos, mas um dever do estado. A caridade não é um ato individual de ajuda dos que possuem para os necessitados, porém uma obrigação do governo. Quando a pobreza é muito grande, e resultado direto do açambarcamento da espontaneidade social pela burocracia paralisante, a solidariedade se torna infrutífera dada a quantidade imensa de necessitados, e a razão humana não tem outro recurso senão apelar para um sistema social que coloque os pobres na tutela do estado, e isto não é nada mais do que o socialismo da teologia da libertação. Portanto, a fusão do cristianismo com o romantismo, ancorada nos valores da Contrarreforma, produziu a bagagem cultural de um estado centralizador e onipresente, que continuará a ser a raiz vivificadora do socialismo, a menos que se reduza substancialmente o tamanho do estado por um processo progressivo ainda não esclarecido, exatamente pela pobreza do debate.

Mas, se o conservadorismo teocrático não toca sequer tangencialmente na realidade do estatismo, dos privilégios de castas, de um estado voltado para o benefício de suas corporações, que legado pode deixar para a cultura brasileira? Como pode um pensamento ignorar as similaridades entre as oligarquias estatais e a nomenklatura? Para que serve um pensamento que não reconhece que os melhores postos de trabalho e a melhor proteção previdenciária (esta um verdadeiro apartheid), a cultura da malandragem e da transigência com os padrões morais estão no aparelho estatal!? Como pode um povo rejeitar o socialismo, se a elite estatal é e sempre foi um simulacro do socialismo!? O que dizer do espírito de um povo, quando frente a uma vaga mais banal no serviço público, milhares de pessoas se perfilam para competir pelo direito de entrada no paraíso!? Que tipo de moralidade pretende difundir o pensamento conservador teocrático se ele nega a importância de um estado em que grande parte de seus funcionários fingem que trabalham como se conhecia na antiga União Soviética!? Que lições morais se pode difundir em meio a professores que se fazem de incapacitados, servidores que se aposentam precocemente sob o disfarce de doenças contraídas, acidentes de trabalho, outros que conseguem 3 ou 4 empregos simultâneos, e assim por diante?

Não encontrando eco do verdadeiro Brasil, o que se nota é um tom desesperador de constatar que o avanço das esquerdas tem sido obra de um espírito implacável de militantes no sentido de ocuparem todos os espaços do poder... graças à teoria de Gramsci! Não sobra nada para avaliar a boa conduta dos militares em prol do socialismo, ao criarem duzentas estatais em seus vinte anos de regime. Como se não fosse esta a principal causa do fracasso do regime e da inflação de seis dígitos dos anos 80.

Não se entende neste pensamento a completa ausência de atenção para o fato de nossa bagagem cultural atávica estar enraizada no imaginário popular como o governo capaz de resolver todas as coisas, que a intervenção estatal representa nossa salvação, e que, mais do que isso, basta termos um governo bom para que as coisas funcionem perfeitamente.


Os neocons não compreendem que quem ofereça os melhores empregos, quem compactua com a lassidão contra a disciplina, quem transija em matéria de moralidade, quem deboche da probidade, não possa ser um alicerce praticamente indestrutível da cultura nacional da malandragem, do espírito zombeteiro e da mistificação mentirosa. Não se pode falar em estatismo sem mencionar a carga monstruosa de tutelagem legisferante que se impõe ano após ano ao brasileiro como dever do Estado. Quem conhece as relações de poder em Cuba, especialmente das castas sociais, não tem absolutamente nenhuma dúvida que nosso sistema social, independentemente do petismo, já é um socialismo disfarçado. Levando em consideração a opinião do celebrado Bertrand de Jouvenel de que o avanço do socialismo corresponde ao crescimento do estado, e a constatação do historiador Jorge Caldeira de que, na proclamação da República o estado constituía 3% do PIB, passando a 6% sob Getúlio, para avançar a 20% no regime militar e hoje estar beirando os 50%, pode-se dizer que o socialismo vem crescendo até mesmo pelas mãos de seus inimigos.

Deste caldo de confusão intelectual brotou o manancial de um conservadorismo postiço nas redes sociais que prega incansavelmente a intervenção militar batendo no peito como se fosse a verdadeira vertente conservadora, sem que se encontre um só autor em 250 anos de ciência política que associe o conservadorismo com a defesa de um governo arbitrário. Mas, no Brasil do vale tudo, fizeram um rodopio assombroso no conhecimento e passaram a defender o golpe como salvação da moralidade. Como se o apaziguamento dos escândalos escolares por si só fosse capaz de nos reconstituir como nação próspera e livre.

No quarto volume da História da Inteligência Brasileira, Wilson Martins, analisando os textos do primeiro dirigente do movimento conservador, Jackson de Figueiredo, do recém criado Centro Dom Vital no final dos anos 20, afirmou que o inimigo do conservadorismo católico era muito mais o liberalismo que o socialismo. Ele se referia ao conhecimento do Syllabus, e do impacto que a democracia do Império causou à Igreja Católica. Martins demonstra que no descortinar da ascensão do fascismo, seus líderes ingressaram no Integralismo, pois culpavam o liberalismo pela anarquia constante de nossa primeira República. Esta opinião permanece em nossos tempos como um relicário dos autores que conhecem nossa realidade com a canga das ideologias prête-a-porter.

Todos sabem que o socialismo se fortaleceu a partir do desenvolvimento de sentimentos niilistas na sociedade. No final do século XIX, as advertências de Nietzsche, e depois de Gustave Le Bon confirmaram que a democracia estava em perigo ao permitir o desenvolvimento de sentimentos negativos tais que seriam motivadores da destruição do Ocidente se portadores de líderes que assumissem o poder. O século XX foi o laboratório do niilismo expresso no socialismo, no fascismo e no nazismo. O niilismo latino-americano, nunca foi (e talvez nunca será) suficientemente analisado e conhecido. Está na raiz da conduta do negativismo praticado pela burocracia estatal, na desconfiança do estado com a sociedade e de sua compulsão por regulação, na negação do indivíduo como ser social livre e responsável, e na exclusão social pela pilhagem racionalizada do estado em dispositivos legais. Se verifica nas crises populistas recorrentes, na política expressa como o desejo do bem e contra a legitimidade da riqueza, e na moral do estatismo.

Se a sociedade está socializada como tal, o que se pode esperar do mundo institucional e acadêmico senão a servidão ao socialismo?


O fator mais relevante da negatividade do homem enquanto agente produtor se encontra no ambientalismo que, no Brasil, trata-se de uma variante do coitadismo aplicado à natureza e aos animais. O ambientalismo brasileiro foi o criatório de aberrações incontáveis sobre a proteção à natureza e sobre a relação entre a vida humana e o meio ambiente. Quando nos anos 90, a duplicação da rodovia Regis Bitencourt foi interrompida na altura da cidade de Registro, por um ano, pelo fato de uma equipe de inspeção ter descoberto um ninho de araras junto a uma pedreira – que inevitavelmente seria dinamitada para a obtenção de brita necessária à continuidade das obras – , revelou que estava em andamento uma doença moral nos órgãos ambientais capaz de priorizar um ninho de pássaros em uma rodovia que causava 2 mil mortes anuais.

O que se segue é um acúmulo de imposturas, mentiras sistemáticas e a consolidação de um pensamento contra a livre iniciativa e o desenvolvimento econômico. A última besteira que ouvi de um biólogo no sul da Bahia é que um pé de eucalipto consome 420 litros de água por dia, produzindo portanto consequências nefastas para o entorno vegetal. Levando a afirmação para os cálculos, isto significa que, para um cilindro de 30 cm de diâmetro (a forma geométrica mais próxima do tronco de uma árvore), representa uma altura de quase 6 metros de água. Se o pé de eucalipto absorvesse 420 litros em um dia, ele teria que exsudar na mesma proporção, e podemos imaginar o que aconteceria se não o fizesse. Uma plantação com 100 mil pés seria abastecida por um rio que servisse à extraordinária sucção de suas raízes. Evidentemente que os biólogos não têm noção de geometria, mas o mais surpreendente foi descobrir que este argumento foi desenvolvido nos Estados Unidos. Provavelmente nos gabinetes da pseudo-ciência onde se fatura alto alardeando o aquecimento global.

Não perceber que o subdesenvolvimento brasileiro se encontra dentro dos modos e procedimentos da moral do bem-comum é simplesmente deletar o arquivo mais importante de nossa personalidade social. Todo o arcabouço ministerial do país está voltado para os freios exercidos em nome do bem-comum. Para plantar certas culturas, o Ministério da Agricultura exige sementes aprovadas e mudas certificadas. A política dos transgênicos dos anos 90, que nos EUA foi considerada apenas um upgrade científico, deveria servir para se escrever teses sobre nossos temores e síndromes do Armagedon. Um simples telefone importado da China necessita de um selo da Anatel comprovando compatibilidade com nossos padrões porque só o governo pode dizer o que é compatível com nossa realidade. Agora o mesmo voltou a ocorrer com as lâmpadas led. O mercado não pode fazer nada disso.

O desejo do bem, cuja matriz mais insana está na raiz do socialismo, se expandiu aterradoramente nas políticas estatais. O desejo do bem informa a política indigenista, a proteção às mulheres e minorias, a demarcação de terras para índios e quilombolas, e necessidade de se fazer compensações ambientais bilionárias para salvar espécies sempre invocadas com o argumento vigarista da ameaça de extinção. Planos de energias alternativas se chocam com o perigo de extermínio de populações de aves migratórias por hélices das torres de energia eólica. É preciso proteger as aves que praticam voo noturno, e para isso o remédio é simples: prejudicar os seres humanos, produzindo o cipoal de leis de onde emana a corrupção.

Desde a fundação da ecologia, creio que nos anos 70, nenhuma ciência nova atendeu à servidão humana de forma mais sufocante do que a proteção ambiental. Nenhuma ideologia em qualquer tempo foi tão fecunda para justificar a intromissão do estado na propriedade privada com o salvo-conduto moral de punir e até mesmo confiscar em nome do meio ambiente . No ambientalismo se encontra a maior densidade de trapaceiros do globalismo. Criada no ambiente das cátedras de humanismo, onde o rigor científico é desconhecido e a opinião embasada em calamidades intelectuais incensadas, a ideologia de criar narrativas com base puramente no altruísmo humano serviu de suporte para um ambientalismo focado na chantagem de licenciamentos, no suborno de advogados litigantes e na extorsão de empresas.


Constituído por filósofos pensantes, esta categoria que deveria ter desaparecido no século XX por anacronismo com a sociedade high-tec, o conservadorismo nada tem a nos dizer sobre o impulso humano espetacular vivido pelos países asiáticos como saída para o estado deplorável em que se encontravam há trinta ou quarenta anos. Sem as lacunas na mente submetida ao imobilismo ideológico, a anomia, os asiáticos foram capazes de turbinar países liberais e comunistas numa única direção. Se existe alguma esperança humana de superação de seu atraso atávico, os países da margem asiática do Pacífico nos confortam em abundância.

Em incontáveis textos Olavo conduz sua argumentação dentro da estreiteza da razão intelectualista, a qual Paulo Johnson ironizava sarcasticamente. A construção do gramscismo já tem esta natureza de interpretar a realidade não como um legado cultural, porém como um produto da realidade livresca. Se Gramsci não tivesse existido, não haveria o proselitismo político, não haveria infiltração no estado e sequer surgiria a ideia da luta parlamentar como tomada do poder. Não existe a possibilidade de os comunistas, marxistas, trotskistas e quejandos agirem por conta de instintos herdados da cultura centenária do estatismo. Todos eles se submetem ao que foi escrito nos livros e a razão humana não existe em si mesma senão por força do trabalho de monstros intelectuais que colocaram seu saber a serviço da destruição da cultura ocidental. Não existe a percepção histórico-cultural da qual o autor é apenas um intérprete. Tudo se passa no terreno da conspiração. Pela teoria olaviana, francamente difundida em todos os quadrantes das redes sociais, os picaretas que se associam aos projetos culturais do MINC em busca de dinheiro fácil para seus empreendimentos culturais não o fazem por pura vigarice intelectual oportunista. Nada disso. Eles agem movidos pelas determinações da Escola de Frankfurt. Não existe a espontaneidade inerente ao mundo social. Cada qual age movido pelas escritas de teóricos do mal. Elas seguem desígnios determinados pelos grandes mestres do pensamento totalitário. Se um cangaceiro, no mais vil dos sertões, gritar “viva a revolução”, ele não estará falando pelo momento político-cultural do cangaço, mas seguindo as consignas de Trotsky.

O marxismo cultural foi a forma pela qual o fracasso das ciências humanas encontrou para explicar o que não consegue em termos de análise cultural, porque se trata de um modo ecumênico de ver o homem. Ora, as relações entre marxismo e cultura não podem ser reduzidas ao conspiratório. Quem se dedique, por exemplo, a observar a vida cultural italiana do pós-guerra até os anos 90, verá que não se consegue separar o marxismo do liberalismo com facilidade no seio dessa cultura. Existe uma influência tal do liberalismo no socialismo, e vice-versa, que a simples invocação do cinema dos grandes mestres como Pasolini, Dino Risi, Franco Rossi, Mauro Bolognini, Mauro Monicelli, Etore Scola de um lado, e Fellini, De Santis, Pietro Germi, Luigi Zampa, Visconti, Comencini, Rossellini e De Sica de outro, ou das obras de Norberto Bobbio e Primo Levi, já são suficientes para provar que não se pode analisar a realidade sem os tons de cinza de suas variantes, a despeito do maniqueísmo conservador querer reduzi-la ao branco e preto.

A aquarela criada na cultura italiana entre liberalismo e socialismo provém dos valores cristãos, dos arcanos de um povo concebido sob o signo da hierarquia, da preservação da tradição, do orgulho dos antepassados, e do exercício da sociabilidade como resultado natural das comunidades organizadas em arquiteturas centenárias.

Esta imersão no maniqueísmo reduziu a construção do conservadorismo brasileiro a uma caricatura, cada vez mais repudiada por um imenso contingente de seguidores de primeira viagem e logo arrependidos. A destituição do povo de seus traços culturais, em nome de uma mundanidade única, só pode conduzir a posições teocráticas mal disfarçadas no renascimento de um novo totalitarismo.

Este fenômeno não é novo. Gilberto Amado, nos anos 30, em o Espírito de Nosso Tempo já cravava no conservadorismo brasileiro sua aversão à modernidade, chamando de “corrente reacionária cuja reação era contra a ciência e suas aplicações, contra o método experimental, contra o método histórico, contra o século XIX, contra a revolução francesa, contra o liberalismo político, suas consequências e desenvolvimento”. A surpreendente constatação de Gilberto Amado é encontrada em seguidores do Olavo de Carvalho no Facebook, combatendo a ciência e a importância do progresso tecnológico. E isto não foi feito sem organização ideológica, planejamento e recursos postos à disposição. Quem viu na Avenida Paulista os sucessivos carros de som com as faixas “Olavo tem razão”, pode perceber que se tratava de movimento articulado para criar uma corrente de difusão de suas ideias. E quando movimentos como MBL e Vem Pra Rua rejeitaram o assédio submissivo, passaram a ser sistematicamente detratados pela militância sectária olaviana.


O combate ao globalismo não se limita às aberrações de um mundo governado por ONGs não eleitas e com autoridade unilateral para decidir o certo e o errado. Indica um desejo intenso de substitui-lo por uma nova ordem mundial que seja capaz de suprimir a parcela indesejável da população. É por isso mesmo um outro globalismo. O golpe fatal virá com a confissão de repúdio à democracia, como já começa a aparecer em mentes do tipo de Loryel Rocha. Novamente, segundo o gabarito olaviano, a esquerda não é um bloco dividido em um sem número de interpretações que compete pela hegemonia política. Nada disso. Ela se divide para falsificar a democracia aparentando divisões que só existem para causar confusão. Assim, a eleição de um diretório acadêmico em que participam duas ou mais chapas de esquerda, não é feita por razões de diversidade política, porém para dar a impressão de pluralismo democrático. Quando se sabe que a única forma de grupelhos sobreviverem na vida universitária consiste em se apropriar do orçamento de um DA para financiar viagens, manifestações e festas, a visão maniqueísta procura educar as pessoas para a conspiração.

Este método foi denominado de teoria das tesouras, uma subalternidade da teoria da conspiração. Para dividir o pensamento político exclusivamente entre duas correntes, o maniqueísmo trabalha com nós e eles. A virtude está em nós e o vício neles. Mas como explicar que entre o branco e o preto existem outros tons? A solução proposta não tem nada de engenhosa e, no entanto, teve uma capacidade surpreendente de convencimento. Aqueles que são diferentes, o são apenas na fachada. Na verdade, segundo esta teoria, eles conspiram para dar uma falsa impressão de democracia, e assim conseguirem se alternar no poder indefinidamente.

Um exemplo poderoso da teoria das tesouras consiste na suposta aliança dos sociais democratas com os petistas. Não obstante o comportamento desastrado de FHC, cuja herança sociológica uspiana consiste em atribuir importância sociológica a qualquer grupo humano, as declarações dele favoráveis a Lula serviram de comprovação desta teoria. Mas deve-se levar em conta que a autofagia política produzida pelo petismo no cenário partidário não se limitou ao PSDB. Naufragaram partidos como o DEM, e todos os herdeiros “liberais” que se tornaram satélites da máquina de corrupção posta em ação pelo petismo. Entretanto, a insistência contra o PSDB tem a função de abrir espaço para outras forças políticas, agora agrupadas em torno do bolsonarismo.

A teoria das tesouras, como construção intelectual, não resiste a uma análise mais profunda. Historicamente, as maiores contradições nos embates políticos se dão mais entre os semelhantes do que entre os opostos. A socialdemocracia e o marxismo têm um repertório enorme de exemplos a fornecer das contradições entre ambos. Marx insultou Lassale por este socialdemocrata alemão apresentar dados positivos da evolução das condições de trabalho e rendimentos como resultado de sua militância na organização operária das fábricas alemãs do século XIX. Marx queria a revolução e não melhorias. Lênin rejeitou as ideias reformistas de Kautsky e chegou até a escrever um livro de crítica ao “renegado Berstein”, antes da tomada do poder. Depois, como bolchevique, passou a destruir sistematicamente seus antigos aliados mencheviques, anarquistas e social-revolucionários. Mais tarde foi a vez de Stalin acabar com a velha guarda da revolução para assumir o poder vitalício.

As rivalidades entre xiitas e sunitas, seria um disfarce deliberado para atingir os cristãos ou uma realidade da intolerância entre grupos com a mesma origem?

Como poderia ter havido uma aliança secreta entre tucanos e petistas se estes se opuseram sistematicamente a todos os projetos de lei enviada ao Congresso no período FHC? E ao propor diversos pedidos de impeachment de FHC, estariam os petistas simulando uma falsa oposição para depois votar contra o próprio impeachment, já que se tratava de um conluio ardiloso? Se uma corrente intelectual desconhece a atividade parlamentar cotidiana de sucessivas alianças para fins de aprovação de projetos, essa ignorância da essência política da atividade parlamentar não deveria passar despercebida. Pois foi através desta manifestação sectarista que o PT construiu sua própria identidade. Não surpreende pois que o conservadorismo teocrático utilize as mesmas ferramentas.

A fragilidade da teoria da conspiração é que ela só pode ser exercida nos gabinetes de intelectuais. No parlamento, a verdadeira política se articula como arte da negociação. Desta negociação se formam as alianças e os rompimentos que podem ter um caráter conjuntural ou permanente.


Derrotado o socialismo, os ânimos cruzadistas se voltaram para o liberalismo. E Olavo vai atacando em doses homeopáticas, seja insultando o Iluminismo – a base intelectual do liberalismo, seja atacando suas fundações, ao dizer que a liberdade e a propriedade não são elementos suficientes para uma filosofia política. Afirmação tão falsa quanto dizer que o zero e o um não são suficientes para a criação de uma lógica digital.

No seu lugar, Olavo propõe que o tema central, em vez de liberdade e propriedade, seja o direito à vida. Não me ocorre nenhuma construção intelectual que tenha se oposto ao direito à vida em sua plenitude, exceto no caso do aborto. Neste ponto, se o aborto é a questão central, então todas as decorrências devem servir a este princípio, pois se trata de uma questão teológica, uma vez que não cabe à ciência definir o princípio da vida. Assim, o conservadorismo se baseia em um princípio teocrático, qual seja, de que a fecundação humana já trás em si o princípio da vida espiritual cuja interrupção seria um crime moral contra a sacralidade do ser. E não se trata de uma questão secundária, uma vez que o aborto constitui a questão central na arregimentação dos quadros deste movimento, pois para qualquer instituição moderna de natureza filosófica, o aborto não tem relevância nenhuma na teoria política.

O ataque ao Iluminismo se tornou um traço distintivo entre conservadores e liberais. Baseados em Edmund Burke, que escreveu o célebre “Reflexões Sobre a Revolução na França” ainda no seu início (1791), os neocons viram nesta singular figura um profeta de seu tempo ao antever o destino dos jacobinos e criticar a vida esnobe da intelectualidade parisiense que, segundo ele, teria aberto as portas da revolução. O livro biográfico de Russell Kirk traz informações preciosas sobre o caráter e as opiniões de Burke em toda a sua vida, e sua figura não merece nada menos do que admiração enquanto homem cujas ideias se apagavam com o século, e que trazia em seus fundamentos os valores da Idade Média e da supremacia da religião sobre a ciência, ou da subordinação da natureza à vontade divina – pilares medievais já bombardeados em seu tempo, e que viriam a ser suprimidos no século seguinte com a virada espetacular das instituições para a exploração do conhecimento científico, um rosário sem fim de conquistas que nos colocou em um patamar completamente diferente de tudo o que se conhece do passado humano.

No entanto, existe uma exploração duvidosa a respeito do apoio de Burke à revolução americana que antecede em uma década a francesa, pois, como sabemos, os revolucionários americanos apoiaram abertamente os jacobinos franceses, em discursos e ações. Como observou Laurentino Gomes no livro 1822: “Jefferson, que também vivera em Paris na época da Revolução Francesa, se deixou seduzir pelo ardor revolucionário e, durante algum tempo, acreditou sinceramente que o regime de terror e as milhares de execuções na guilhotina eram aceitáveis em nome do avanço das novas ideias políticas. 'A árvore da liberdade precisa ser irrigada de tempo em tempo pelo sangue de patriotas e tiranos', afirmou ao justificar os excessos dos revolucionários franceses. 'É a sua forma natural de crescer'. Evidentemente, Kirk tratou de ocultar essa passagem politicamente incorreta ao conservadorismo para não cair na cilada óbvia de que qualquer revolução armada tem seu período de jacobinismo, e a revolução americana não poderia ser diferente. Laurentino afirma que os 25 mil mortos na revolução americana comprovam por si só que não se tratou de uma simples declaração de independência no “City Hall”, ultrapassando em muito os 5 mil guilhotinados no período do terror parisiense.


Para os neocons brasileiros, não são os intelectuais os tradutores dos sentimentos que vão se acumulando dentro de uma cultura. Eles não falam movidos por aspirações de seu tempo. Ao contrário, os intelectuais são os que determinam o que o povo seguirá de suas penas por razões de seu intelecto e suas opções morais. Para eles, o malandro brasileiro existe porque foi dissecado por Roberto da Matta, criado nos contos de João Antonio, Mario de Andrade e na formidável escrita literária de Os Trilhos de João Felício dos Santos. Por esta ótica, se tais obras não fossem escritas, o malandro não existiria.

Sem entender esta inversão não se entende o conservadorismo, pois se trata de um pensamento totalmente bookish, isto é, fundamentado em leituras, sem vinculação com os fatos sociais intercorrentes, a menos que os fatos sirvam para legitimar a teoria. Se os fatos negam a teoria, são postos de lado. Agem tal como nossos historiadores de porta de palácio, que dedicados a esmiuçar ocorrências no âmbito dos gabinetes governamentais, são completamente incapazes de perceber os sentimentos da sociedade em seu tempo e as mudanças produzidas no cotidiano das aglomerações.

O mesmo acontece com Burke. Em Burke não se lê uma só observação sobre a realidade social da França que explique por quê as coisas aconteceram, como os ressentimentos, os privilégios, as humilhações, os confiscos de propriedades, as mudanças lentamente introduzidas pela monarquia, que vão enfraquecendo o poder real através do centralismo usurpador da vida comunal. Neste ponto, os neocons leem o passado como se o princípio de “liberdade e propriedade” tivesse nascido da cabeça de agitadores e não da tirania e usurpação dos regimes absolutistas.

A resposta a Burke veio de Tocqueville 60 anos depois, que não só analisou magistralmente centenas de documentos, como respondeu a Burke em 5 ou 6 vezes em “O Antigo Regime e a Revolução”. São obras diametralmente opostas, mas quem as ler em sequência não pode deixar de dar razão a Tocqueville contra Burke.

Nas rivalidades intereuropeias, criticar o mundo francês pelo deslumbramento produzido por suas artes e patrocínios, tal como fez Burke ao falar do oba-oba parisiense ao tempo de Voltaire, esconde o ciumes das nações que se preparavam para liderar o mundo economicamente, mas não o conseguiram emocionar os outros povos com o mesmo entusiasmo francês. Esta observação serve também para a China, cujo magnífico crescimento econômico até agora não nos ofereceu culturalmente nada que se compare ao encantamento do cinema de Hollywood, e à abundância do jazz na era de ouro dos EUA. A França, desde a universidade do século XII sempre se ufanou de sua própria cultura. Quem conhece Proust e a agitação febril da Bele Epóque, até a espetacular virada artística da avant-garde do início do século XX, sabe que o deslumbramento autorreferenciado da mundanidade parisiense sempre foi um componente intrínseco ao caráter francês, já existente antes da revolução.

As aberrações contra o Iluminismo surgem desta mistificação sorrateira em defesa da ordem teocrática, cujas origens e refutações foram tão bem descritas por Franco Venturi – um especialista no “setecento” –, em “Utopia e Reforma no Iluminismo”.

O mesmo pensamento curioso se aplica a Rousseau, a quem se atribui a danação que iria alimentar a revolução francesa e dar origem ao socialismo. Não se trata de situar Rousseau como intérprete dos sentimentos de seu tempo e nem de entender que o romantismo seja uma decorrência da luta setecentesca contra a tirania. Soljenitzine advertiu para o fato de sua experiência no Gulag ter permitido observar que os seres humanos submetidos a maus tratos tendem ao sentimentalismo. E mais, Soljenitzine lamenta que na Rússia não tenha havido um período jacobino depois da morte de Stalin: “como pode – escreveu ele – esperar que as coisas mudem quando após a morte de Stalin apenas 15 pessoas de seu círculo íntimo foram eliminadas, quando na derrota da Alemanha 85 mil pessoas foram capturadas e julgadas por pertencerem ao círculo nazista?”

Onde quer que haja opressão haverá um sentimento de esperança difuso, uma aspiração por um futuro capaz de fazer de todos os seres humanos uma só família livre dos abusos, da privação e da escassez. Foram a tirania e o descontentamento, ao mesmo tempo em que se proliferavam a imprensa e as informações, que criaram o romantismo.

O papel atribuído a Rousseau é o de um subversivo disposto a acabar com o estado absolutista, e burkeanemente, com a religião e a fé. Com isso, se quer justificar a lógica de que eliminando as obras, e talvez colocando na fogueira seus autores, a humanidade se livraria de seus pesadelos, seja por insinuação, seja por conclusão lógica, mergulhando o mundo em um novo estado teocrático de moral única. Somente um comissário cubano poderia anuir com este raciocínio.

Ora, segundo nos conta Paul Johnson, Rousseau abominava o ritmo gradual do Iluminismo. Ele queria uma solução mais radical. Não deveria, por isso, ser colocado na sarjeta do Iluminismo?

Uma cultura é constituída por uma mente coletiva, composta por um agregado inumerável de hábitos, reações, preferências, arquétipos, recorrências mentais, valores cotidianos, formando uma psicologia própria, aspirações e visões pessoais da pobreza e riqueza, da acumulação e consumo, de estilos de vida, enfim, que só são entendidos quando o povo tiver uma literatura tão ampla e amadurecida que todas as idiossincrasias são encontradas borbulhando pela pena de seus melhores autores. E esta literatura só é importante porque não sugere nenhuma ação coletiva, não inspira movimentos, não pretende salvar o mundo.

O calcanhar de Aquiles do conservadorismo olaviano consiste em ignorar tudo isso seguindo o ecumenismo católico. O mundo católico nunca abordou os povos por suas diferenças culturais específicas, porque se trata da difusão dos evangelhos e da propagação da fé junto com sua hierarquia de submissão à ordem autocrática e à autoridade espiritual. No passado, os desentendimentos motivados pela inadequação da ortodoxia romana à interpretação leiga dos evangelhos, custaram alguns séculos de opressão e guerras religiosas. Somente quem conhece os trabalhos pioneiros de Henry Charles Lea e de Alexandre Herculano no século XIX, e a extensa bibliografia sobre a Inquisição – tão zelosamente preservada em Israel, incluindo a fantástica obra de Benzion Netanyahu sobre a Inquisição Espanhola, sabe que a negação da Inquisição pelo movimento olavista não só desvaloriza sua obra crítica, como a torna inaceitável. Negar a existência daquilo que tem sido um campo de investigação tão fecundo na história humana, revela que não se trata da visão de um intelectual independente, mas de um pensador engajado em movimentos teocráticos globalistas. Não faz sentido um movimento criticar tão asperamente a teologia da libertação e negar estas manifestações avant-la-lettre durante 600 anos.

O conservadorismo teocrático sempre esteve presente nos EUA. Hoje, sua principal fonte de irradiação está nos testemunhos do fundador da Prager University, que repete – tal como um evangelista – o dogma de que a origem da moral está em Deus, revivendo Burke, e com isso se perfilando – ainda que não confesso – , à corrente criacionista, uma vez que se trata de uma recusa em aceitar que o evolucionismo seja, ao mesmo tempo, uma explicação lógica para a formação da espécie humana, e a origem da moral um patrimônio do desenvolvimento da própria razão empírica na evolução e constituição do homem no percurso traçado por Matt Ridley em “O Otimista Racional”.

Se a base moral da espécie humana pode ser resumida nos Dez Mandamentos, certamente eles não foram inspirados em um Abraão sábio e todo-poderoso, porém o resultado da experiência humana na terra.


A razão maniqueísta se manifesta no treinamento mental para a dualidade. O Bem não se torna reconhecido pelo conjunto de ideias abstratas, porém personificado por um indivíduo que pode ser um líder político, ou um grande pensador.

Para um intelectual autêntico, não existe o indivíduo síntese do pensamento. Em sua cabeça o pensamento se articula como uma pluralidade do conhecimento. Para o maniqueísta, o indivíduo é tudo: ele representa a figura adorada capaz de dizer a verdade pelo atesouramento do repertório da sabedoria, reconfortar seus seguidores da dúvida, e indicar o certo e o errado. Trata-se de uma figura tutelar que se encaixa perfeitamente na cultura paternalista. Os seguidores transferem ao mestre suas dúvidas e temores, e ele os brinda com sua palavra de incontestável verdade.

Um dos aspectos não menos importantes do maniqueísmo consiste em substituir as consequências pelas causas. Assim, o “comunismo é mau porque matou milhões de pessoas e seus agentes sabiam que só iriam conquistar o poder matando a todos os adversários impiedosamente”. As consequências foram a pretensão voluntária de matar por um instinto assassino e não por uma realidade política construída para a luta armada e depois para a monopolização do poder em nome de um chefe. Quem conhece a guerra civil na Rússia de 17 a 22 e a destruição do núcleo pluralista de Sierra Maestra sabe que nenhuma revolução teria sido possível se tais intenções não fossem justamente o contrário: a construção de uma nova sociedade de liberdade, de eliminação da pobreza, de atendimento de todas as necessidades, e de dignidade que os oprimidos nunca tiveram. Sem estas premissas jamais haveria a possibilidade de uma revolução socialista.

No entanto, o maniqueísmo criou o Decálogo de Lênin algo que está para o marxismo assim como o Protocolo dos Sábios de Sião está para o sionismo. O decálogo trata de dez questões fundamentais para a preparação da tomada do poder pelo comunismo. Recomendo aos leitores investigarem na Internet. O que se pretende argumentar aqui não é a essência do decálogo, mas a inexistência dos fundamentos aliciadores da ideia socialista que sempre foram o desejo do bem. Não se encontra nenhuma referência a qualquer dos temas do decálogo nas obras de Lênin. Ao contrário, o leitor perplexo fica se perguntando se não pretendem construir outro totalitarismo novinho em folha com um repertório teórico de artigos de combate exatamente aos efeitos dos totalitarismos passados.

O maniqueísmo, não podendo explicar os fenômenos como originados na cultura, na ancestralidade, não tem nada a dizer sobre o nossos valores ibéricos, e termina radicando toda sua energia na teoria da conspiração – única forma de preencher o vácuo da mente inelástica.

Assim, os homens não agem movidos por ímpetos atávicos de uma cultura paternalista, porém pelo engajamento consciente nas forças malignas do Universo. Dividem os homens pelo caráter, como se este não fosse a condensação de toda a experiência social da mente coletiva de uma época. São os fatos presentes na mente coletiva que explicam ademais as diferenças entre o comunismo chinês e o cubano. Muita coisa poderia ser escrita comparando a agitação febril do modelo chinês com o travamento doentio do modelo cubano. Mas onde estão os instrumentos teóricos do pensamento conservador para lidar com essas realidades cujos princípios estão no budismo versus catolicismo ibérico, o mesmo da Teoria da Libertação?

Sem noção do que seja ciência teórica, mas rodeadas de gadgets de última geração, as pessoas podem ser enganadas com algum esforço, se a diferença entre o mundo medieval e o moderno se limitar aos palácios da nobreza, às catedrais góticas e ao virtuosismo artístico de muitas gerações. Mas, nada fez mais pelo homem nos últimos duzentos anos do que o rompimento com o pensamento teológico imiscuído na compreensão da natureza, permitindo que as ciências naturais aflorassem de forma independente da religião, que por sua vez turbinou um inter-relacionamento do conhecimento tal que o edifício tecnológico não tem precedentes na experiência humana acumulada em todos os séculos anteriores ao capitalismo. Em consequência, o Ocidente pode invocar superioridade por ter sido o berçário da ciência e tecnologia adquiridas no lento processo de combate contras as forças da superstição, da obtusidade mental e do preconceito. O revisionismo que pretende enaltecer a Idade Média, procura borrar das consciências o fato de que se vivia sob o regime da escravidão consentida e da tortura legalizada. Que todo o autocrata tenha uma nostalgia pelo incenso das catedrais, pelos cânticos corais, pela tranquilidade da submissão à autoridade espiritual contra a angústia da responsabilidade individual como ser livre, comprova que estas ideias somente ficarão latentes enquanto a crise da democracia continuar anacronicamente no novo milênio.

A negação da democracia provém do entendimento equivocado de sua natureza, de seu potencial de acreditar na diversidade de opiniões como construtora do conhecimento, e este de moldar o homem para novos meios de vida.

Ao viver tantos anos nos EUA, e não escrever um único artigo comparativo entre a essência normativa da democracia americana com o nosso burocratismo ridículo, Olavo de Carvalho comprova que seu pensamento não só diverge da democracia, como procura ocultar sua superioridade enquanto sistema social.

A razão é bastante banal: entre os brasileiros deste início de século, o sentimento predominante de democracia como ordem social foi substituído pela anarquia, disjunção social e desordem permanente, algo que já está presente desde o alvorecer da República. Não entender que nossa democracia sempre foi uma demopatia, leva à impotência intelectual para entender as nossas misérias culturais e espirituais.

Concluindo, o conservadorismo teocrático faz oposição velada ao capitalismo, mas não consegue esconder o ultraje contra a civilização. Filósofos, cuja presença no mundo não representa outra coisa senão a de atrapalhar o caminho do progresso científico e moral do homem, voltam-se para o passado medieval para glorificar seus costumes, mas não renunciam a uma aspirina na primeira cefaleia, e nem aos tediosos hangouts pela Internet. São a contrapartida da esquerda caviar no mundo do conservadorismo teocrático. Dedicam-se a desrespeitar a civilização; vivem do mundo livresco “d'além mar”, e conseguem aliciar as pobres almas à procura de uma âncora em um país estraçalhado pelas forças que resistem a todo o custo entrar na modernidade em pleno século XXI.


11 de novembro de 2017

Por Que Não Sou Um Conservador

Friedrich A. Hayek

Do livro Os Fundamentos da Liberdade.

“Em todos os tempos sempre foram raros os verdadeiros amigos da liberdade, e os triunfos desta se deveram a minorias que prevaleceram associando-se a grupos cujos objetivos frequentemente diferiam dos seus; e essa associação, que é sempre perigosa, algumas vezes se revelou desastrosa, ao propiciar aos adversários justos motivos de oposição.”

LORD ACTON


1. Conservadorismo Não Oferece Nenhum Objetivo Alternativo

Numa época em que a maioria dos movimentos considerados progressistas advoga uma invasão ainda maior da esfera da liberdade individual, aqueles que prezam a liberdade tendem a resistir a essa invasão com todas as suas energias. Ao fazê-lo, geralmente se encontram lado a lado com os que costumam resistir às mudanças. Em questões de política corrente, eles praticamente não têm outra escolha, hoje, senão apoiar os partidos conservadores. Contudo, embora a posição que tentei definir também seja muitas vezes tida como “conservadora”, é bem diferente daquela à qual tradicionalmente se costuma atribuir o termo.

Uma situação em que os defensores da liberdade se unem aos verdadeiros conservadores na oposição comum a mudanças que ameaçam igualmente seus ideais diferentes é muito perigosa. Por essa razão, é importante distinguir claramente a posição que tomamos aqui daquela que sempre foi conhecida – talvez com maior propriedade – como conservadora.

O verdadeiro conservadorismo é uma atitude legítima, provavelmente necessária, e com certeza bastante difundida, de oposição a mudanças drásticas. Desde a Revolução Francesa, representa um papel importante na política europeia. Até o surgimento do socialismo, o oposto do conservadorismo era o liberalismo. Este conflito não encontra equivalente na história dos Estados Unidos da América, porquanto o que na Europa se chamava “liberalismo” aqui representava a tradição comum, sobre a qual fora constituído o Estado americano: assim, o defensor da tradição americana era um liberal no sentido europeu.


A confusão piorou com a recente tentativa de transplantar para a América o tipo europeu de conservadorismo, que, por ser alheio à tradição americana, assumiu caráter de certo modo singular. E, além disso, os radicais e socialistas americanos já haviam começado a se denominar “liberais”. Não obstante, continuarei, por enquanto, a chamar de liberal a posição que defendo e que, acredito, difere tanto do verdadeiro conservadorismo quanto do socialismo. Contudo, devo esclarecer, desde já, que o faço com crescente apreensão e que mais tarde terei de considerar qual seria a denominação mais adequada para o partido da liberdade. Isto decorre não apenas de o termo “liberal” nos Estados Unidos ser, hoje, causa de constantes equívocos, como também de, na Europa, o tipo predominante de liberalismo racionalista há muito tempo abrir caminho para o socialismo.


Direi agora o que considero a objeção decisiva ao verdadeiro conservadorismo: por sua própria natureza, o conservadorismo não pode oferecer uma alternativa ao caminho que estamos seguindo. Por resistir às tendências atuais poderá frear desdobramentos indesejáveis, mas, como não indica outro caminho, não pode impedir sua evolução. Por esta razão, o destino do conservadorismo tem sido invariavelmente deixar-se arrastar por um caminho que não escolheu.

A luta pela supremacia entre conservadores e progressistas só afeta o ritmo, não o rumo dos acontecimentos contemporâneos, mas, embora seja necessário “frear o curso do progresso”, pessoalmente não posso limitar-me a ajudar a puxar o freio. Antes de mais nada, os liberais devem perguntar não a que velocidade estamos avançando, nem até onde iremos, mas para onde iremos. De fato, o liberal difere muito mais do coletivista radical dos nossos dias do que o conservador. Enquanto este geralmente representa uma versão moderada dos preconceitos de seu tempo, o liberal dos nossos dias deve opor-se, de maneira muito mais positiva, a alguns dos conceitos básicos que a maioria dos conservadores compartilha com os socialistas.

2. A Relação Triangular dos Partidos

O quadro geralmente apresentado da posição relativa dos três partidos contribui muito mais para confundir do que para esclarecer suas verdadeiras relações. Habitualmente a representação é a de posições diferentes numa linha imaginária, com os socialistas à esquerda, os conservadores à direita e os liberais mais ou menos ao centro. Nada mais errôneo. Se utilizássemos um diagrama, a figura mais apropriada seria a de um triângulo, com os conservadores ocupando um ângulo, os socialistas puxando para o segundo e os liberais para o terceiro. Contudo, como os socialistas há muito tempo exercem maior pressão, o que ocorreu foi que os conservadores tenderam a ser arrastados pelo polo socialista mais que pelo polo liberal e, sempre que lhes convinha, adotaram as ideias que a propaganda radical fazia parecer respeitáveis. Comumente foram os conservadores que fizeram mais concessões ao socialismo, chegando mesmo a empunhar suas bandeiras. Defensores da política de centro, e desprovidos de objetivos próprios, os conservadores sempre se pautaram pelo princípio de que a verdade está entre os extremos – e consequentemente mudam sua posição toda vez que um movimento mais radical surge em qualquer um dos lados.

A posição que em determinada época podemos definir corretamente como conservadora depende, portanto, do rumo das tendências existentes no momento. Como, nessas últimas décadas, a evolução tem seguido em geral o rumo do socialismo, pode parecer que tanto conservadores quanto liberais se tenham preocupado basicamente em freá-la. Contudo, a verdade é que, fundamentalmente, o liberalismo quer tomar outro caminho, e não permanecer parado. Embora hoje possa, às vezes, subsistir a impressão contrária, porque houve uma época em que o liberalismo era mais amplamente aceito e alguns de seus objetivos estavam mais próximos de ser alcançados, nunca foi uma doutrina retrógrada. Jamais existiu período em que os ideais liberais tivessem encontrado sua realização plena e em que o liberalismo não esperasse um aperfeiçoamento ainda maior das instituições. O liberalismo não é contrário à evolução e à mudança; e,nos casos em que transformações espontâneas são asfixiadas pelo controle governamental, advoga profundas reformas na política de governo. No que diz respeito à maioria das atividades governamentais, no mundo de hoje, os liberais não têm por que preservar a situação como está. Na verdade, o liberal acredita que o mais urgente e necessário em quase todo o mundo seja a eliminação completa dos obstáculos à evolução espontânea.

O fato de nos Estados Unidos ainda ser possível defender a liberdade individual defendendo as instituições mais antigas não nos deve impedir de perceber a diferença entre liberalismo e conservadorismo. Para o liberal estas instituições são preciosas não porque existem há muito tempo, ou porque são americanas, mas porque correspondem aos ideais que tanto preza.

3. A Diferença Básica entre Conservadorismo e Liberalismo

Antes de considerar os pontos principais nos quais a atitude liberal se opõe de maneira definitiva à atitude conservadora, devo salientar que os liberais poderiam ter aprendido e se beneficiado muito com as obras de alguns pensadores conservadores. Devemos ao seu dedicado e reverente estudo do valor de algumas instituições análises profundas (pelo menos fora da área econômica), que constituem verdadeiras contribuições à nossa compreensão de uma sociedade livre. Por mais reacionários que possam ter sido na política homens como Coleridge, Bonald, De Maistre, Justus Mõser ou Donoso Cortês, eles mostraram uma compreensão do significado das instituições que evoluíram espontaneamente, como por exemplo o idioma, o direito, a moral e as convenções, que antecipou as perspectivas científicas modernas, que poderia ter sido útil aos liberais. Mas a admiração dos conservadores pela evolução espontânea geralmente se aplica apenas ao passado. Em geral, falta-lhes a coragem de aceitar as mudanças não planejadas das quais surgirão novos instrumentos da realização humana.


Com isso, chegamos ao primeiro ponto no qual as atitudes liberais e conservadoras diferem radicalmente. Como muitas vezes os escritores conservadores reconheceram, uma das principais características da atitude conservadora é o medo da mudança, uma desconfiança tímida em relação ao novo enquanto tal, ao passo que a posição liberal se baseia na coragem e na confiança, na disposição de permitir que as transformações sigam seu curso, mesmo quando não podemos prever aonde nos levarão. Não haveria por que contestar os conservadores se eles simplesmente não gostassem de mudanças muito rápidas nas instituições e na política de governo; de fato, neste caso, justifica-se o cuidado e o lento progresso.

Mas os conservadores tendem a utilizar os poderes do governo para impedir as mudanças ou limitar seu âmbito àquilo que agrada às mentes mais tímidas. Ao contemplar o futuro, carecem de fé nas forças espontâneas de ajustamento, que levam os liberais a aceitar mudanças sem apreensão, mesmo sem saber como as adaptações necessárias se efetivarão. Com efeito, faz parte da atitude liberal supor que, especialmente no campo econômico, as forças autorreguladoras do mercado de alguma maneira gerarão os necessários ajustamentos às novas condições, embora ninguém possa prever como farão isso no caso particular. Talvez não exista um fator que contribui mais para as pessoas frequentemente se mostrarem relutantes em deixar que o mercado funcione do que sua incapacidade de conceber como, sem controle deliberado, pode surgir o equilíbrio necessário entre a oferta e a procura, entre as importações e as exportações, e assim por diante. O conservador só se sente seguro e satisfeito quando tem a garantia de que alguma sabedoria superior observa e supervisiona as mudanças, somente quando sabe que há uma autoridade encarregada de verificar que elas se deem dentro da “ordem”.


Esse temor em confiar em forças sociais incontroladas está intimamente ligado a duas outras características do conservadorismo: sua paixão pela autoridade e sua falta de compreensão das forças econômicas. Como não confia nem em teorias abstratas nem em princípios gerais, não compreende as forças espontâneas nas quais se baseia uma política de liberdade nem dispõe de bases para formular princípios de política de governo. Para os conservadores, a ordem aparece como o resultado da atenção contínua da autoridade, à qual, para tanto, se deve permitir tomar qualquer medida necessária em circunstâncias específicas, sem que precise ater-se a uma norma rígida.

A aceitação de princípios pressupõe uma compreensão das forças gerais que coordenam as ações humanas na sociedade; porém, é exatamente de tal teoria da sociedade e em especial da teoria do mecanismo econômico que o conservadorismo evidentemente carece. O conservadorismo foi completamente incapaz de elaborar um conceito geral sobre a maneira pela qual a ordem social consegue sustentar-se, e seus modernos defensores, ao tentar construir uma base teórica, quase sempre acabaram apelando quase exclusivamente para autores que se consideravam liberais. Macaulay, Tocqueville, Lord Acton e Lecky certamente se consideravam liberais, e com justiça; e mesmo Edmund Burke permaneceu um Whig da velha guarda até o fim e estremeceria à simples ideia de ser considerado um Tory.

Voltemos, porém, ao assunto principal, que é a característica complacência dos conservadores com os atos da autoridade estabelecida e sua preocupação primordial de que essa autoridade não seja enfraquecida e não de que seu poder seja mantido dentro de certos limites. Isto não se concilia com a preservação da liberdade.

Em termos gerais, poderíamos afirmar que o conservador não se opõe à coerção ou ao poder arbitrário, desde que utilizados para os fins que ele julga válidos. Ele acredita que, se o governo for confiado a homens probos, não deve ser limitado por normas demasiado rígidas. Como se trata de indivíduo essencialmente oportunista e desprovido de princípios, ele espera que os bons e os sábios governem, não meramente pelo exemplo, como todos queremos, mas por uma autoridade a eles conferida e por eles exercida. Como o socialista, o conservador preocupa-se menos com o problema de como deveriam ser limitados os poderes do governo do que com o de quem irá exercê-los; e, como o socialista, também se acha no direito de impor às outras pessoas os valores nos quais acredita.

Quando digo que o conservador carece de princípios, não quero com isso afirmar que ele careça de convicção moral. O conservador típico é, de fato, geralmente um homem de convicções morais muito fortes. O que quero dizer é que ele não tem princípios políticos que lhe permitam promover, junto com pessoas cujos valores morais divergem dos seus, uma ordem política na qual todos possam seguir suas convicções. É o reconhecimento desses princípios que possibilita a coexistência de diferentes sistemas de valores, a qual, por sua vez, permite construir uma sociedade pacífica, com um emprego mínimo da força.

Sua aceitação significa que podemos tolerar muitas situações com as quais não concordamos. Há muitos valores conservadores que me atraem mais do que muitos valores socialistas, porém a importância que um liberal atribui a objetivos específicos não lhe serve de justificativa suficiente para obrigar outros a submeter-se a eles. Não duvido que alguns de meus amigos conservadores ficarão chocados com as “concessões” às opiniões modernas que eu teria feito na Parte III deste livro. Contudo embora possa não gostar, tanto quanto eles, de algumas das medidas mencionadas e até votasse contra elas, não conheço nenhum princípio geral ao qual recorrer para persuadir os que têm opinião diferente de que tais medidas são inaceitáveis na sociedade que eu e eles desejamos. Para conviver com os outros é preciso muito mais do que fidelidade aos nossos objetivos concretos. É necessário um comprometimento intelectual com um tipo de ordem em que, até nas questões que um indivíduo considera fundamentais, os demais têm o direito de buscar objetivos diferentes.

É por esse motivo que para o liberal os ideais morais, bem como os ideais religiosos, não podem ser objeto de coerção, enquanto conservadores e socialistas não reconhecem esses limites. Às vezes, penso que o atributo mais marcante do liberalismo, que o distingue tanto do conservadorismo quanto do socialismo, é a ideia de que convicções morais quanto a questões de conduta, que não interferem diretamente com a esfera individual protegida pela lei, não justificam a coerção dos demais. Isso também pode explicar por que parece muito mais fácil para o socialista arrependido encontrar um novo lar espiritual entre os conservadores do que entre os liberais.

Em última análise, a posição conservadora baseia-se no princípio de que, em qualquer sociedade, há indivíduos reconhecidamente superiores, cujos valores, padrões e posições, sua herança espiritual, precisariam ser protegidos, e que deveriam exercer maior influência nos assuntos públicos do que os demais. Obviamente, o liberal não nega que existam pessoas superiores; ele não é um defensor do igualitarismo. O que ele nega é que qualquer um possa ter a autoridade de decidir quem são essas pessoas superiores. Enquanto os conservadores tendem a defender uma determinada hierarquia estabelecida e pretendem que a autoridade proteja o status daqueles que eles prezam, os liberais acreditam que não haja respeito por valores estabelecidos que justifique o recurso ao privilégio ou ao monopólio ou a qualquer poder coercitivo do Estado para proteger estas pessoas das forças da transformação econômica. Embora o liberal esteja plenamente cônscio do importante papel que as elites culturais e intelectuais representaram no avanço da civilização, também crê que essas elites devem dar provas da capacidade de manter sua posição obedecendo às mesmas normas aplicadas a todos os outros.*

Intimamente ligada a isso é a atitude comum dos conservadores em relação à democracia. Já deixei claro anteriormente que não considero o governo da maioria um fim em si mesmo, mas apenas um meio, ou talvez mesmo a menos nociva das formas de governo existentes. Mas penso que os conservadores enganam a si próprios quando atribuem à democracia todos os males de nosso tempo. O mal maior é o governo ilimitado, e ninguém tem o direito de fazer uso de um poder ilimitado. Os poderes de que a democracia moderna dispõe seriam ainda mais intoleráveis nas mãos de uma pequena elite.

Sem dúvida alguma, foi somente quando o poder passou para as mãos da maioria que se julgou desnecessário continuar limitando o poder do Estado. Nesse sentido, democracia e Estado com poderes ilimitados estão intimamente ligados. Inaceitável não é a democracia, e sim o Estado com poderes ilimitados, e não vejo por que os indivíduos não devam ter o direito de aprender a limitar o âmbito do governo da maioria, bem como o de qualquer outra forma de governo. Seja como for, as vantagens da democracia como método de mudança pacífica e de educação política parecem tão imensas, se comparadas com as de qualquer outro sistema, que não consigo simpatizar com a corrente antidemocrática do conservadorismo. Não é quem governa, mas o grau de poder do governo, que me parece ser o problema essencial.

Está claramente demonstrado na esfera econômica que a oposição dos conservadores a um exagerado controle governamental não constitui uma questão de princípio, mas visa aos objetivos específicos do governo. Os conservadores geralmente se opõem às medidas coletivistas e dirigistas na área industrial e, neste caso, os liberais frequentemente encontrarão neles aliados. Mas, ao mesmo tempo, os conservadores adotam comumente uma atitude protecionista e já, muitas vezes, apoiaram medidas socialistas na agricultura. De fato, embora as restrições hoje feitas à indústria e ao comércio sejam principalmente conseqüência de opiniões socialistas, as restrições igualmente importantes na área da agricultura foram em geral introduzidas pelos conservadores, em época anterior. E, em sua tentativa de desacreditar a livre iniciativa, muitos líderes conservadores rivalizaram com os socialistas.


4. A Fraqueza do Conservadorismo

Já me referi às diferenças entre conservadorismo e liberalismo no campo puramente intelectual; pretendo, porém, retomar o tema porque, nele, a típica atitude do conservadorismo não apenas constitui uma séria fraqueza como também tende a prejudicar qualquer movimento que a ele se alie. Os conservadores instintivamente acreditam que, mais do que qualquer outro fator, são as novas ideias que ocasionam as mudanças. Contudo, corretamente do seu ponto de vista, o conservadorismo teme novas ideias porque não dispõe de princípios próprios para opor a elas; e, por desconfiar da teoria e faltar-lhe imaginação quanto a qualquer conceito que a experiência ainda não tenha comprovado, o conservadorismo nega a si mesmo as armas necessárias à luta das ideias. Ao contrário do liberalismo e sua convicção fundamental no poder das ideias, o conservadorismo pauta seu comportamento pelo conjunto de ideias herdadas em dado momento. E, como realmente não acredita no poder do debate, seu último recurso é, em geral, alegar uma sabedoria superior, fundamentada em uma virtude elevada que ele próprio se atribui. 

Este contraste se manifesta mais claramente nas diferentes atitudes de ambas as tradições em relação ao avanço do conhecimento. Embora o liberal não considere toda mudança um progresso, ele encara o avanço do conhecimento como uma das metas principais do esforço humano e confia em que lhe proporcione uma solução gradual para os problemas e dificuldades que esperamos poder resolver. Sem preferir o novo apenas por ser novo, o liberal está consciente de que é da essência da realização humana produzir o novo; e está preparado para conviver com o novo conhecimento, goste ou não de seus efeitos imediatos.

Pessoalmente, acho que o aspecto mais reprovável da atitude conservadora é sua tendência a rejeitar novos conhecimentos, ainda que bem fundamentados, porque desaprova algumas das consequências que aparentemente decorrem deles – ou, mais francamente, seu obscurantismo. Não nego que os cientistas, como qualquer pessoa, são dados a modismos e excentricidades e que devemos ser cautelosos em aceitar as conclusões às quais os levam suas teorias mais recentes. Mas os motivos de nossa relutância precisam ser racionais e não devem ser condicionados pela consternação que sentimos quando as novas teorias abalam nossas mais caras convicções. Sou pouco paciente com os que se opõem, por exemplo, à teoria da evolução ou às chamadas explicações “mecanicistas” dos fenômenos da vida, simplesmente por causa de algumas consequências morais que, a princípio, parecem decorrer dessas teorias, e ainda menos paciente com os que consideram irreverente e ímpio indagar a respeito de certas questões. Ao recusar-se a enfrentar os fatos, o conservador contribui para enfraquecer sua própria posição. Frequentemente, as conclusões que a mentalidade racionalista tira das novas interpretações científicas de modo algum decorrem delas. Contudo, somente se tomarmos parte da avaliação das consequências das novas descobertas saberemos se elas se adaptam ou não à nossa visão de mundo, e, em caso afirmativo, como se adaptam. Caso se comprove que nossas convicções morais dependem de pressupostos factuais errados, não seria moral defender tais convicções recusando-nos a reconhecer os fatos.

Aliada à desconfiança dos conservadores em relação a tudo que é novo e incomum está sua hostilidade ao internacionalismo e sua tendência a um nacionalismo exagerado. Isto também contribui para enfraquecer sua posição na luta das ideias, e não pode alterar o fato de as concepções que estão modificando nossa civilização não respeitarem fronteiras. Entretanto, a recusa de estudar novas ideias acaba simplesmente privando o indivíduo do poder de opor-se efetivamente a elas quando necessário. A evolução das ideias é um processo universal e somente os que participam ativamente dos debates poderão exercer uma influência significativa. Não é válido argumentar que uma ideia é antiamericana, antibritânica ou antigermânica, tampouco um ideal errôneo ou perverso é melhor somente por ter sido concebido por um de nossos compatriotas.

Muito mais poderia dizer da estreita relação entre conservadorismo e nacionalismo, mas não me deterei na questão porque pode parecer que minha posição me impede de simpatizar com qualquer forma de nacionalismo. Acrescentarei apenas que normalmente é a tendência nacionalista que leva o conservadorismo a se aproximar do coletivismo: é muito pequena a distância que vai entre pensar em termos de “nossa” indústria ou “nossos” recursos e exigir que esse patrimônio nacional seja administrado de acordo com o interesse nacional. Contudo, quanto a este aspecto, o liberalismo do continente europeu derivado da Revolução Francesa praticamente não difere do conservadorismo. Não é necessário dizer que este tipo de nacionalismo é bem diferente do patriotismo e que a aversão ao nacionalismo é plenamente compatível com um profundo respeito pelas tradições nacionais. Porém, o fato de eu preferir e mesmo reverenciar algumas tradições de minha sociedade não precisa obrigar-me a ser hostil a tudo que seja incomum e diferente.

Somente à primeira vista parece paradoxal que o anti-internacionalismo conservador seja tão frequentemente associado ao imperialismo. Na verdade, quanto mais uma pessoa não gosta do que é diferente e julga superiores seus métodos, mais tenderá a considerar sua missão “civilizar” os demais, não pelas relações livres e voluntárias preferidas pelos liberais, mas proporcionando-lhes as graças de um governo eficiente. É significativo que nesse aspecto habitualmente encontremos os conservadores de mãos dadas com os socialistas, contra os liberais, não apenas na Inglaterra, onde os Webb e seus fabianos eram francamente favoráveis ao imperialismo, ou na Alemanha, onde o socialismo de Estado e o expansionismo colonial caminhavam lado a lado e encontravam o apoio do mesmo grupo de “socialistas de cátedra”, mas também nos Estados Unidos, onde, até durante o mandato de Theodore Roosevelt, se observou que “os jingoístas[Nota: nacionalismo exacerbado na forma de uma política externa agressiva. O termo surge no Reino Unido, nos anos 1870] e os reformadores sociais se uniram e formaram um partido político que ameaçou tomar o governo e utilizá-lo para seu programa de paternalismo cesarista, perigo que agora parece ter sido conjurado somente pelo fato de que os outros partidos adotaram seu programa abrandando seu conteúdo e forma”.


5. Racionalismo, Antirracionalismo e Irracionalismo

Há um aspecto, porém, em que podemos afirmar que o liberal ocupa uma posição de centro, a meio caminho entre o socialista e o conservador: ele está tão distante do racionalismo primitivo do socialista, que pretende reconstruir todas as instituições de acordo com um padrão prescrito por sua razão individual, quanto do misticismo ao qual o conservador frequentemente precisa recorrer. O que defini como a posição liberal, tem em comum com o conservadorismo uma desconfiança em relação à razão, na medida em que o liberal está muito consciente de que não sabemos todas as respostas e não tem certeza de que as respostas de que dispõe sejam de fato as certas ou mesmo se poderemos ter respostas para tudo. Além disso, o liberal não se recusa a buscar o apoio de quaisquer hábitos ou instituições não racionais que se revelaram válidos. O liberal difere do conservador na disposição de aceitar esta ignorância e de admitir que sabemos muito pouco, sem reivindicar uma autoridade de origem supranatural do conhecimento sempre que sua razão falhar. Deve-se admitir que o liberal, em alguns casos, é fundamentalmente um cético – mas aparentemente é necessário certo grau de desconfiança para deixar que os outros busquem sua felicidade à sua maneira e para defender com coerência esta tolerância, que é uma característica essencial do liberalismo.

Isto não significa necessariamente que um liberal não tenha uma convicção religiosa. Ao contrário do racionalismo da Revolução Francesa, o verdadeiro liberalismo não é contrário à religião, e apenas posso deplorar a militância antirreligiosa, essencialmente não liberal, que animou grande parte do liberalismo no continente europeu no século XIX. No entanto, tal característica não é essencial ao liberalismo, como o demonstram claramente seus ascendentes ingleses, os antigos Whigs, que, ao contrário, talvez simpatizassem demais com uma determinada crença religiosa. Nesse aspecto, o que distingue o liberal do conservador é que, por mais profundas que sejam suas convicções espirituais, ele nunca se considerará no direito de impô-las aos demais e o fato de, para ele, o espiritual e o temporal serem esferas distintas que não devem ser confundidas.


6. A Denominação do Partido da Liberdade

O que afirmei até agora deveria bastar para explicar por que não me considero um conservador. Muitos acharão, contudo, que essa posição dificilmente corresponde ao que costumavam chamar de “liberal”. Portanto, verificaremos agora se esta denominação ainda é adequada ao partido da liberdade. Já observei que, embora durante toda minha vida eu me tenha definido um liberal, nos últimos tempos tenho feito isto com crescente apreensão – não apenas porque nos Estados Unidos o termo liberal dá margem a constantes equívocos, mas também porque me venho tornando cada vez mais consciente da grande distância existente entre minha posição e a do liberalismo racionalista do continente europeu ou mesmo a do liberalismo inglês dos utilitaristas.

Ficaria extremamente orgulhoso de me definir um liberal, se liberalismo ainda tivesse o significado que lhe atribuiu um historiador inglês que, em 1827, falava da revolução de 1688 como “o triunfo dos princípios que, na linguagem de hoje, são chamados liberais ou constitucionais”, ou se ainda pudéssemos, com Lord Acton, classificar Burke, Macaulay e Gladstone como os três maiores liberais, ou se fosse ainda possível, com Harold Laski, considerar Tocqueville e Lord Acton “os liberais mais autênticos do século XIX”. Porém, por mais que me sinta tentado a julgar o liberalismo desses pensadores um verdadeiro liberalismo, devo reconhecer que os liberais do continente europeu, em sua maioria, defenderam ideias às quais aqueles pensadores se opuseram firmemente e que foram motivados mais pelo desejo de impor ao mundo um padrão racional preconcebido do que pela vontade de favorecer uma evolução espontânea. O mesmo ocorre com o movimento que se denominou liberalismo na Inglaterra, pelo menos desde os tempos de Lloyd George.

É, portanto, necessário reconhecer que o que chamei de “liberalismo” pouca relação tem com qualquer movimento político que hoje assim se denomina. Também se pode questionar se as associações históricas evocadas atualmente por este termo favorecem o êxito de qualquer movimento. É possível discordar quanto à conveniência de, em tais circunstâncias, tentarmos resgatar o termo daquilo que consideramos seu emprego incorreto. Pessoalmente, acredito cada vez mais que utilizá-lo sem longas explicações gera enorme confusão e que, como rótulo, se tomou mais um obstáculo do que uma força motriz.

Nos Estados Unidos, onde se tornou quase impossível usar o termo “liberal” no sentido em que o utilizei, emprega-se em seu lugar o termo “libertário”. Talvez esteja aí a resposta; no entanto, de minha parte, considero-a particularmente sem atrativo. Na minha opinião, tem um excessivo sabor artificial, de sucedâneo. Eu preferiria um termo que definisse o partido da vida, o partido que apoia o crescimento livre e a evolução espontânea. Mas, por mais que me esforçasse, não consegui encontrar um termo descritivo e confiável.


7. Recorrendo aos Velhos “Whigs”

Caberia recordar, entretanto, que, quando os ideais que venho tentando reafirmar se difundiram pela primeira vez no mundo ocidental, o partido que os representava tinha um nome famoso. Foram os ideais dos Whigs ingleses que inspiraram o que mais tarde ficou sendo conhecido em toda a Europa como o movimento liberal e deram origem aos conceitos que os colonizadores americanos levaram consigo e que os guiaram em sua luta pela independência e no estabelecimento de sua Constituição. De fato, até o momento em que o caráter desta tradição foi alterado pelas ideias oriundas da Revolução Francesa, com sua democracia totalitária e suas inclinações socialistas, o partido da liberdade era conhecido pelo nome Whig.

Esse termo morreu no país em que nasceu, em parte porque, durante algum tempo, os princípios que ele representava deixaram de ser distintivos de apenas um partido e, em parte, porque os homens que se denominavam Whigs não permaneceram fiéis a seus princípios. Os próprios partidos Whig do século XIX, tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos, acabaram fazendo cair em descrédito o nome do partido entre os radicais. Todavia, ainda é verdade que, como o liberalismo tomou o lugar do whiguismo somente depois que o movimento pela liberdade absorveu o racionalismo grosseiro e militante da Revolução Francesa, e como nossa tarefa em grande parte é libertar essa tradição das influências de um exagerado racionalismo, nacionalismo e socialismo que nela penetraram, whiguismo é historicamente o nome correto para designar as ideias nas quais acredito. Quanto mais aprendo a respeito da evolução das ideias, mais tenho consciência de que sou um impenitente Whig da velha guarda.

O fato de me confessar um velho Whig obviamente não significa que pretendo voltar à situação em que nos encontrávamos no fim do século XVII. Um dos propósitos deste livro foi mostrar que as doutrinas, formuladas pela primeira vez naquela época, continuaram a crescer e a se desenvolver até cerca de setenta ou oitenta anos atrás, embora já tivessem deixado de constituir o objetivo principal de um partido específico. Desde então, aprendemos muitas noções que nos deveriam permitir reafirmar aquelas doutrinas de maneira mais satisfatória e eficaz. Entretanto, embora exijam uma reformulação à luz de nosso conhecimento atual, os princípios básicos permanecem os mesmos dos velhos Whigs. Indubitavelmente, a história mais recente do partido com esta denominação levou alguns historiadores a se perguntar se de fato existiu um corpo de princípios Whig. Foi nas sociedades Whig que o jovem James Madison e John Adams desenvolveram seus ideais políticos (cf. E. M. Burns, James Madison [New Brunswick, N. J,: Rutgers University Press, 1938], página 4); foram os princípios Whig que, como Jefferson diz, orientaram todos os juristas que constituíam a grande maioria dos signatários da Declaração da Independência e dos membros da Comissão Constitucional (ver Writings of Thomas Jefferson [“Memorial ed.” (Washington, 1905)], XVI, 156). À defesa dos princípios Whig foi levada a tal ponto que mesmo os soldados de Washington se vestiam com o tradicional “azul e ocre”, as cores dos Whigs, assim como os foxites (N.T. – seguidores de Charles James Fox [1749 -1806], político britânico que se tornou um dos mais destacados membros do grupo Whig, liderado por Edmund Burke) do Parlamento britânico, que foram preservadas até nossos dias nas capas da Edinburgh Review. Se uma geração socialista fez do whiguismo seu alvo principal, esta é mais uma razão para os adversários do socialismo defenderem esta denominação, hoje a única que define corretamente os princípios dos liberais gladstonianos, dos homens da geração de Maitland, Acton e Bryce, a última geração cujo objetivo principal era a liberdade e a igualdade ou a democracia.

Lord Acton em que, embora alguns “patriarcas da doutrina gozassem de péssima fama, o conceito de uma lei superior, acima dos códigos municipais, com a qual se iniciou o whiguismo, constitui o feito supremo dos ingleses e seu grande legado para a nação”, e, podemos acrescentar, para o mundo. Trata-se da doutrina sobre a qual se assenta a tradição comum dos países anglo-saxônicos. É a doutrina da qual o liberalismo do continente europeu absorveu tudo que ela tem de mais valioso. É a doutrina em que se fundamenta o sistema americano de governo. Em sua mais pura forma, é representada nos Estados Unidos não pelo radicalismo de Jefferson, nem pelo conservadorismo de Hamilton ou mesmo de John Adams, mas pelas ideias de James Madison, o “pai da Constituição”.

Não sei se ressuscitar esse velho nome será uma medida prática. O fato de que para o povo, tanto nos países anglo-saxônicos, como nos demais, hoje, o termo não possui conotações definidas talvez seja mais uma vantagem do que uma desvantagem. Para as pessoas que conhecem a história das ideias, é certamente a única denominação que expressa o significado da tradição. E, se whiguismo define o que os verdadeiros conservadores e mais ainda os inúmeros socialistas que se tornaram conservadores mais cordialmente odeiam, isto revela um instinto sadio de sua parte. De fato, esta palavra define o único conjunto de ideais que sempre se opôs a todo poder arbitrário.


8. Princípios e Possibilidades Práticas

Pode-se indagar se o nome do partido da liberdade é realmente tão importante. Num país como os Estados Unidos, que de modo geral ainda tem instituições livres e onde, portanto, a defesa daquilo que existe é quase sempre a defesa da liberdade, talvez não seja prejudicial os defensores da liberdade se intitularem conservadores, embora, mesmo aqui, sua associação com indivíduos de natureza conservadora muitas vezes represente motivo de constrangimento. Até quando os indivíduos apoiam as mesmas medidas ou instituições, deve-se perguntar se eles as aprovam simplesmente porque existem ou porque são intrinsecamente boas. Não se deve permitir que sua resistência comum à tendência coletivista nos impeça de compreender que a crença na liberdade integral se baseia essencialmente numa ainda que corajosa aceitação do futuro e não em uma atitude nostálgica em relação ao passado, tampouco em uma admiração romântica por aquilo que foi.

É, porém, absolutamente imperativa a necessidade de uma distinção clara quando, como ocorre em vários países da Europa, os conservadores já aceitaram em grande parte o credo coletivista – que há tanto tempo domina a política, que muitas de suas instituições já são aceitas como um fato consumado, constituindo motivo de orgulho para os partidos “conservadores” que as criaram. Nesse caso, os que acreditam na liberdade não podem evitar o conflito com os conservadores e são obrigados a adotar uma atitude basicamente radical contra os preconceitos populares, as posições de poder estabelecidas e os privilégios profundamente arraigados. Tolices e abusos não mudam sua essência, apenas porque se tornaram princípios de política de governo consagrados pelo tempo.

Embora a máxima quieta non movere possa, em algumas ocasiões, conter muita sabedoria para o estadista, não pode satisfazer um filósofo político. O filósofo pode desejar que certa medida seja adotada com cautela, e não antes que a opinião pública esteja preparada a apoiá-la; mas não pode aceitar medidas apenas porque sancionadas pela opinião pública corrente. Num mundo em que a necessidade básica se tomou, como no início do século XIX, libertar o processo de crescimento espontâneo dos obstáculos e das dificuldades criados pela insensatez humana, as esperanças do filósofo político devem concentrar-se na persuasão e na obtenção do apoio daqueles que por natureza são “progressistas”, aqueles que, embora atualmente busquem mudanças na direção errada, pelo menos estão dispostos a examinar criticamente o que existe e a modificá-lo sempre que necessário.

Espero não ter levado o leitor a interpretar mal a palavra “partido”, que utilizei para designar grupos de pessoas que defendem um conjunto de princípios intelectuais e morais. Não foi objetivo deste livro tratar da política partidária de um país ou outro.

O filósofo político deverá deixar que o “animal astuto e traiçoeiro, vulgarmente chamado de estadista, ou político, cujas opiniões são fruto da momentânea flutuação dos fatos”,resolva a questão de como os princípios que tentei reconstituir juntando os fragmentos de uma tradição podem traduzir-se em um programa de atração popular. A tarefa do filósofo político é influenciar a opinião pública e não organizar o povo para a ação. E ele terá êxito somente se não se voltar para aquilo que é politicamente possível agora, mas defender com firmeza “os princípios gerais duradouros”.

Nesse sentido, duvido que possa existir uma filosofia política conservadora. O conservadorismo pode muitas vezes representar um conceito útil e prático, mas não nos proporciona nenhum princípio orientador capaz de influenciar a evolução futura.


21 de outubro de 2016

RACISMO

Ayn Rand

(Setembro de 1963)

O racismo é a forma mais baixa e mais cruelmente primitiva de coletivismo. É a noção de atribuir significado moral, social ou político à linhagem genética de um homem — é a noção de que os traços caracterizadores e intelectuais de um homem são produzidos e transmitidos por sua química corporal interna. O que quer dizer, na prática, que um homem deve ser julgado, não por sua índole ou ações, mas pelas índoles e ações de um coletivo de antepassados.

O racismo afirma que o conteúdo da mente de um homem (não seu aparato cognitivo, mas seu conteúdo) é herdado; que as convicções, caráter e valores de um homem são determinados antes de seu nascimento, por fatores físicos além de seu controle. Esta é a versão do homem das cavernas da doutrina das ideias inatas — ou do conhecimento herdado —, a qual tem sido completamente contestada pela filosofia e pela ciência. O racismo é uma doutrina de, por e para brutamontes. É uma versão de quintal ou de fazenda de gado do coletivismo, apropriada à mentalidade que diferencia várias raças de animais, mas não animais e homens.

Como toda forma de determinismo, o racismo invalida o atributo específico que distingue o homem de todas as outras espécies vivas: sua faculdade racional. O racismo nega dois aspectos da vida do homem; razão e escolha, ou inteligência e moralidade, substituindo-os por predestinação química.

A família respeitável que sustenta parentes imprestáveis ou os crimes destes a fim de “proteger o nome da família” (como se a estatura moral de um homem pudesse ser prejudicada pelos atos de outro) — o vagabundo que se gaba de que seu bisavô foi um construtor de impérios, ou a solteirona do interior que se gaba de que seu tio materno era um senador estadual e de que seu primo em terceiro grau deu um concerto no Carnegie Hall (como se as realizações de um homem pudessem remover a mediocridade de outro) — os pais que procuram árvores genealógicas a fim de avaliar seus futuros netos — a celebridade que inicia sua autobiografia com um detalhado relatório de sua história familiar — todos estes são exemplos de racismo, as manifestações atávicas de uma doutrina cuja total expressão é a guerra tribal de selvagens pré-históricos, o massacre em massa da Alemanha Nazista, as atrocidades das chamadas “nações emergentes” atuais.

A teoria que sustenta “o sangue bom” ou “o sangue mau" como um critério moral-intelectual somente pode levar a derramamento de sangue, na prática. A força bruta é o único canal de ação aberto aos homens que consideram a si mesmos agregados descuidados de substâncias químicas.

Os racistas modernos tentam provar a superioridade ou a inferioridade de uma suposta raça através das realizações históricas de alguns de seus membros. O espetáculo histórico frequente de um grande inovador que, em sua existência, é zombado, denunciado, bloqueado, perseguido por seus compatriotas e que, então, poucos anos após morrer, é posto num santuário de um monumento nacional e saudado como uma prova da grandeza da raça alemã (ou francesa ou italiana ou cambojana) — é tão revoltante quanto um espetáculo de expropriação coletivista, perpetrado pelos racistas, quanto qualquer expropriação de riqueza material perpetrada pelos comunistas.

Assim como não há uma mente coletiva ou racial, também não existe realização coletiva ou racial. Há apenas mentes individuais e realizações individuais — e uma cultura não é um produto anônimo de massas indiferenciadas, mas o total de realizações intelectuais de homens individualmente considerados.

Mesmo se fosse provado —: o que não é o caso — que a incidência de homens de poder mental potencialmente superior é maior entre os membros de certas raças do que de outras, isto ainda não nos diria nada sobre nenhum suposto indivíduo, e seria irrelevante para o seu julgamento. Um gênio é um gênio, independentemente do número de retardados mentais que pertençam à mesma raça — e um retardado mental é um retardado mental, independentemente do número de gênios que têm a mesma origem racial. É difícil dizer qual é a injustiça mais ultrajante: a reivindicação dos racistas sulistas de que um gênio negro deve ser tratado como inferior, porque sua raça “produziu” alguns brutamontes — ou a reivindicação de um brutamontes alemão ao status de superior porque sua raça “produziu” Goethe, Schiller e Brahms.

Essas não são duas reivindicações diferentes, é claro, mas duas aplicações da mesma premissa básica. A questão de alguém alegar superioridade ou inferioridade de suposta raça é irrelevante: o racismo possui apenas uma raiz psicológica: o senso do racista de sua própria inferioridade.

Como toda forma de coletivismo, o racismo é uma procura pelo não-obtido. É uma procura pelo conhecimento automático — por uma avaliação automática das índoles dos homens que desviam a responsabilidade de exercitar o julgamento racional ou moral — e, acima de tudo, uma procura por uma autoestima automática (ou pseudo-autoestima).

Atribuir às virtudes de alguém a sua origem racial é confessar que não se possui conhecimento do processo pelo qual elas são adquiridas e, mais frequentemente, que se fracassou em adquiri-las. A esmagadora maioria dos racistas é constituída de homens que não obtiveram nenhum senso de identidade pessoal, que não podem reivindicar nenhuma realização ou distinção individual e que buscam a ilusão de uma “autoestima tribal”, alegando a inferioridade de alguma outra tribo. Observe a intensa histeria dos racistas sulistas; observe também que o racismo é muito mais predominante entre a escória branca pobre do que entre os seus experientes intelectuais.

Historicamente, o racismo sempre aumentou ou decaiu com o aumento ou queda do coletivismo. Este sustenta que o indivíduo não tem direitos, que sua vida e trabalho pertencem ao grupo (à “sociedade" à tribo, ao Estado, à nação), e que o grupo pode sacrificá-lo aos seus próprios caprichos e interesses. A única maneira de implementar uma doutrina deste tipo é através da força bruta — e o estatismo sempre foi o corolário político do coletivismo.

O Estado absoluto é simplesmente uma forma institucionalizada de um regime de gangues, independentemente de qual gangue em particular mantenha o poder. E — já que não há justificativa racional para esta regra, já que nada foi ou pode ser oferecido — a mística do racismo é um elemento crucial para toda variante do Estado absoluto. O relacionamento é recíproco; o estatismo vem das guerras tribais pré-históricas, da noção de que os homens de uma tribo são presa natural para os de outra — e estabelece suas próprias subcategorias internas de racismo, um sistema de castas determinadas pelo nascimento de um homem, assim como os títulos de nobreza ou a servidão, herdados.

O racismo da Alemanha Nazista — onde os homens têm de preencher questionários sobre seus ancestrais, a fim de provar sua descendência Ariana — tem seu complemento na Rússia Soviética, onde os homens têm de preencher questionários similares para mostrar que seus ancestrais não possuíam nenhuma propriedade e, assim, provar sua descendência proletária. A ideologia soviética repousa na noção de que os homens podem ser geneticamente condicionados ao comunismo — isto é, que algumas gerações condicionadas pela ditadura transmitirão a ideologia comunista aos seus descendentes, os quais serão comunistas ao nascer. A perseguição das minorias raciais na Rússia Soviética, de acordo com a descendência racial e capricho de qualquer comissário de plantão, é uma questão de registro; o antissemitismo é particularmente predominante — mas agora as perseguições oficiais são chamadas de “depurações políticas”.

Há apenas um antídoto para o racismo: a filosofia do individualismo e seu corolário político-econômico, capitalismo laissez-faire.

O individualismo considera o homem — todos os homens — como uma entidade soberana, independente, que possui um direito inalienável a sua própria vida, direito este derivado de sua natureza de ser racional. Ele sustenta que uma sociedade civilizada, ou qualquer forma de associação, cooperação ou coexistência pacífica entre os homens, pode ser atingida somente com base no reconhecimento dos direitos individuais — e que um grupo, como tal, não possui direitos, a não ser os direitos individuais de seus membros.

Não são os ancestrais ou os parentes ou os genes ou a química corporal de um homem que contam num mercado livre, mas apenas um atributo humano: habilidade produtiva. É por sua própria habilidade e ambição individual que o capitalismo julga um homem e o recompensa correspondentemente.

Nenhum sistema político pode estabelecer a racionalidade universal pela lei (ou força). Mas o capitalismo é o único sistema que funciona de maneira a recompensar a racionalidade e penalizar todas as formas de irracionalidade, incluindo o racismo.

Um sistema capitalista totalmente livre ainda não existiu em lugar nenhum. O que tem grande significado, porém, é a correlação de racismo e controle político, na economia semi-livre do século XIX. Às perseguições raciais e/ou religiosas das minorias mantiveram-se em proporção inversa ao grau de liberdade de um país. O racismo foi mais forte nas economias mais controladas, como na Rússia e Alemanha — e mais fraco na Inglaterra, o país mais livre da Europa, na época.

Foi o capitalismo que proporcionou à humanidade dar seus primeiros passos em direção à liberdade e a uma maneira racional de vida. Foi o capitalismo que atravessou as barreiras raciais e nacionais, por meio do comércio livre. Foi o capitalismo que aboliu a servidão e a escravidão em todos os países civilizados do mundo. Foi o Norte capitalista que destruiu a escravidão do Sul agrário-feudal dos Estados Unidos.

Essa foi a tendência da humanidade pelo breve período de alguns cento e cinquenta anos. Seus resultados e conquistas espetaculares não precisam de reafirmações, aqui.

O aumento do coletivismo reverteu essa tendência.

Quando os homens começaram a ser doutrinados, mais uma vez, com as noções de que um indivíduo não possui direitos, de que a supremacia, a autoridade moral e o poder ilimitado pertencem ao grupo, e de que o homem não possui significância fora de seu grupo — a consequência inevitável foi começar a gravitar na direção de um grupo ou outro, em autoproteção, perplexidade ou terror subconsciente. O coletivo mais simples para se engajar, aquele de mais fácil identificação — particularmente para pessoas de inteligência limitada —, a forma menos exigente de “pertencer” e de “camaradagem”, é: raça.

Foi deste modo que os teóricos do coletivismo, os defensores do “humanitarismo” de um Estado absoluto “benevolente”, levaram ao renascimento e novo e virulento crescimento do racismo no século XX.

Nessa grande era do capitalismo, os Estados Unidos foram o país mais livre sobre a Terra — e a melhor refutação das teorias racistas. Homens de todas as raças vieram para cá, alguns de países obscuros, culturalmente sem distinção, e executaram façanhas de habilidade produtiva que teriam ficado natimortas em suas pátrias dominadas pelo controle. Homens de grupos raciais que estiveram massacrando-se uns aos outros por séculos, aprenderam a viver juntos em harmonia e cooperação pacífica. A América foi chamada de “o cadinho”, por boas razões. Mas poucas pessoas perceberam que a América não fundiu os homens na conformidade cinzenta de um coletivo: ela os uniu por meio da proteção dos direitos à individualidade.

As maiores vítimas deste preconceito racial, que certamente existiu na América, foram os negros. Tratou-se de problema originado e perpetrado pelo Sul não-capitalista, ainda que não confinado às fronteiras. A perseguição dos negros no Sul foi e é verdadeiramente vergonhosa. Mas, no resto do país, visto que os homens eram livres, até mesmo este problema foi vagarosamente cedendo sob a pressão do esclarecimento e dos próprios interesses econômicos dos brancos.

Hoje, este problema está-se agravando — assim como todas as outras formas de racismo. A América tornou-se consciente, no que se refere a raças, de uma maneira remanescente dos piores dias dos países mais atrasados da Europa do século XIX. A causa foi a mesma; o crescimento do coletivismo e do estatismo.

Apesar do clamor por igualdade racial, propagada pelos “liberais” há poucas décadas atrás, o Bureau de Censo relatou recentemente que “o status econômico [do negro] em relação ao branco não melhorou por aproximadamente vinte anos”. Vem-se igualando nos anos mais livres de nossa “economia mista”; deteriorou com a expansão progressiva dos “liberais” do Serviço Social.

O crescimento do racismo numa “economia mista” marcha com o crescimento do controle governamental. Uma “economia mista” desintegra um país, a ponto de levá-lo a uma guerra civil institucionalizada, de grupos de pressão, todos lutando por favores legislativos e privilégios especiais às custas um do outro.

A existência destes grupos de pressão e de seus lobbies políticos é atualmente reconhecida de maneira aberta e cínica. O pretexto de qualquer filosofia política, princípios, ideais ou objetivos de longo prazo, está desaparecendo rapidamente de nosso cenário — e deve-se admitir que este país está agora navegando sem direção, à mercê de um jogo de poder cego, de curto prazo, disputado por várias gangues estatistas, todas com intenção de conseguir apoio de um figurão do Poder Legislativo para tirar qualquer vantagem especial imediata.

Na ausência de uma filosofia política coerente, todo o grupo econômico vem agindo como seu próprio destruidor, liquidando seu futuro por algum privilégio momentâneo. A política dos homens de negócios foi, por algum tempo, a mais suicida, a este respeito. Foi, porém, ultrapassada pela política corrente dos líderes negros.

Enquanto os líderes negros estavam lutando contra a discriminação imposta pelo governo — direito, justiça e moralidade estavam de seu lado. Mas não lutam mais por isso. As confusões e as contradições que circundam a questão do racismo, atingiram agora um clímax inominável.


É hora de esclarecer os princípios envolvidos.

A política dos estados sulistas em relação aos negros era e é uma contradição vergonhosa dos princípios básicos deste país. Discriminação racial, imposta e impingida pela lei, é uma infração tão ruidosamente indesculpável dos direitos individuais, que os estatutos racistas do Sul deveriam ter sido declarados inconstitucionais há muito tempo.

A alegação dos racistas sulistas dos “direitos dos estados” é, em termos, uma contradição; não pode haver algo como “direitos” de alguns homens de violar os de outros. O conceito constitucional de “direitos dos estados” pertence à divisão do poder entre as autoridades nacionais e locais e serve para proteger os estados do governo federal; não concede ao estadual um poder arbitrário e ilimitado sobre seus cidadãos, ou o privilégio de anular os direitos individuais destes.

Foi verdade que o governo federal usou a questão racial para estender seu próprio poder e estabelecer um precedente de abuso sobre os direitos legítimos dos estados, de uma maneira inconstitucional e desnecessária. Mas isto simplesmente significa que ambos os governos estão errados; não é desculpa para a política dos racistas do Sul.

Uma das piores contradições, neste contexto, é a posição de muitos — chamados — “conservadores” (não confinados exclusivamente ao Sul) que afirmam ser defensores da liberdade, do capitalismo, dos direitos de propriedade, da Constituição, ainda que ao mesmo tempo defendam o racismo. Eles não parecem possuir interesse suficiente nos princípios para perceber que estão puxando o tapete sob seus próprios pés. Os homens que negam os direitos individuais não podem afirmar, defender ou sustentar direitos, quaisquer que sejam. São estes supostos campeões do capitalismo que estão ajudando a desacreditá-lo e a destruí-lo.

Os “liberais” são culpados pela mesma contradição, mas de forma diferente. Defendem o sacrifício de todos os direitos individuais a uma norma de maioria ilimitada — ainda que posem como defensores dos direitos das minorias. Mas a menor minoria da Terra é o indivíduo. Os que negam os direitos individuais não podem conclamar-se defensores de minorias.

Este acúmulo de contradições, pragmatismo míope, desprezo cínico por princípios, irracionalidade ultrajante, alcançou agora seu clímax, nas novas exigências dos líderes negros.

Ao invés de lutar contra a discriminação racial, estão exigindo que ela seja legalizada e imposta. Ao invés de lutar contra o racismo, estão exigindo o estabelecimento de cotas raciais. Ao invés de lutar pelo “daltonismo” nas questões econômicas e sociais, estão proclamando que ele é nocivo, e que se deve tornar a “cor” uma consideração fundamental. Ao invés de lutar por direitos iguais, estão exigindo privilégios especiais de raça.

Estão exigindo que cotas raciais sejam estabelecidas com respeito a empregos, e que estes sejam distribuídos em bases raciais, proporcionalmente à porcentagem de uma suposta raça na população local. Por exemplo, já que os negros constituem 25 por cento da população da cidade de Nova Iorque, eles exigem 25 por cento dos empregos em determinado estabelecimento.

As cotas raciais têm sido um dos piores males do regime racista. Elas existiam nas universidades da Rússia czarista, na população das principais cidades da Rússia, etc. Uma das acusações contra os racistas neste país é que algumas escolas praticam um sistema secreto de cotas raciais. Foi considerada uma vitória para a justiça o fato dos questionários para empregos pararem de perguntar sobre a raça e a religião dos candidatos.

Atualmente, não é um opressor, mas um grupo minoritário oprimido, que está exigindo o estabelecimento de cotas raciais.

Esta exigência específica foi demais, até mesmo para os “liberais”. Muitos deles a denunciaram — apropriadamente — com chocada indignação.

Escreveu o The New York Times (23 de julho de 1963): “Os manifestantes estão seguindo um princípio verdadeiramente vicioso ao fazerem o ‘jogo dos números’. Uma exigência de que 25 por cento (ou qualquer outra porcentagem) de empregos sejam dados aos negros (ou a qualquer outro grupo) é errada por uma razão básica: requer um sistema de cotas, que é em si mesmo discriminador... Este jornal lutou por muito tempo contra uma cota religiosa com relação aos juízes; nós igualmente nos opomos à cota racial com respeito a empregos, dos mais nobres aos mais humildes”.

Como se o racismo óbvio desta exigência não fosse o suficiente, alguns líderes negros foram ainda mais longe. Whitney M. Young Jr., diretor executivo da Liga Urbana Nacional, fez a seguinte declaração (NY. Times, 1o de agosto): “A liderança branca deve ser honesta o suficiente para afirmar que, através de toda a nossa história, existiu uma classe privilegiada, especial, de cidadãos, que recebeu tratamento preferencial. Esta classe foi a branca. Agora, estamos dizendo: se dois homens, um negro e um branco, são igualmente qualificados para um emprego, contrate o negro”.

Considere as implicações desta declaração. Não exige simplesmente privilégios especiais com pretextos raciais — exige que os homens brancos sejam penalizados pelos pecados de seus ancestrais. Exige que um trabalhador branco seja recusado num emprego porque seu avô pode ter feito discriminação racial. Mas talvez seu avô não tenha feito. Ou talvez seu avô não tenha nem mesmo morado neste país. Já que estas questões não são consideradas, significa que este trabalhador branco deve ser cobrado por uma culpa racial coletiva, a culpa consistindo simplesmente na cor de sua pele.

O único comentário que se pode fazer sobre exigências deste tipo é: “Com que direito? — por qual código? — por qual critério?”

Essa política absurdamente nociva está destruindo a base moral da luta dos negros. O caso destes repousa no princípio dos direitos individuais. Se exigem a violação dos direitos dos outros, negam e confiscam os seus próprios. Então a mesma resposta aplica-se a eles, assim como aos racistas do Sul: não pode haver algo como “direito” de alguns homens de violarem os dos outros.

Contudo, toda a política dos líderes negros está, agora, movendo-se nesta direção. Por exemplo, a exigência por cotas raciais nas escolas, com o propósito de que centenas de crianças, brancas e negras, sejam forçadas a ir à escola em bairros distantes — com o propósito de “equilíbrio racial”. Isto é, novamente, puro racismo. Como oponentes desta exigência salientaram, designar crianças para determinadas escolas por motivo de raça é igualmente nocivo, se feito com propósito de segregação ou integração. E a mera ideia de usar crianças como fantoches num jogo político deve ultrajar seus pais, de qualquer raça, credo ou cor.

O projeto de lei de “direitos civis”, atualmente sob a consideração do Congresso, é outro exemplo de uma infração gritante aos direitos individuais. É correto proibir toda discriminação nas instalações e nos estabelecimentos governamentais: este não possui direito de discriminar qualquer cidadão. E, pelo mesmo princípio, não possui direito de discriminar alguns cidadãos, à custa de outros. Não possui o direito de violar o direito à propriedade privada, proibindo a discriminação em estabelecimentos pertencentes à iniciativa privada.

Nenhum homem, negro ou branco, possui qualquer direito à propriedade de outro. Os direitos de um homem não são violados pela recusa de um cidadão a tratar com ele. O racismo é uma doutrina nociva, irracional e moralmente desprezível — mas doutrinas não podem ser proibidas ou prescritas por lei. Assim como precisamos proteger a liberdade de discurso de um comunista, apesar de suas doutrinas serem nocivas, temos de proteger o direito de um racista ao uso e emprego de sua própria propriedade. O racismo privado não é uma questão legal, mas moral — e pode ser combatido apenas por meios privados, como boicote econômico ou ostracismo social.

É desnecessário dizer que, se este projeto de lei dos “direitos civis” for aprovado, será a pior transgressão aos direitos de propriedade no registro lamentável da história americana a respeito deste assunto.

Mas esse é o princípio do pior racista do Sul, que cobra de todos os negros a culpa racial coletiva de qualquer crime cometido por um indivíduo negro, e que trata a todos como inferiores, pelo motivo de que seus ancestrais eram selvagens.

É uma demonstração irônica da insanidade filosófica e da tendência consequentemente suicida de nossa era, o fato dos homens que precisam mais urgentemente da proteção dos direitos individuais — os negros — estarem agora na vanguarda da destruição destes direitos.

Uma palavra de advertência: não se tornem vítimas dos mesmos racistas, sucumbindo ao racismo; não sustentem, contra todos os negros, a irracionalidade vergonhosa de alguns de seus líderes. Nenhum grupo possui qualquer liderança intelectual adequada ou qualquer representação conveniente, na atualidade.

Para concluir, devo citar o editorial assombroso de 4 de agosto do The N.Y. Times — assombroso porque ideias desta natureza não são típicas de nossa época: “Porém a pergunta não deve ser se um grupo identificável em cor, características ou cultura possuí seus direitos como grupo. Não, a pergunta é se qualquer indivíduo americano, independentemente de cor, características ou cultura, é privado de seus direitos como americano. Se o indivíduo possui todos os direitos e privilégios pertencentes a ele sob a lei e a Constituição, não precisamos nos preocupar com grupos e massas — estes, de fato, não existem, exceto como figuras de linguagem.”